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O mundo observa os homens ocos do Brasil

05.04.2016
 
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O repulsivo espetáculo político segue seu curso e só se compara aos lamentáveis eventos do golpe militar de Pinochet no Chile em 1973 e o rápido domínio estadunidense no Iraque em 2003.

Por: Pepe Escobar

Somos os homens ocos

Os homens cheios de pó de madeira

Que se apoiam uns contra outros

Com cabeças embutidas de palha. Seja!

Ásperas nossas vozes, quando

Sussurramos juntos

Ficas, sem sentido

Como vento sobre erva seca

Ou o trotar de ratos sobre vidros quebrados

Nos sótãos secos

 

T.S. Eliot, Os homens ocos, 1925

 

O repulsivo espetáculo político segue seu curso e só se compara aos lamentáveis eventos do golpe militar de Pinochet no Chile em 1973 e o rápido domínio estadunidense no Iraque em 2003.

A presidenta do Brasil corre o risco de ser destituída de seu alto cargo, para o qual foi eleita limpamente por 54,5 milhões de brasileiros, através de umas falsas acusações fiscais que não foram totalmente estudadas pelo Parlamento. O sórdido procedimento será levado a cabo por um político que é a personificação da corrupção no Brasil contemporâneo.

Ademais, o império midiático Globo, um dos maiores do mundo, tem tratado de convencer a sociedade civil brasileira de que o que se gesta não é um golpe nem uma destituição. Evidentemente, a Globo brindou todo seu apoio à ditadura civil-militar brasileira de 1964 que o governo estadunidense patrocinou.

No entanto, alguém se esqueceu de mencionar a poderosa Federação das Indústrias do Estado de São Paulo [Fiesp], o estado mais rico do país, e que recentemente financiou alguns vultosos anúncios: "destituição já", nos principais diários do país.

Mentirosos. Todos eles. O que um grupo de imorais homens ocos trata de fazer não é mais que um processo de mudança e regime via golpe branco ou uma destituição ilegal, que já tinha se anunciado com antecipação, como parte de uma guerra híbrida contra o Brasil.

 

Enfim livres

 

O império midiático Globo, que, aliás, está ganhando muito dinheiro com a crise brasileira e os negócios com dólares estadunidenses, está histérico devido à lista de 500 nomes da Odebrecht que oferece detalhes de políticos brasileiros corruptos; o interessante é que a lista data de fins de 1980 e começos dos 90s.

Tal como se esperava, a Globo se recusou a citar o ex-empregado da Odebrecht que manteve em seu poder a lista por mais de uma década. Ela admite que alguns dos crimes poderiam ter prescrito, porém o mérito da lista é mostrar como a rede de corrupção que envolve as empreiteiras e os políticos tem sido um elemento permanente todos estes anos. Ela acrescentou, "a reforma é a saída, não a satanização do Partido dos Trabalhadores".

Digamos isso aos advogados brasileiros que, como parte do acordo com a Odebrecht, estão mais obcecados em receber em bandeja de prata a cabeça de Lula que erradicar a corrupção. Esses políticos aparecem numa lista prévia de 300 nomes da Odebrecht, ali se inclui quem é quem na oposição de direita e as velhas elites, sonham em sair bem aliviados. Igualmente, o império Globo ofereceu um acordo similar ao pai do empresário Marcelo Odebrecht, que está em prisão "preventiva" desde junho de 2015; seu filho "obterá ajuda" se delata a Lula.

Isso nos aproxima do coração da midiatizada investigação da Operação Lava Jato que já dura dois anos. Não existe absolutamente nada contra Lula que o incrimine aos documentos de contas ilegais no estrangeiro. Porém, para "imputá-lo" os politizados advogados só pensam em destruí-lo e, com ele, a uma das poucas companhias brasileiras que são competitivas em escala global.

As acusações contra a presidenta Dilma Rousseff também são infundadas. A primeira imputação se centrou no custo para o Ministério da Fazenda de alguns programas sociais; porém logo se descobriu que o Ministério da Fazenda se beneficiou com os referidos programas.

Os fundos que o Ministério da Fazenda outorgou ao BNDES, um dos maiores bancos de desenvolvimento do mundo e o modelo para o banco dos BRICS, segundo se revelou, é 20 vezes menor do que o montante que se devia ao banco.

O suposto caso contra Dilma Rousseff não tem nenhum lastro, uma vez que analisamos o ano fiscal de 2015, o único que pode ser levado em conta para um processo de destituição. Nessa época, o Governo forneceu 19 bilhões de dólares para um fundo de contingência; isso, mais que brincar com os fundos públicos, é uma visão.

O fundo do assunto com Dilma, que não tem sido formalmente acusada de nenhum delito, é que será "julgada" por um grupo de bandidos no Congresso, liderados pelo titular de uma conta ilegal na Suíça e que é o líder da câmara baixa, além de ser um sinistro sequaz que é quem originalmente difundiu a suposta conduta dolosa de Dilma Rousseff. Este duo de facínoras, por sua parte, poderia ter que responder a algumas acusações muito graves de corrupção, além de estar muito bem documentadas.

 

 

Os abutres aguardam

Este lamentável espetáculo no Brasil é essencialmente de grupos de intriga e de financiamento de campanhas. Essa é uma prática muito comum nos Estados Unidos. Os referidos grupos poderiam ser castigados numa investigação nos Estados Unidos. No entanto, tratar de encontrar os advogados que estejam dispostos, durante o processo, a destruir uma importante companhia estadunidense, poderia reduzi-los a um beco sem saída.

A jovem e vibrante democracia brasileira não mudou o suficiente como para legalizar aos grupos de intriga. O que fica, certamente, é a selva da corrupção política. Isso leva a uma maquinaria de delações frenéticas, tudo excessivamente politizado, claro está.

A investigação do caso Lava Jato trouxe à luz uma enorme rede que financia todo o espectro político. Ali, algumas importantes companhias do setor de construção, Odebrecht entre elas, se viram envolvidas, enquanto a Petrobras foi só parte de todo o assunto.

No entanto, uma decisão política -que foi tomada por parte do poder judiciário, da polícia federal, dos grandes meios de comunicação [controlados por quatro famílias] e das velhas elites de empreiteiros- centrou a investigação só na Petrobras e no Partido dos Trabalhadores, justamente desde que o partido chegou ao poder com Lula à frente em 2003. A corrupção passada e presente foi totalmente ignorada.

Esta decisão política foi decisiva e levou o caso Lava Jato de ser uma investigação por corrupção a converter-se numa arma para massacrar um partido político. Agora que a Odebrecht entra na roda e destapa a podridão de todo o sistema, a Lava Jato já não tem nenhum sentido.

Agora se compreende porque este fato passou ao Congresso. O que realmente importou, desde o começo, não foi erradicar a corrupção do sistema político brasileiro, mas sim criar as condições para poder destituir a uma presidenta eleita.

O que temos agora é um homem oco para o cargo, o vice-presidente Michel Temer, o líder do golpe, e a maioria do Congresso, os homens ocos, como vassalos. Esses bandidos realmente pensam que Dilma Rousseff pode ser afastada facilmente do poder, talvez em 19 ou 20 de abril. Enquanto isso, o Senado dirigirá várias negociações obscuras; se porá em marcha um programa econômico neoliberal; os deuses do livre mercado estarão em festa e o caso do Lava Jato terá uma morte lenta e indolor porque se terá extraído o "tumor" principal, o Partido dos Trabalhadores.

Os fundos abutres estarão de parabéns. O Brasil se converterá, novamente, no "investidor amigável". A quem lhe importa um Governo provisório e ilegítimo que pode inclusive estar ligado a "crimes de responsabilidade" muito graves? A elite judiciária, a da mídia e a de velhos empreiteiros dançarão na escuridão até que...a recessão se negue a retroceder. A corrupção continuará carcomendo as estruturas do sistema e o nocivo legado do homem oco permeará todas as ações enquanto o mundo observa a avançada putrefação de um corpo já corrupto.

 

 

Este conteúdo foi publicado originalmente por teleSUR sob o seguinte endereço
http://www.telesurtv.net/opinion/El-mundo-observa-a-los-hombres-huecos-de-Brasil-20160330-0066.html.

 

Tradução de Joaquim Lisboa Neto

 


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