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SPD vira finalmente à esquerda

03.12.2019
 
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SPD vira finalmente à esquerda

Após ver-se esvaziado de eleitores depois de mais de uma década desgastado como membro de governos de bloco central com a CDU de Angela Merkel, a vitória surpresa de Saskia Esken e Norbert Walter-Borjans em eleições directas levaram, finalmente, a ala esquerda à direcção do partido.

Flávio Gonçalves, Pravda.ru

Há muito que vemos com desagrado a persistência do SPD, partido congénere do Partido Socialista na Alemanha, em governos de bloco central com a direita liberal-conservadora mesmo quando nas últimas eleições prometera que não aceitaria integrar novamente um governo centrista - promessa que não cumpriu.

Creio ser aqui necessário realçar que o Partido Social-Democrata alemão (SPD), não é um mero partido alemão, é em termos práticos um dos dois partidos fundacionais do socialismo democrático europeu a par com o Partido Trabalhista britânico. Fundado a 23 de Maio de 1863, o SPD conta com uma história de 156 anos cujos piores momentos incluíram a perseguição por parte do regime nazi.

Como socialista português, há que destacar quão importante foi a intervenção do SPD na consolidação do PS após o 25 de Abril de 1974, principalmente o do seu think tank, a Fundação Friedrich Ebert que conta ainda hoje com um gabinete em Lisboa, colaborando com o Instituto Rube Rolo e com a Fundação Res Publica, que edita a revista "Finisterra" sob a direcção de Eduardo Lourenço.

A título pessoal, tenho optado por incluir na "Libertária", a revista socialista democrática de inspiração libertária por mim editada, não só a referência aos fundadores do SPD e do socialismo europeu, Eduard Bernstein e Karl Kautsky nos números já publicados, mas também tentado incluir textos de quadros intelectuais do actual SPD, o que tem ocorrido.

De certo modo o que o SPD faz primeiro alastra-se ao que os restantes partidos filiados ao Partido Socialista Europeu fazem em seguida, e a norma tem sido preocupante e, a nosso ver, a principal responsável pelo descalabro dos partidos socialistas na Europa, que ao adoptar o dogma do capitalismo liberal de que vivemos "no único mundo possível" abandonou as suas raízes e tornou-se indistinguível do partido de Angela Merkel, vendo o seu eleitorado fugir para o A Esquerda à sua esquerda e para a Alternativa Para a Alemanha à sua direita.

A ala esquerda

Os primeiros indícios de que a militância de base do SPD estava a ficar farta de se cingir ao ingrato papel de ser a mera ala esquerda do centro-direita, onde a CDU de Merkel ficava com os louros de todos os travões e medidas aplicadas pelo SPD, foi em 2017 com a vitória de Kevin Kühnert como líder da juventude do partido.

Gay assumido, mas sem considerar que tal seja relevante em política, Kühnert não é licenciado e iniciou a sua carreira laboral como trabalhador precário em call centers antes de se tornar assessor dos deputados do SPD no Parlamento Estatal de Berlim. Foi também sindicalista e activista do Centro Willy Brandt de Jerusalém, centro este sido fundado em conjunto com a juventude do SPD e duas jotas locais, uma palestiniana (Juventude Fatah) e uma israelita (Juventude Trabalhista), para servir como terreno neutro e ponto de encontro trilateral para jovens alemães, israelitas e palestinianos.

Em Maio de 2018 a revista "Time" apodou Kevin Kühnert como "o líder da próxima geração" do SPD e este tornou-se ainda mais famoso quando numa entrevista do "Die Zeit" este ano defendeu a comunitarização de empresas de grande dimensão como a BMW, ou seja: defendendo a inclusão de trabalhadores nas direcções das mesmas, o que causou grande incómodo na ala centrista do SPD.

Saskia Esken e Norbert Walter-Borjans são considerados próximos de Kevin Kühnert e foram fotografas juntos bastas vezes na noite do triunfo da ala esquerda, que muitos julgavam ser irrelevante e até inexistente, cansando uma onda de choque com os jornais, tanto na Alemanha como em Portugal, a vaticinarem que talvez até faça cair o governo de Angela Merkel nas próximas semanas se este não aceitar as novas reivindicações que o "novo" SPD irá negociar com os democratas-cristãos muito em breve.

Os líderes

Norbert Walter-Borjans foi ministro das Finanças do Estado da Renânia do Norte-Vestefália, o mais populoso de todos os 16 Estados que constituem a Alemanha e aquele com a maior secção de militantes do SPD, e ficou conhecido por ter utilizado dados oriundos de denunciantes, algo que até devia ser comum na era WikiLeaks, para perseguir empresas e milionários que utilizavam bancos suíços para fugirem aos impostos. Digamos que foi uma medida muito bem vista pelo público de um modo geral, mas já não tanto pelos seus pares políticos, tanto dentro como fora do partido.

Saskia Esken é deputada desde 2013 e especialista em Tecnologias da Informação, fazendo parte da associação Esquerda Parlamentar, que inclui deputados de vários partidos de esquerda numa espécie de concertação ao estilo da Geringonça. Tornou-se mais conhecida junta da esquerda activista alemã por defender políticas que defendem os direitos dos consumidores bem como os direitos digitais, tendo sido uma das deputadas que se opôs publicamente à lei de censura prévia e ao seu Artigo 13 aprovada no Parlamento Europeu, e que muitos socialistas portugueses, eurodeputados até, julgam ainda tratar-se de uma mera lei de direitos de autor, o que é falso.

Na agenda de ambos encontram-se o reforço de políticas sociais, a oposição das políticas de austeridade de "Défice Zero" que as coligações SPD-CDU têm aplicado e a criação de políticas reais para combater as alterações climáticas.

 

Um novo socialismo?

Em tempos defendemos que os partidos socialistas europeus estavam em crise, com excepção do PS de António Costa e do Labour de Jeremy Corbyn, em Espanha vimos como Pedro Sánchez perdeu inicialmente o comboio depois de muito ter elogiado a Geringonça, mas na prática ter recusado acordos reais com a esquerda até ser quase demasiado tarde, nada garante que o acordo que fez com o Podemos, agora quando ambos não atingem já a maioria absoluta, tenha grande futuro.

Em Portugal também houve um retrocesso que nos desagradou com a recusa do PS em firmar um acordo escrito com o Bloco de Esquerda, Os Verdes, o Partido Comunista (que também afirmou não o querer) ou até com o PAN. Pode ser que estejamos enganados, mas tal não augura que o actual governo PS cumpra o mandato na integra ou, fazendo-o, se irá resistir à tentação do bloco central.

Mas nem tudo é mau no socialismo europeu, em Itália o Partido Democrata também tenta acertar o passo, e agora com o SPD renovado à esquerda será uma questão de tempo até que tal se generalize.

 

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Flávio Gonçalves é membro do Conselho Consultivo do Movimento Internacional Lusófono, sócio fundador do Instituto de Altos Estudos em Geopolítica e Ciências Auxiliares, activista do Conselho Português para a Paz e Cooperação, tradutor, revisor, autarca, editor da Libertaria.pt e colaborador dos Pravda.ru, Center for Global Research e Jacobin Brasil, pode segui-lo em twitter.com/flagoncalv e fb.com/flagoncalv

 

Foto: Wikicommons

 


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