Author`s name Timothy Bancroft-Hinchey

Quem poderá salvar os EUA: Obama ou McCain?

Os Estados Unidos são uma potência decadente: seu sistema político e econômico está dando sinais inegáveis de exaustão. A maioria da sua população não confia mais na sua demoracia e nem se dá ao trabalho de votar, e está disposta a sacrificar direitos e liberdades em troca de uma segurança supostamente maior. O déficit orçamentário, causado por gastos militares absurdamente altos, não pára de crescer, e a demanda internacional por dólares, que sustentava o valor da moeda, não pára de cair.

Há apenas um partido nos Estados Unidos, o Partido da Propriedade, e ele tem duas alas: republicana e democrata. Os republicanos são um pouco mais estúpidos, mais rígidos, mais doutrinários no seu capitalismo laissez-faire que os democratas, que são mais amáveis, mais agradáveis (...) e mais dispostos que os republicanos a fazer pequenos ajustes quando os pobres, os negros e os anti-imperialistas saem de controle. Mas, essencialmente, não há diferença entre os dois partidos.

Gore Vidal

Os Estados Unidos são uma potência decadente: seu sistema político e econômico está dando sinais inegáveis de exaustão. A maioria da sua população não confia mais na sua demoracia e nem se dá ao trabalho de votar, e está disposta a sacrificar direitos e liberdades em troca de uma segurança supostamente maior. O déficit orçamentário, causado por gastos militares absurdamente altos, não pára de crescer, e a demanda internacional por dólares, que sustentava o valor da moeda, não pára de cair. Ao mesmo tempo, o petróleo atinge níveis recordes de preço, tornando ainda mais difícil para os EUA fecharem suas contas. Internacionalmente, a grande potência é reconhecida como um império em quase todos os países do mundo, não consegue submeter guerrilheiros mal armados no Iraque e no Afeganistão, e mesmo uma região historicamente submissa, a América do Sul, está unindo-se para formar um polo independente de poder.

Isso não significa que o fim esteja próximo: os EUA ainda têm a maior economia do mundo, são de longe a mais poderosa potência militar, e lideram em quase todos os campos da ciência e tecnologia. Porém, já se vê que o gigante tem pés de barro e irá cair, como todos os impérios que já existiram antes.

No dia 4 de novembro deste ano acontecerão as eleições presidenciais nos EUA. Qual dos dois candidatos principais a presidente tem as melhores propostas para resolver os problemas de seu país e restaurar sua grandeza perdida: o republicano John McCain, ou o democrata Barak Obama? Qual deles poderá reverter o curso fatal dos EUA e impedir sua queda definitiva? No presente artigo, vamos expor cenários possíveis segundo a vitória de cada um deles, para tentar responder essa pergunta.

O candidato republicano tem uma grande desvantagem: é do mesmo partido que o atual presidente, George W. Bush, o mais impopular líder que os EUA já tiveram. Por isso, a campanha de McCain se concentra em mostrar suas diferenças com o atual presidente. Uma tarefa muito difícil - afinal, ele representa os mesmos ideais e interesses ultraconservadores do Partido Republicano: apóia a permanência das tropas estadunidenses no Iraque, é favorável à diminuição de impostos para os ricos, quer reduzir os gastos em bem estar social, é radicalmente contra negociações diplomáticas com o Irã e provavelmente favorecerá uma guerra (ou pelo menos um ataque aéreo maciço) contra este país por seu suposto programa de armas de destruição em massa, e apóia incondicionalmente Israel no seu conflito com os palestinos.

Algumas das poucas diferenças de McCain com Bush é que ele tentou abrandar as técnicas mais “duras” (ou seja, de tortura) contra os supostos terroristas detidos no Afeganistão e no Iraque, apóia medidas de proteção ao meio ambiente e é favorável a pesquisas genéticas e com células-tronco.

Pouco mudará na política interna e externa dos EUA caso McCain ganhe as eleições. A “guerra contra o terror” continuará, assim como o aumento da presença militar estadunidense no mundo e o belicismo contra o “eixo do mal” (Irã, Coréia do Norte, Cuba e Síria), inclusive ameaçando mais duramente estes países com um grande ataque; seguirá a política equivocada de apoiar irrestritamente Israel, que tanto ódio gera no mundo islâmico; o déficit nos gastos públicos, o calcanhar de Aquiles da economia norte-americana, aumentará, por conta dos excessivos gastos militares; e a desigualdade social no seu país continuará crescendo, devido a políticas econômicas que beneficiam exclusivamente os mais ricos. Em alguns casos será até pior que a política de seu antecessor: sua postura russófoba favorecerá a expulsão da Rússia do G-8 (o grupo das sete economias mais desenvolvidas, mais a Rússia), e acelerará a expansão da OTAN e a construção do sistema antimísseis na Europa.

Barak Obama, por outro lado, tem maiores chances de chegar à presidência, considerando que nas últimas eleições legislativas os democratas conseguiram muito mais votos que os republicanos. E Obama também traz a esperança de ansiadas mudanças na política interna e externa dos EUA: foi dos poucos congressistas que desde o início se opôs à invasão do Iraque (a senadora democrata e pré-candidata derrotada, Hillary Clinton, votou a favor da guerra em 2003), no ano passado propôs um plano de retirada das tropas estadunidenses do Iraque para este ano, afirmou que pretende negociar com todos os líderes do chamado “eixo do mal”, critica as ameaças de guerra de Bush e McCain contra o Irã, é favorável à criação de um sistema de seguridade social universal (algo que nunca existiu em seu país), foi contrário à redução de impostos aos mais ricos e propõe um corte similar às classes média e baixa, e pretende reduzir o déficit orçamentário. Se colocadas em prática, essas propostas melhorariam muito a situação política e econômica dos EUA, aumentariam sua segurança e começariam a limpar a suja imagem que Bush deixou.

Além disso, Obama provavelmente recuperará a confiança das minorias e dos mais pobres no sistema político estadunidense. Afinal, ele é um mestiço, cujo pai era um imigrante queniano e a mãe anglo-saxônica, e com um sobrenome estranho que lembra o do “inimigo número 1 da América” (Osama bin Laden). Que ele tenha chegado a senador já foi uma grande conquista.

Porém, não se pode esperar uma mudança radical. Obama é membro de um grande partido, e arrecadou até agora nada menos que 265 milhões de dólares para sua campanha presidencial, o que torna bastante difícil que ele seja realmente independente. Além disso, declarou seu apoio absoluto a Israel e às campanhas colombianas fora de seu território, para eliminar a “ameaça terrorista das FARC”, como recentemente ocorreu no Equador.

Também ameaçou atacar a organização terrorista Al Qaeda em território paquistanês, propondo criar mais um teatro de operações da “guerra contra o terror”. E embora seja razoavelmente favorável a boas relações com a Rússia, seu principal conselheiro internacional é Zbigniew Brzezinski, antigo conselheiro de segurança nacional do ex-presidente Jimmy Carter: foi ele quem criou a Al Qaeda, ao financiar os radicais islâmicos no Afeganistão que lutavam contra o governo socialista apoiado pela União Soviética, e continua sendo até hoje um russófobo visceral, que busca a desintegração da Rússia e defende ardorosamente a expansão da OTAN. Por isso, a Rússia nem deveria ter esperanças de que a expansão da aliança atlântica e a construção do sistema antimísseis se detenha, pois nem McCain nem Obama farão isso.

Obama provavelmente reduzirá os gastos militares de seu país, buscará sempre que possível o aval das Nações Unidas antes de qualquer ação internacional, ou pelo menos de seus aliados, reduzirá a belicosidade que tanto caracterizou os EUA nos últimos oito anos, conseguirá recuperar a economia e melhorar as condições de vida dos mais pobres. Mas, como bem notou o ex-presidente soviético Mikhail Gorbatchov, todos os presidentes dos EUA, desde a Segunda Guerra Mundial, iniciaram pelo menos uma guerra. Resta saber se Obama será o primeiro a quebrar essa vergonhosa tradição, ou se não resistirá a atacar pelo menos um país para ganhar a simpatia dos setores mais conservadores e das indústrias de armamento, tão influentes no governo.

McCain com certeza não poderá reverter o curso de decadência dos EUA, e Obama provavelmente também não. Para isso, seria preciso um presidente que mudasse radicalmente a política interna e externa do país, e nenhum dos dois quer ou pode fazê-lo. A única diferença é que McCain tomará o caminho mais curto para a decadência, acelerando-a com políticas inflexivelmente oligárquicas e imperialistas; e Obama, ao suavizá-las, dará uma volta mais comprida, desviando ligeiramente o curso, mas talvez não o suficiente para evitar a debacle final. Somente um candidato independente e com idéias radicalmente novas poderia recuperar os EUA, e transformá-lo naquilo que seus fundadores sonharam: um país de pequenos proprietários, livres, iguais e pacíficos. Embora tais candidatos existam, o sistema oligárquico, rigidamente bipartidário, garante que seja praticamente impossível que algum deles chegue ao poder.

Carlo MOIANA

Pravda.ru

Buenos Aires