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El Quixote de la Paulista

29.12.2008 | Fonte de informações:

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Exagero e vaidade. Claro que nenhum daqueles saudosos e queridos amigos se identificariam com um neófito despontando pelugens no queixo. Eram homens e mulheres de 30 a 40 anos e, no máximo,sensibilizei seus sensos paternais. Mas, discípulo aplicado, ao longo do tempo fui me tornando informante de meus mestres sobre as realidades desses Brasis por onde vaguei. Bem verdade que de Joel, Ivanzinho, e o cabecita negra Jorge Lescano (que soube falecido em minha última passagem por São Paulo), e sem esquecer o Mário e o João Borba (da turma do Solano Trindade) em pouco tempo fiz-me irmão mais novo. Algumas vezes até conselheiro, e não há nisso vaidade alguma, pois resultava de mera reciprocidade ou, aí sim e já então, total identificação quando as experiências de todos já eram tantas e tão conjuntas que se confundiam.

Apesar de ter saído de São Paulo na primeira metade dos anos 70, impossível contar de mim naquela década e nas seguintes sem me referir a estes tão caros amigos. Especialmente o Joel Câmara, pois foram algumas nossas viagens pela Serra da Mantiqueira, para as Minas Gerais em busca dos cenários e personagens de Guimarães.

Me retorna agora a comoção do reencontro que promovi, depois de tantos anos, entre Joel e o magnífico interprete e compositor João Borba. Chico Cordão e demais amigos presentes se silenciaram às lágrimas de nós três, provocadas pelo abraço daqueles ícones esquecidos do que melhor já se produziu em cultura neste país das nulidades dos sucessos vazios de conteúdo, fabricados pela mídia.

Impossível esquecer quando moramos no Embu e em Parati. Às vezes que fomos presos, acusados de arruaceiros, como naquela em que depois de verificar meus documentos o delegado insisti pelos do Joel. Bateu as mãos nos bolsos da camisa, depois nos das calças e, desistindo, serenamente informou: - Seu Delegado, acho que bebi meus documentos.

Impossível esquecer a primeira vez (repetiram-se muitas) em que Joel, como Sargento de Cavalaria que dizia ter sido no passado, convocou meu engajamento à Legião Estrangeira. Peremptório e tonitroante, levantou do balcão e deu a ordem que muito assustou o resto da freguesia de um bar sofisticado da Av. Paulista: - Soldado! Assuma meu comando! Saímos daquele ambiente que nos era totalmente estranho, embriagados e ensandecidos em nossa guerra surda contra a classe média.

Lutamos muito dessa guerra. Uma guerra difícil, onde eu me incumbia da difícil missão de explicar o Joel para suas tantas e inconformadas esposas, das quais tornava-se eterno apaixonado e com os quais apenas tivera filhas. "- Aprendi com Sófocles e Freud a não criar meus próprios inimigos" - justificava-se.

Para contar todas as histórias que testemunhei de Joel, teria de escrever um livro e chorar rios de lágrimas. Não sei se mais difícil seria me conformar com a perda desse companheiro, ou acreditar ter convivido com um personagem tão fantástico. Para todos que com ele convivemos, hoje não é fácil definir até onde Joel Câmara de fato existiu tal qual o conhecemos e recordamos. As lembranças de Joel facilmente se misturam aos delírios românticos de nossa geração quixotesca.

Hoje, no dia em que se convencionou como o do nascimento do maior ídolo do Joel, gostaria de imaginar três malucos enchendo a cara de vinho (do que tanto gostava e lhe fora proibido pelos médicos depois de perder um rim, mas que sem dúvida agora lhe estará liberado). Todos os três ironizando e rindo da fatuidade e dos superficialismos da classe média.

Marx dúvida de si próprio e diz que o cenário não passa de efeito do ópio do povo. Jesus pouco se importa, convencido de que todos são iguais. E Joel rabisca os contornos barrocos dos garçons anjinhos, como a vez em que foi contratado para desenhar um mural numa parede de um apartamento recém adquirido por um classe média.

O combinado fora o estoque de bebida e o prazo de absoluta solidão para ninguém incomodar o trabalho do artista.

O proprietário encerra e tranca por fora a porta, atendendo ao prazo estrito e estipulado pelo próprio Joel para o retorno e abertura da porta.

Encontrou seu apartamento não inaugurado com sequer um mínimo espaço sem ser desenhado. As figuras e traços do Joel se inscreviam até nas bordas do vaso sanitário. Desesperado, o proprietário lamenta-se dos custos para raspar e apagar aquele excesso todo, e Joel, placidamente explica apontando a parede combinada: - Tá vendo a bundinha daquele anjo ali? Pois é, não coube. De forma que tive de terminá-la nesta parede do lado. Aí não poderia deixar apenas o sacrilégio de uma bunda de anjo pendurada ali no canto. Tive de complementar. Bebida tinha, mas não tinha como sair... E fui complementando. Mas tudo é arte, ou não é?

Por isso é que posso imaginar que se hoje resolverem comemorar o aniversário e beberem um pouco mais, até a meia-noite Joel convocará seus novos parceiros para uma guerra santa. Chiiiiii! Marx e Jesus ao comando de Joel Câmara vão dar um trabalho danado pro coitado do São Pedro. E Deus que se cuide!

Que se divirtam! Nunca fui de muito festejar o natal, mesmo. Mas também não podia imaginar que viveria um tão triste.

Louvado seja Joel Câmara! Para sempre seja louvado!

P.S.: Aos dos tantos a quem chegar essa mensagem e que conheçam ou tenham meios de acesso à Patrícia, favor passarem meu endereço, pois não tenho o dela. O mesmo ao Chico Cordão. Avisem à Patrícia que tenho por volta de uns dez trabalhos do Joel, de uma exposição conjunta (eu com poesia) que fizemos em Ubatuba. Esses trabalhos ele deixou em minha casa para que os guardasse. Não me pertencem e, agora, pertencem a ela e só a ela, quando a encontrar, entregarei.

Raul Longo
pousopoesia@ig.com.br
pousopoesia@gmail.com
www.sambaqui.com.br/pousodapoesia

 
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