Author`s name Timothy Bancroft-Hinchey

O vampirismo intencional das redes sociais

Chegam a passar-se semanas, até meses, em que ao sentar-me para adiantar um livro, tradução ou escrever uma nova crónica não resisto à tentação de espreitar as redes sociais e, sem dar por ela, perdi horas do tempo livre útil que me sobrava sem nada produzir. Será esse o seu propósito?


Flávio Gonçalves, Pravda.ru

Há uma preocupação cada vez maior com o papel das redes sociais, mormente com os exércitos de trogloditas ou com propaganda disfarçada de notícia (as ditas "fake news") sendo cada vez mais assustador as reacções e comentários que lemos de cidadãos que ainda se crêem anónimos quando destilam o seu ódio em redes sociais como o Facebook ou o Twitter.

Desde 2018 que várias instituições têm vindo a alertar que as redes sociais têm como efeito secundário a libertação de dopamina. Chegam a passar-se semanas, até meses, em que ao sentar-me para adiantar um livro, tradução ou escrever uma nova crónica não resisto à tentação de espreitar as redes sociais e, sem dar por ela, perdi horas do tempo livre útil que me sobrava sem nada produzir. Será esse o seu propósito? Em 2018 Sean Parker, fundador do Napster e um dos fundadores e primeiro presidente do Facebook, alertava que tal era propositado:

"O nosso raciocínio era: 'como conseguimos consumir o mais possível a maior parte do vosso tempo e foco de atenção'?" O modo como funcionam as interacções nos comentários e nos "gostos" e emojis foram programados para nos dar uma dose de dopamina: "É uma artimanha para causar validação social com base nas reacções... exactamente o tipo de coisa que um hacker como eu conseguiria desenvolver, pois estamos a explorar uma vulnerabilidade da psicologia humana", terminando com um preocupante "é possível sequestrar a mente de qualquer pessoa. As nossas escolhas não são tão livres quanto julgamos ser."

Tirania do ultraje e da distracção

Se já era notória a influência nefasta que as redes sociais estavam a causar à sociedade e à política antes da pandemia de Covid-19, as coisas em 2020 só pioraram com milhares de milhões de pessoas confinadas às suas casas, sem bares, cinemas, restaurantes, teatro ou actividades sociais para se entreterem e conviverem com amigos e familiares, as redes sociais ocuparam um espaço ainda maior nos computadores e telemóveis da população mundial onde, passar de dedo atrás de passar de dedo, tanto nos divertimos com imagens de gatinhos como nos ultrajamos e destilamos puro ódio contra quem discorda de nós.

O ano de 2020 foi para mim o ano menos produtivo de sempre em termos de produtividade pessoal: quase todos os projectos de edição livreira, revisão e divulgação literária, uma maior regularidade nas minhas crónicas, dezenas de entrevistas agendadas, tudo isso foi ficando para trás até perceber que estava a tornar-me refém das redes sociais, do comentário viral no Twitter até à fúria que sentia e me compelia a responder aos maiores insultos e ultrajes da parte de trolls, militantes ou dirigentes de partidos abjectos despojados de ideologia como o Chega ou de radicais da esquerda identitária que, na maior parte das vezes, tinha chegado muito recentemente à idade legal para poder votar - reparei depois de reagir.

Comportamento generalizado

Ao notar que entre colegas, amigos e camaradas este comportamento se tinha generalizado, foi quando comecei a ficar ciente de que o tempo que podia ter sido utilizado para promover ideias e ideais próprios, para divulgar os livros e revistas editados por mim, para terminar os dois livros em que estou a trabalhar bem como um ensaio autobiográfico se perderam nestas interacções fúteis, a maior parte das vezes com meros bots e trogloditas pagos para causar exactamente estas reacções que nos viciam e nos mantém distraídos nas redes sociais enquanto que lá fora, no mundo real, continuam os negócios e políticas de sempre. Como resumia muito bem Marcelle Souza numa peça curta para o "Tilt" da Uol brasileira:

"- Likes em redes sociais mexem com a dopamina e bagunçam a cabeça;
- Serviços criam plataformas para fazer com que você fique viciado;
- Dopamina está associada também a alimentos e até a uso de drogas;
- É preciso tomar cuidado ao usar redes sociais para não ter o cérebro 'roubado'."

Da minha parte já percebi que em 2020 mergulhei de cabeça nas redes sociais e perdi por completo a noção do tempo que lá passava, em 2021 tento limitar as interacções ao mínimo, embora não com muito sucesso. Curioso como as redes sociais tornaram muito mais difícil que nos concentremos na crítica construtiva e na defesa das nossas perspectivas e ideologias - divulgando as opções que defendemos como melhores para o país e para os cidadãos - e tenham facilitado imenso o ódio fácil em que nos limitamos a criticar e a rejeitar as ideias dos outros e os outros propriamente ditos.

O você? Já percebeu que talvez não esteja a dirigir o seu ultraje nem a ser um rebelde quando insulta alguém nas redes sociais, mas poderá estar meramente a deixar-se manipular por ferramentas concebidas de raiz para o distrair do mundo real e o isolar das interacções sociais e do espírito de comunidade?

Fontes:
The Guardian, 9 de Novembro de 2017: "Ex-Facebook president Sean Parker: site made to exploit human 'vulnerability'" e 4 de Março de 2018: "Has dopamine got us hooked on tech?".
Tilt, 1 de Outubro de 2019: "Querem sua atenção! Como redes sociais usam a dopamina para te viciar".
El País, 12 de Outubro de 2020: "Vício em redes sociais dispara na pandemia, mas há como recuperar o controle e se desintoxicar"

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Flávio Gonçalves é cronista e difusor literário na edição em língua portuguesa do jornal digital Pravda.ru, diretor da revista "Libertária", editor, tradutor, autarca, membro do Conselho Consultivo do Movimento Internacional Lusófono, sócio fundador do Instituto de Altos Estudos em Geopolítica e Ciências Auxiliares, activista do Conselho Português para a Paz e Cooperação e das campanhas internacionais Tirem As Mãos da Venezuela e Hands Off Syria Coalition, é colaborador do Centre for Research on Globalization (Canadá) e do Center for a Stateless Society (EUA), ex-jornalista na revista "Your VIP Partner" e no semanário "O Diabo", pode apoiar o seu trabalho via Patreon e segui-lo no Twitter e no Facebook.

 

Foto do autor: Jonas Nunes