Author`s name Timothy Bancroft-Hinchey

A Cuba que eu vi

Há tempos o arquipélago de Cuba deixou de ser apenas mais uma ilha na geopolítica mundial. Tudo o que se diz sobre a ilha parece ter um tom polêmico, parece ter entrelinhas, parece exaltar os nervos à flor da pele: a favor ou contra.

Palco de uma revolução histórica, que rompeu com os laços que faziam da ilha quase uma extensão dos Estados Unidos e inteiramente subordinada aos interesses estadunidenses, Cuba é hoje uma república socialista.

Os críticos do atual governo cubano o qualificam de ditadura; seus partidários o consideram uma democracia popular.

Logo na chegada ao Aeroporto Internacional José Martí, começo a ter certeza de que realmente essa não é apenas mais uma ilha no Caribe. Fui a Cuba quando ainda era governada por Fidel, com um grupo de intercambio da Associação de Amizade Brasil/Cuba do Ceará – Casa José Martí. Passamos quinze dias participando de palestras e reuniões com associações e partidos de Cuba. Na saída do aeroporto um autdoor chama atenção, anunciando: “Esta noite, milhares de crianças dormirão nas ruas do mundo. Nenhuma delas é cubana.”.

Com o fim da União Soviética, em 1991, Cuba obrigou-se a abrir as portas para o turismo, na forma de grandes hotéis, resorts e uma série de comodidades apenas para estrangeiros.

A queda da URSS representou para Cuba a perda de seu principal aliado estratégico. O governo cubano viu-se na árdua tarefa de adaptar-se às leis internacionais de livre-mercado e ao mesmo tempo tentar preservar o programa político do país.

Cuba viu-se numa crise sem precedentes: falta de alimentos, combustível, energia e medicamentos. Em 1990, Fidel Castro declarou o Período especial em tempos de paz, termo que designava o sacrifício massivo que se aproximava. Isso implicava para a população reduzir drasticamente seu consumo, como se o país se encontrasse em estado de guerra.

O brasileiro José Alves morou em Cuba durante esse período e foi voluntariamente tradutor do Granma Internacional para o Brasil. Em entrevista concedida a nossa equipe ele recorda: “Vi muita gente criando coelho e porco em suas casas porque a situação estava realmente difícil. Mesmo assim, continuava assegurado a cada família a libreta – uma cota familiar para 15 dias.”

Segundo José Alves, para entender Cuba é necessário perceber as limitações e as peculiaridades desse país. E destaca os meios de comunicação, que lá é voltado para outros valores. “É muito fácil dizer que há liberdade em outros países. Mas você pode trocar os canais de notícias da televisão colocando em CNN, FOX, ou outro qualquer que as notícias são exatamente as mesmas.” Destaca.

Na época de período especial o bloqueio americano é agressivo. Em 12 de março de 1996, o Presidente dos Estados Unidos William J. Clinton assinou e pôs em vigor a chamada lei Helms-Burton.

A lei impede que empresas e cidadãos de outros países, que mantenham negócios com Cuba operem nos Estados Unidos ou vendam para o seu mercado. Segundo a Embaixada de Cuba no Brasil: “O imperialismo norte-americano afronta o direito internacional, pretendendo que uma lei interna seja cumprida por cidadãos e empresas de outras nações. A Lei Helms-Burton viola flagrantemente as leis e os direitos humanos do povo cubano.”

Como única solução para a entrada de capitais, o governo viu-se obrigado a abrir a economia, o que se deu principalmente através da criação de joint-ventures com empresas estrangeiras e do desenvolvimento do turismo.

Até hoje o turismo serve como uma das alternativas ao bloqueio econômico de mais quarenta anos por parte dos Estados Unidos. O país enfrenta desde a revolução o bloqueio econômico, social e financeiro imposto pelos EUA.

Pisando em solo cubano, a sensação é de que a contradição permanece. No que diz respeito aos cubanos; as opiniões dividem-se também em dois extremos que igualmente exaltam os nervos. Contra ou a favor.

Encontro muitas pessoas apaixonadas pelo atual sistema e ardorosos defensores da Revolução. Neste grupo estão principalmente os que viveram a realidade de antes da Revolução. Entre os mais jovens, muitos criticam o sistema sob a alegação de ausência de liberdades individuais e a incapacidade de prover bens de consumo.

Alfredo Rodriguez, um cubano de seus vinte e poucos anos me diz em tom de revolta: “Está vendo esta camisa? É nova, coloquei para ir ao aniversário de minha prima. Tive que trabalhar um ano para que pudesse comprar uma camisa nova. Isso é um absurdo, de que vale eu ter acesso aos estudos para viver assim?”. Perguntei-me se por acaso Alfredo sabia da realidade da maioria dos latino-americanos.

Exemplos como esse de Alfredo colocam o futuro dos cubanos em xeque. A juventude começa a questionar se faz sentido passar tantos anos na universidade para depois receber um salário baixo.

“Enquanto a burguesia pode dar-se ao luxo de gastar muito dinheiro com coisas banais milhares de seres humanos morrem de fome. A própria ONU divulga que a cada três segundo uma criança morre de fome. No Brasil milhares de seres humanos vivem em favelas cujas condições de vida são as mais desumanas possíveis; não há saneamento básico, escolas e tampouco serviço de saúde.” relata Antonio Ibiapino, um dos integrantes do intercâmbio em Cuba e diretor de eventos da Associação de Amizade Brasil/Cuba do ceará – Casa José Martí.

Se comparada com o resto da América Latina, Cuba é um avanço no que diz respeito aos índices sociais. No ano passado a taxa de crescimento da República Socialista do Caribe registrou 12,5% enquanto a média da América Latina ficou entre 5,3%. No setor educacional, de cada dez jovens cubanos, sete concluem curso superior em Universidade gratuita e de excelente nível.

“Infelizmente tornou-se clichê dizer que Cuba tem atendimento médico público de qualidade, que leva este auxílio a outros países, que mantêm cursos abertos a estrangeiros para que aprendam sobre seu sistema de saúde; ou que seus índices de analfabetismo estão entre os mais baixos do mundo. De tão clichê, isso parece ter perdido importância. O discurso de que a ilha vive uma ditadura é mais forte e tem mais apelo. É como se em cada país do mundo a ditadura contemporânea do mercado, do consumo e da estética não nos oprimisse. Ao discutir a ditadura cubana, não devemos esquecer o que é falso em nossas democracias, vide as últimas eleições dos EUA e a brutal farsa da última eleição mexicana.” me diz o historiador Lucas Neves.

A escola em Cuba é fator principal na articulação da sociedade. A educação no país é democrática, estatal e gratuita.

Em 1960, o governo resolveu combater o analfabetismo com toda a sua força. Decorrido um ano da vitória revolucionária foram criadas 4.680 salas de aula, com vários quartéis sendo convertidos em escolas. Assim ocorreu a primeira garantia real de combate ao analfabetismo: escola para todos.

As universidades de Cuba recebem um grande número de estudantes estrangeiros. A bolsa prevê a concessão de moradia no país, alimentação e estudo gratuitos.

Atualmente; dentre os 9.600 matriculados na Escola Latino-americana de Medicina, muitos são de 19 países latino-americanos e 4 nações africanas.

O governo brasileiro não reconhece automaticamente os diplomas cubanos, mas estuda uma solução para o caso. Nelson Maculam, secretário de educação do MEC, diz que Cuba merece um tratamento especial, pois outros países não dão bolsa para brasileiros e devemos valorizar a ajuda que Cuba nos está dando.

No mercado negro, os produtos, em geral roubados das fábricas ou contrabandeados dos centros de distribuição e restaurantes estatais, são bem mais baratos. E como em qualquer lugar do mundo, a ilegalidade na ilha rende dinheiro. O charuto Cohiba, marca famosa cubana que é vendido a 385 dólares a caixa em lojas, nas ruas chega a 25 dólares. “Não é falsificado, trabalho na fábrica”, explica o rapaz que me oferece uma caixa ilegal ao reparar que eu observava os charutos numa vitrine de loja.

Quando vou tentar remarcar a data de meu vôo, um senhor na fila observa meu sotaque e pergunta se sou brasileira. Ele apresenta-se e logo engatamos uma longa conversa em um dos cafés de Havana. Seu nome é Rubén Carthy, 55 anos e músico. É cubano, casado com uma brasileira e mora em São Paulo , onde trabalha em apresentações de jazz.

Rubén não consegue e nem parece querer disfarçar sua indignação. Com os olhos cheio de lágrimas diz: “É a primeira vez que volto a Cuba em vinte anos. O que vejo me deprime. Meus amigos, os que eram contra o governo, estão desaparecidos e ninguém sabe deles. Os outros estão com aspecto sofrido, mal cuidado e envelhecido. Posso falar o que penso porque não moro aqui, eles não. Apoiei a revolução e servi pelo exercito cubano em Angola. É triste ver no que Cuba transformou-se. Estou contando os dias para ir embora. Vou lhe dizer uma frase: Se o mar virasse gelo não restaria um cubano aqui, pois todos sairiam correndo.”

Rubén acompanhou-me até o hotel e antes de ir embora destacou: “Não esqueça, se por acaso quiser comprar charutos pelo mercado negro eu consigo quem pague 600 reais pela caixa.”.

O acesso à internet em Cuba é limitado e também há um controle sobre os programas televisivos.

Segundo José Alves que morou no país e foi tradutor do Granma, o conteúdo dos meios de comunicação em Cuba é voltado a outros valores.

“É muito fácil dizer que há liberdade em outros países. Você pode trocar os canais de notícias da televisão colocando em CNN, FOX, ou outro qualquer que as notícias são exatamente as mesmas.” destaca José Alves.

O cientista social Clayton Mendonça esteve na ilha socialista em fevereiro deste ano e disse reconhecer que a vida de um cubano é relativamente dura. Segundo ele os salários são baixos e por conta do bloqueio as coisas são caras. O transporte público também chamou sua atenção de forma negativa.

“Seria muito fácil concluir que Cuba é um fracasso e melhor seria restaurar o capitalismo, mas isso porque eu tive a sorte de nascer na classe média. Lá há saúde e educação de qualidade para todos e ninguém passa fome. Pode não haver luxos, mas todos têm uma casa digna, favelas com esgoto a céu aberto como
aqui não tem. Nosso transporte público pode ser melhor, mas não está ao alcance de todos: muitos não utilizam porque não podem pagar.” Conclui Clayton.

Cuba é um lugar polêmico e cheio de contrates. A sociedade cubana está fragilizada. Sabe que vive um período de transição e teme o futuro.

Em meus últimos dias na ilha, depois de um passeio à noite pelo centro de Havana, eu e Marcos - um amigo brasileiro que na época morava e estudava em Cuba – resolvemos sentar um pouco. Foi quando escutei o que me tiraria toda a arrogância de um possível pré-julgamento daquela e de qualquer realidade. “Apesar de tudo gostaria de poder trazer minha mãe para morar aqui. Ela sofreu um derrame e não está recebendo no Brasil a assistência médica necessária.”, relatou-me Marcos.

O hoje educador físico Marcos Fagundes trabalhava como empacotador num supermercado em sua cidade natal, Santa Maria no Rio Grande do Sul, quando recebeu uma bolsa cubana para cursar educação física no país. Sua irmã acabou de receber uma bolsa para cursar medicina em Cuba.

Para muitos, Cuba representa o sonho alcançável, a prova de que vale a pena crer e lutar pelo amanhã, e de certa forma o é. Cuba significa muito e continuará significando, simplesmente por existir, por resistir, porém é evidente que lá não é o paraíso. Ainda não foi construído sobre a terra o lugar ideal e não podemos exigir que Cuba seja isso.

Poucos dos muitos turistas que passeiam por uma ou duas semanas em Cuba sabem a fundo sobre a história cubana, as questões políticas, o regime comandado por Fidel e o embargo americano.

Mesmo assim, é comum ver pessoas que passam alguns dias na ilha, seja a turismo ou a trabalho, voltarem manifestando opiniões definitivas sobre o país.

A forma de organização é outra. Se a gente olhar tendo em vista nossa realidade, não vai entender e a tendência é imediatamente criticar sem levar em conta uma lógica diferente. O que não quer dizer que não há inúmeras coisas criticáveis.

Eu cheguei a Cuba cheia de certezas e saí cheia de perguntas. Para mim, foi muito difícil relatar minhas experiências e retornei ao Brasil tentando entender o que talvez não pudesse explicar.

Rebeka Holanda

Brasil