Author`s name Timothy Bancroft-Hinchey

Quem matou Jango, JK e Lacerda?

Reproduzo abaixo o artigo que escrevi em 7/3/04, a propósito do “enigma das mortes coincidentes” de Juscelino, Jango e Lacerda, justo quando a Operação Condor matava e esfolava no Cone Sul das Américas. O pretexto do artigo foi o um “romance-reportagem” de Carlos Heitor Cony, bem fraquinho, aliás, baseado nas investigações do autor sobre o tema.


Chamo atenção para a cronologia no final do artigo. Não há quem não fique impressionado. É imperioso que a Procuradoria Geral da República atenda ao pedido de investigação da família Goulart, sem dar atenção ao coro midiático que certamente nos tentará convencer de que tudo isso é apenas “fantasia”.


O enigma das mortes coincidentes


Num pseudo-romance, Cony examina o fim de Jango, Kubitschek e Lacerda


Os ex-presidentes João Goulart (Jango) e Juscelino Kubitschek (JK) e o ex-governador do ex-Estado da Guanabara, hoje cidade do Rio de Janeiro, Carlos Lacerda, simbolizavam respectivamente, mal ou bem, a esquerda, o centro e a direita na política nacional dos anos 60.


Primeiro Jango, logo adiante JK, quatro anos depois Lacerda, os três foram cassados pela ditadura militar instaurada em abril de 1964.


Entre agosto de 1976 e maio de 1977, em meio ao processo de “abertura” compulsória e relutante dos regimes militares sul-americanos, os três morreram de repente. JK de acidente rodoviário, Jango fulminado por infarto, Lacerda de infecção aguda.


De repente morreram também, na mesma época, entre outros líderes ou símbolos da oposição desarmada às ditaduras, o ex-ministro chileno da Defesa, Orlando Letelier, e o ex-presidente boliviano Juan José Torres. A diferença é que não morreram de morte natural. Ambos, ninguém discute, foram eliminados pela Operação Condor, convênio dos órgãos de segurança do Brasil, Argentina, Bolívia, Chile, Paraguai e Uruguai, com o fim de vigiar e assassinar adversários políticos.


Mas haverá mesmo essa diferença? Ou os brasileiros também foram assassinados pela repressão política?


Beijo da Morte – Um dos que sempre desconfiaram da versão oficial, o jornalista e escritor Carlos Heitor Cruz, acaba de lançar um livro com o resultado de 25 anos do que chama de “obsessão” com o tema. Não um livro de história, de reportagem ou até de memórias, como seria de esperar-se, mas sim uma espécie esquisita de romance-reportagem. No dizer prolixo do autor, “uma interação entre a reportagem e o romance, um produto anfíbio que continua tendo cultores em diversos países” – e aí cita Zola, Truman Capote, Alexandre Dumas e até o Tolstói de Guerra e Paz.


Nada a ver. Entre outras razões, sem contar as evidentes, porque não há quase nada de romance no livro, e o que há é tão ruim que nem parece do cronista da Folha de S.Paulo e autor de Piano e Orquestra, sua obra mais admirada.


Para dar ares de romance a O beijo da morte (Ed. Objetiva, RJ, 2003), Cony entrega a exposição do “mistério” aos únicos personagens fictícios do livro, um repórter chamado Repórter –– alter ego escancarado do próprio Cony, com o só acréscimo ficcional de ter morrido antes do livro –– e uma amiga chamada Verônica, que vem a ser a repórter Ana Lee, co-autora da obra.


Repórter se expressa pelas anotações de um diário postumamente recolhido pela amiga, onde polemiza com as versões oficiais, examina parte da documentação disponível e exibe o magro resultado de suas investigações. Tudo isso entremeado de constante lamúria por ter sido desprezado e ridicularizado pelos colegas da imprensa por conta de sua “obsessão”.


Santo sudário – Ana/Verônica fala pouco. Seu papel, no enredo e nas explicações do posfácio bifronte, onde cada qual expõe seus motivos para fazer o livro, consistiu sobretudo em organizar a papelada confusa e incentivar o Repórter a desafiar os céticos. O nome da personagem diz tudo. O ex-seminarista Cony padecera anos sob a cruz da descrença e os espinhos do ostracismo. Adotado como cronista do primeiro time da Folha, continua sufocando a “obsessão”. Verônica enxugou-lhe o sangue e recolheu o santo sudário. Para arredondar a metáfora da Paixão, a narrativa começa assim: “Cismara em perseguir uma espécie de Santo Graal, uma obsessão que o destruiria...”.


O estilo das anotações do pseudodiário destoa completamente do gênero, mas o autor dá tão pouca atenção a isso que a certa altura abre parêntesis para indicar: “ver carta no anexo”. Trata-se de um diário ou da edição das memórias do herói?


Nas poucas passagens “romanceadas”, não há mais que pieguice e conversa fiada: “Ele não tinha nenhum futuro, mas tinha um passado”. (...) “Se o mundo está contra mim, eu estou contra o mundo”. (...) “Não fixou aquele olhar deformado pela doença, era uma forma de dizer que o amava e o amaria sempre.” Termina assim: “Sinto-me cansado, mas não desiludido. Agora... eu tenho apenas um desejo: dizer para Verônica que a amo”.


Consta da “orelha” que Cony dedicou um ano a escrever o livro. Observando-se o estilo frouxo, os lugares-comuns, as repetições desnecessárias, as omissões e os “cacos”, francamente não parece. Parece mais uma obra improvisada, feita nas coxas, embora com base em material longa e pacientemente acumulado. A ponto de o jornalista sapecar o seguinte no posfácio: “A única certeza que Anna Lee e eu possuímos é que a palavra final sobre o mistério das três mortes talvez nunca seja possível”. Certeza do talvez?


Até a cronologia das coincidências suspeitas, no pórtico da obra, apresenta lacunas (veja abaixo uma versão mais completa). Deixa de fora, por exemplo, o assassinato na Argentina do ex-presidente boliviano Juan José Torres, ocorrido apenas seis meses antes da morte de Goulart e justamente numa ocasião em que policiais argentinos andaram à procura do brasileiro em Buenos Aires.


Algumas informações – dez ou mais – são repetidas duas, três e até quatro vezes, como a de que o serviço secreto do Exército influiu no laudo do acidente com JK na rodovia Rio–S.Paulo. Ou que suposta bala no crânio do cadáver era de fato um prego. Ou que a morte de Lacerda nunca teve inquérito.


Em compensação, muita coisa acessível na Internet e noutras fontes fica de fora, como a versão de que Tancredo Neves internou-se no Hospital da Base de Brasília confessando ao irmão seu receio de morrer “como o Jango”, segundo a fonte contou a Veja em abril de 1984. “Trocaram os remédios dele”, teria dito ao irmão. Falhado, nem por isso o híbrido de Cony é inútil.

 Acontece que ele realmente colecionou reportagens, cartas e outros documentos – uns poucos inéditos – que no conjunto inquietam o leitor e alicerçam razoável desconfiança sobre as mortes coincidentes de 1976-77.


Qualquer uma delas, é verdade, pode ser convincentemente explicada de acordo com a versão oficial. Lacerda teria contraído a septicemia ferindo-se nas rosas que cultivava em seu sítio em Petrópolis (RJ). Jango de fato sofria do coração, fumava muito, estava gordo e não seguia a prescrição de fechar a boca. O carro de JK bateu de frente numa carreta, depois de ultrapassado por outro automóvel e “raspado” de leve pelo ônibus que tentava ultrapassar (embora os passageiros e o chofer do ônibus não confirmem essa parte). Tudo certo, tudo bem, se cada caso é avaliado de per si.


Oito meses fatais – Difícil é engolir que os três episódios, envolvendo os três maiores líderes do pré-64, adiante associados na Frente Ampla tripartite contra a ditadura, organizada em 67, tenham ocorrido no curto período de oito meses, de 22/8/76 (JK) a 21/4/77 (Lacerda), com menos de quatro meses entre o primeiro óbito e o de Jango (6/12/76). E exatamente quando policiais argentinos, chilenos e uruguaios, sabidamente associados a brasileiros na Operação Condor, seqüestravam e matavam adversários políticos até nos EUA.


Como ocorreu com o chileno Letelier, liquidado em Washington em 21/9/76. Isto é: dois meses e meio antes de Jango e apenas um mês depois de JK. (Essas contas não estão no livro de Cony, que apenas publica as datas).


Letelier e JK tinham sido citados cerca de um ano antes (em 28/8/75), num ofício do coronel chileno Manuel Contreras Sepúlveda, chefe da Direção de Inteligência Nacional (Dina), a seu colega brasileiro João Batista Figueiredo, chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI).


“Compartilho sua preocupação com o possível triunfo do Partido Democrata nas próximas eleições presidenciais dos Estados Unidos”, declara. “Também temos conhecimento do reiterado apoio dos democratas a Kubitschek e Letelier.... O plano proposto por você para coordenar nossa ação contra certas autoridades eclesiásticas e conhecidos políticos social-democratas e democrata-cristãos conta com nosso decidido apoio”.


Não há dúvida nenhuma quanto a Letelier. Quem botou a bomba foi Michael Vernon Townley, um agente da Dina com relações na CIA dos ianques e visitas ocasionais à Escola Nacional de Informações, órgão do SNI dos militares brasileiros. Processado pelo governo Carter, apontou o próprio chefe da Dina como autor intelectual do crime.


Reino da incerteza – Contreras paga prisão perpétua no Chile, depois de condenado nos EUA. Seu equivalente brasileiro viveu um destino melhor. João Figueiredo tornou-se presidente da República e não há provas nem acusação de que tenha a ver com a morte de Jango ou JK, muito menos com a de Lacerda. Na presidência da República a partir de 1979, acomodou-se aos novos ares da “era Carter” e acelerou o retorno à democracia.


Mas a participação de Geisel e Figueiredo não é componente indispensável à tese conspirativa esposada por Cony e vários outros. Há evidência incontestável de que os órgãos de segurança agiam com considerável autonomia, sobretudo a partir da percepção de que a “abertura” ameaçava lhes cassar a serventia e os privilégios. Prova disso é o que ocorreu com o ex-governador Leonel Brizola, segundo nome na primeira lista dos cassados pelo golpe de 64.


Brizola estava exilado no Uruguai em setembro de 1977 –– cinco meses após a morte de Lacerda, nove após a de Jango –– quando foi inesperadamente expulso para os EUA.
Explicação de “amigos uruguaios” nunca identificados: a expulsão evitava que o matassem. Acréscimo provável: o governo uruguaio agiu sob pressão do governo Carter, que tinha conhecimento do plano “condorista”.


Tenha ou não tenha agido por obediência aos EUA, o que se destaca no episódio é que o governo uruguaio não podia garantir a segurança de Brizola em face da conspiração homicida de seu próprio sistema de segurança.


O mesmo ocorreu no Brasil quando o presidente Figueiredo, ex-chefe do SNI e parceiro do general Contreras na repressão preventiva aos dissidentes, encaminhou o país de volta à legalidade. Setores da “comunidade de informações”, protegidos por generais inconformados, reagiram praticando atos de terrorismo desvairado, entre os quais o atentado bumerangue do Rio Centro (1981), quando um sargento morreu e um capitão feriu-se grave, na explosão acidental de uma bomba.


Os generais-presidentes, a despeito de si mesmos, com maior ou menor pesar, pouco a pouco compreendiam que Carter não era Kissinger, o sanguinário mandachuva dos governos Nixon e Ford. Os operativos da repressão custaram a admitir os novos tempos.


Cony tem toda razão num ponto: a grande imprensa brasileira, à parte iniciativas isoladas, como as dele próprio, nunca mostrou empenho em apurar se houve ou não houve crime, no singular ou no plural, nas mortes dos lideres da Frente Ampla.


No começo de 1978, quando o jornalista Jack Anderson divulgou a mensagem do SNI chileno ao do Brasil, só a imprensa “alternativa” ousou reproduzi-la. Os jornalões fizeram de conta que não leram, mesmo quando os dissidentes tiraram cópias do artigo e passaram a distribuí-las no Congresso.


Em 4/1/78, ao noticiar que o general Geisel confirmara a escolha do general Figueiredo como seu sucessor, a Folha de S.Paulo ainda tratava a informação do jornalista norte-americano de forma ligeira, obscura e distorcida, como um boato qualquer:


Assim: “Além de fotocópia de um documento atribuído ao coronel Manuel Contreras Sepúlveda, diretor da ‘Inteligência Nacional do Chile’ (Dina), no qual se registra suposta troca de correspondência com o general João Batista Figueiredo, a respeito de presos políticos e possíveis resultados eleitorais nos Estados Unidos, circulavam diversos rumores e boatos no Congresso”.


As aspas em ‘Inteligência...’ sugeriam que a fotocópia mencionava um órgão inexistente. Na verdade o coronel assinava-se “director de Inteligencia Nacional” (veja na reprodução), ou seja, diretor da Dina (Direcção de Inteligencia Nacional).


Mas os políticos não ficaram atrás, ou não foram adiante. Com raríssimas exceções –– entre elas o deputado maranhense Freitas Diniz –– o Parlamento tampouco deu atenção à denúncia.


Enfim, nada se provou até hoje, mas tudo continua suspeito. Uma comissão especial da Câmara dos Deputados, constituída em 2000 para investigar a morte de Jango, concluiu que há fortes indícios de homicídio, faltando colher as provas.


Brizola e Miguel Arraes têm certeza de que houve crime. Também Tancredo pensava assim, se é que o irmão falou a verdade e Veja não ouviu errado.
Duas vezes a justiça tentou exumar para autópsia o cadáver do ex-presidente – o governo militar brasileiro e a viúva Maria Thereza Goulart não deixaram.


A quem desconfia de tantas coincidências e não lhe apetece a “certeza do talvez”, só resta por enquanto a incerteza – talvez.


Mortandade no Cone Sul


30/9/1974 –– Morre na explosão de uma bomba em Buenos Aires o general Carlos Prats, ex-ministro do Exército no governo do presidente socialista Salvador Allende (Chile). A ação conjunta de militares terroristas chilenos e argentinos antecipa a futura Operação Condor.


28/9/75 – Ofício do coronel Manuel Contreras, chefe da polícia secreta do Chile (Dina) a seu congênere do Brasil, general João Figueiredo (SNI), concordando com a necessidade de “coordenar ações” contra a oposição às ditaduras do Cone Sul. Os generais estão preocupados com o possível triunfo do candidato democrata Jimmy Carter na eleição dos EUA, considerando-se a notícia de contatos entre correligionários do candidato e líderes civis como o ex-presidente brasileiro Juscelino Kubitschek e o ex-ministro chileno Orlando Letelier, citados nominalmente no ofício.


7/11/75 – Carter é eleito presidente, com uma plataforma de forte acento humanitário.


1o/12/75 – Reunião dos órgãos de repressão política em Santiago do Chile, sob os auspícios da ditadura Pinochet, decide pela “coordenação” das atividades. Aproxima-se a Operação Condor.


20/1/76 – Posse de Carter.


1/6/76 – Seqüestrado e assassinado na Argentina o general Juan José Torres, ex-presidente deposto da Bolívia. Poucos dias antes, policiais argentinos andaram à procura de Jango Goulart em Buenos Aires.


22/8/76 – O ex-presidente Juscelino Kubistchek morre num acidente rodoviário na Rio–S.Paulo, duas semanas depois de desmentir o misterioso boato de que morrera num acidente semelhante nas cercanias de Brasília.


21/9/76 – Uma bomba de controle remoto mata Letelier em Washington. A polícia dos EUA indicia e prende um agente da Dina com ligações na CIA e no Brasil. O agente “entrega” Contreras, que hoje cumpre pena de prisão perpétua.


6/12/76 – O ex-presidente João Goulart sofre um ataque cardíaco quando dormia em sua fazenda no interior da Argentina, perto da fronteira com o Rio Grande do Sul.

 
21/4/77 – Morre no Rio, de infecção generalizada de origem desconhecida, o ex-governador Carlos Lacerda, parceiro de Goulart e Kubistchek na Frente Ampla contra a ditadura de 1967.


18/9/77 – O ex-governador Leonel Brizola é expulso do exílio no Uruguai para os EUA, por suposta pressão do governo Carter. “Amigos uruguaios” não identificados confiam-lhe que a repressão queria matá-lo.


(WALTER RODRIGUES – COLUNÃO – S. Luís (MA), 7/3/2004).

Walter Rodrigues