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A UM RIO QUE AMANHECE

29.11.2003 | Fonte de informações:

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Imagino que deve ser assim com todos os rios, mas não me sinto feliz em falar do que não conheço. Por isso falo desse rio que a memória alcança e os olhos de todos os dias confirmam. Falo do Capibaribe.

Quero falar do Capibaribe e susto a digressão. Quero matar a digressão, mas sem ela não consigo falar do Capibaribe. Então vamos no ritmo das suas águas, no movimento do que se assemelha a desvio de percurso. Já no primeiro parágrafo me referi ao rio da memória confirmado pelos olhos cotidianos. E isto não foi simples gosto da frase.

Tento explicar. As pessoas por vezes não entendem como nos alimentamos todos os dias com a mesma comida e dela não abusamos. Não contentes com tal mistério, vão mais longe, seguem sem vacilar para um desvio mais simplificador, e portanto mais abstrato, burro e absurdo: as pessoas por vezes não entendem como amamos durante muito tempo uma só pessoa. Sem entrar na origem dessa incompreensão, que remonta à mistura de gente com objeto descartável, e que por isso, tal gente/objeto, deveria ser mudada ao fim de certo tempo de uso, voltemos ao ponto das águas que interessa.

O nosso amor alcança a altura e a profundidade da nossa memória. E ela é, perdoem o truísmo e a redundância, não apenas cerebral: é memória tátil, olfato, gosto, ouvidos, visual, até mesmo instintiva, se com isso conseguimos expressar até aquela memória esquecida de si, hibernada, primeira, primitiva mais primeva. Um arrepio na pele que não entendemos por quê. Um susto no coração que não sabemos de onde vem. Um raso d’água nos olhos que não entendemos a razão. Dizer que o rio da lembrança se confirma no rio que vemos não é dizer que repetimos hoje o rio do passado: é dizer que ele liga pontos da nossa identidade, porque ele dá uma coerência torta, uma evolução fluvial, abaixo da superfície, no escuro, no claro, como se fôssemos e voltássemos, como se recuperássemos a memória do feto do ventre da nossa mãe.

E os nossos olhos de hoje revelam coisas que antes não sabíamos. O rio Capibaribe aberto, ao sol das sete da manhã, é um rio que nos dá bom dia. Da ponte Duarte Coelho à Princesa Isabel, e desta a se estender até a ponte do Limoeiro, há uma vista de esperança. Ainda. Ainda que a violência bárbara nos assalte, há nessas águas um convite à reflexão serena, que só a beleza nos dá, mesmo em meio ao maior tumulto. Como uma música que nos anestesiasse da dor do fogo que nos consome. Quase, pois do lado de fora, à margem do Capibaribe, os homicídios rebentam. No rádio, na televisão, no ar, nos jornais. Em toda imprensa os crimes se sucedem de tal maneira que os anúncios da barbárie de ontem servem para os crimes de hoje. Anuncia-se na primeira página: “É hoje a reconstituição do crime que abalou o Brasil”. Mas qual, qual dos crimes? O de ontem, o de anteontem, o do mês passado? Então olhamos o rio, e ele nos refrigera: “Bom dia, mesmo assim. Você está mesmo pronto para o amor e felicidade que ainda não revelamos? Eis-me aqui: um carinho para a sua alma”.

Desse rio fala o romance Os Corações Futuristas:

“Ele, o Samuel cercado, quis correr para o rio, quis, gostaria. O seu outro, o liberto, conseguiu. Estava debruçado no parapeito da ponte. Olhava o céu, que desce e se abraça com o rio no espaço aberto, largo, fluindo manso do Apolo à Ponte do Limoeiro.

- Vem ver que dia, Samuel. Vem.

Ao ouvir essa voz cálida, conclamante, ele também ouvia, num contraste soturno, mais próximo, saindo dele mesmo: ‘como é que se morre num dia assim?’

- O rio fala, Samuel. Recife grande e solidária – o outro lhe anunciava, qual marujo na gávea. E este outro, de fato, subia, deslocando-se para o azul”.

Esse rio Capibaribe lembra aquele outro, quando na infância ficávamos em pé, sobre o banco, para conseguir vê-lo da janela do ônibus. Lembra, talvez, mais longe, aquele longe em que não possuíamos sequer um nome. Um tempo longe em que nos abrigávamos num útero. Um longe de rio cuja beleza nos dá sempre a vontade de lhe pedir a bênção.

Urariano MOTA

 
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