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Golpe Anunciado na Bolívia

03.11.2019 | Fonte de informações:

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Golpe Anunciado na Bolívia

Nas ruas da Bolívia, Pravda.ru conversa com civis e policiais opositores: "Os civis, com policiais e alguns militares, preparam um golpe". Manifestantes ativos viram policiais escondidos, transportados por ambulâncias, talvez de outras partes do país: o governo prepara um cerco?


Edu Montesanti

"Vimos policiais escondidos sendo transportados por ambulâncias", disse a Pravda.ru na última quarta-feira dois manifestantes ativos da cidade de Santa Cruz de la Sierra, oponentes ao presidente boliviano Evo Morales. Na central Praça 24 de Septiembre começaram logo a discutir entre eles, de maneira tensa, as possibilidades de tal transporte atípico nos dias mais tensos da Bolívia nos últimos 16 anos, à medida que violência e terror espalham-se por todo o país.

No dia seguinte dois policiais, no mesmo local onde tudo acontece na cidade mais rica da Bolívia, confidenciaram a esta reportagem: "Os civis, com policiais e alguns militares, preparam um golpe". Segundo eles, os autores da derrubada de Morales sabem que isso levaria a um confronto sangrento em todo o país sul-americano. "O governo convocará os militares para tomar as ruas, [por isso] muitas pessoas serão mortas."

Não há carros nas ruas desde a meia-noite de quarta-feira da semana passada, nem comércio aberto. O Sindicato dos Trabalhadores mais significativo do país chamado Central Obrera Departamental, vinculado ao Movimento ao Socialismo (partido oficial), também fechou as portas desde então.

As instituições governamentais têm seus funcionários detrás de portas fechadas: teoricamente, abertas ao público. Escondidos atrás de guardas, policiais e do profundo temor. Tensão e medo, duas palavras para definir a Bolívia dos últimos seis dias.

Quando este reporter estava terminando a conversa com os dois opositores, uma sirene muito estranha começou a tocar.

- Uma sirene está tocando... disse um manifestante ao companheiro, erguendo os olhos ao alto, e movendo a cabeça.
- E então, o que é isso? Disse o outro, preocupado, mas confiante em si mesmo e em seus milhares de colegas.

Conversando com civis opositores nota-se claramente alta tensão em seus semblantes, e a expectativa de que a morte pode estar muito próxima.

Na noite de quinta-feira, líderes religiosos com seus seguidores começaram a sair para as ruas. Na praça 24 de Septiembre, um grupo de evangélicos orava e louvava a Deus. "Que a Bíblia entre no Tribunal de Justiça!" rezou o pastor. Questionado sobre o que estavam fazendo lá, um membro da Iglesia Mandamiento de Deus (Igreja do Mandamento de Deus) respondeu a esta reportagem: "Este governo é contra a religião, quer fechar igrejas. Eles não querem que as pessoas frequentem igrejas".

É claro que "a Bíblia entrar no Tribunal de Justiça" significa a derrubada de Evo Morales agora. Enquanto outra amarga
ironia, entre muitas tantas nesta Revolução Colorida Boliviana, traz a realidade de que seu principal oponente na última campanha presidencial, Carlos Mesa, não tem nenhum projeto ao terrível sistema de justiça boliviano. Nem Mesa disse nada sobre isso quando era vice-presidente de Gonzalo Sanches de Lozada (2002-2004), nem menos fez quando se tornou presidente por seis meses (após a fuga de Lozada).

Este autotr observou, há muito tempo, um golpe sendo conspirado na Bolívia tendo líderes religiosos como um de seus principais autores. Ficou claro, entre outras coisas, em conversas privadas com esse setor da sociedade boliviana. Quanto mais as eleições se aproximavam, mais este cenário ficava claro para esta reportagem.

Os líderes religiosos cooperaram para agravar o ódio e a divisão social na Bolívia. Alguns deles questionam as pessoas que frequentam as igrejas - especialmente quem fala com eles em particular - sobre suas opiniões políticas, sendo hostis às opiniões pró-Evo Morales, e agressivos muitas vezes. Boa parte das grandes mentiras que se espalham vem desse setor, que manipula com altos resultados histórias surreais envolvendo o governo e Evo Morales, propriamente.

Na manhã de domingo, o vigário geral da Arquidiocese de Santa Cruz de la Sierra, Juan Crespo, disse na Catedral localizada na Praça 24 de Septiembre que o Tribunal Eleitoral provocou um futuro incerto e sombrio para a Bolívia. Segundo ele, devido a uma fraude que reelegeu o presidente Evo Morales pela quarta vez.

"Os responsáveis por administrar esse ato democrático [o voto] não fizeram jus ao povo boliviano [na contagem dos votos]", disse Crespo.

A Bolívia tem sido inundada por espiões - muito provavelmente, ativos da CIA.

Portanto, este cenário não é surpreendente - repetindo os golpes em toda a América Latina no passado e no Brasil em 2016 contra Dilma Rousseff, tendo a religião como ferramenta para manipular as pessoas com interesses políticos.

Minutos antes, um grupo de manifestantes passou pela rua em frente àquela praça marchando em direção à estátua do Cristo Redentor, a cerca de 700 metros dali onde ocorre a maior concentração de manifestantes em Santa Cruz de la Sierra, um dos pontos onde se bloqueia o tráfico. Eles gritavam e carregaram cartazes dizendo: "Segundo turno, não. Fora, Evo Morales!" Aqueles manifestantes, um grupo de cerca de 50 pessoas, foram aplaudidos pelo povo da praça - cerca de 130 pessoas.

Desta maneira, desde quinta-feira tem-se modificado o clamor dos manifestantes que, antes, reivindicavam a realização de um segunto turno (Evo, oficialmente, relegeu-se no primeiro). Em poucos dias, a chamada luta pela democracia foi alterada para uma luta aberta pela derrubada do presidente. Não importando como.

Não há sinal de que a paralização geral, denominada Paro Cívico na Bolívia, termine. O governo local não vai ceder, ou seja, permitir um segundo turno, nem se renunciar. A oposição tampouco apresenta sinais de que vai se entregar.

No sábado, Morales disse que se nao houver comprovação de fraude, não aceitara segundo turno porque seu governo respeita a Constituição. Vale recordar que ele perdeu o referendo de 21 de fevereiro de 2016, que propunha uma alteração exatamente na Constituição para que um presidente pudesse se reeleger indefinidamente. Morales passou por cima da derrota - cheia de calúnias por parte da oposição, decisivas para o resultado final -, e buscou respaldo em organismos internacionais de direitos humanos, alegando que a candidatura indefinida trata-se de direito humano do cidadão.

Na tarde de domingo, o presidente Evo Morales declarou que haverá uma tentativa de golpe contra ele "na próxima semana", disse em La Paz. "Eles estão dizendo que será até terça-feira".

Carlos Mesa incita mais manifestações e convoca pessoas de todo o país a não deter o Paro Cívico. Nenhuma palavra sobre a violência que muitos de seus eleitores estão cometendo. Ou seja, o oponente de Morales está implicitamente incitando mais violência entre o povo boliviano.

Duas horas depois, líderes opositores de Potosi, Chuquisaca e Tarija convocaram uma paralização nacional e um cerco a todas as instituições do governo, incluindo o Palácio Presidencial. Na manhã de domingo, Morales ameaçou cercar as muitas cidades de todo o país que aderem ao Paro Cívico.

Os oponentes de Morales também afirmam que vão obrigar mais pessoas, incluindo funcionários do governo, a participar dos protestos. "É bom para eles, é bom para a democracia boliviana", disse um eleitor do Mesa a esta reportagem na noite de domingo.

Domingo à noite, as ruas do centro de Santa Cruz de la Sierra foram vistas muito mais fechadas, com entulhos incluindo paus e pedras, pela oposição - um cenário chocante, mostrando que os manifestantes que prometem endurecer o caos que leva a uma guerra civil não lançam palavras ao vento.

Parece, desde o início deste chamado Paro Cívico (não a este repórter, há muito tempo prevendo exatamente isso tudo), que não há escapatória para a Bolívia, mas um confronto excessivamente violento. Conversando também com inúmeras famílias, o único sentimento por aqui é que as coisas acabarão em violência fora do controle.

A maioria das pessoas em Santa Cruz de la Sierra diz que quer exatamente isso: "Não podemos perder esta oportunidade de derrubar esse presidente". A um desses cidadãos, a reportagem falou sobre o passado de Mesa e sua falta de projeto para o país. "Mesa pode ser mais facilmente derrubado [que Morales], posteriormente", respondeu ele.

Certamente, se Mesa assumir o poder na Bolívia a maioria das reivindicações populares atuais se derreterá no ar, e a Bolívia voltará ao dia-a-dia "normal". A total subserviência ao regime de Washington, o quintal do tio Sam novamente.

Tudo o que resta agora é esperar a semana começar, em um país completamente parado, tomado pelo medo e a incerteza.

 

 
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