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Crianças de Pebane andam com boca algemada...

31.07.2008
 
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Crianças de Pebane andam com boca algemada...

Josué Bila*

Nunca...Nunca é o advérbio de negação que mais soa da boca da maioria das crianças de lá do distrito de Pebane, província da Zambézia, quando perguntadas se os pais falam livremente com elas. “Nunca” também escutaram e participaram de um programa infantil de Rádio e “nunca” ouviram falar da Organização dos Continuadores de Moçambique e muito menos do Parlamento Infantil (PI). “Nunca” foram ouvidas pelo Governo, nem distrital, nem provincial e nem central sobre as políticas públicas, desenhadas para o desenvolvimento integral de sua personalidade. A Rádio local opera 77 horas, por semana.

Destas horas, apenas duas são destinadas a um programa infantil. O núcleo do PI, com 50 deputados, existe há apenas 2 anos e já reclama a subestimação cívíco-política a que está sujeito pelos órgãos governamentais locais. É neste ambiente que crescem as crianças. Para se chegar lá, via terrestre, da capital Quelimane, percorre-se 350 Km. O censo último, em dados preliminares, contabiliza 186,330 habitantes.

ENTRANDO EM PEBANE

De mochila às costas, o jornal ZAMBEZE desembarca próximo da Pensão Pebane, ao sopro e sol quente de tarde de terça-feira (8). Da capital provincial, Quelimane, para Pebane, percorreu 350Km, ido de Maputo. Viagem essa nada humana, nem urbana, nem rural. Talvez, será inesquecível, por isso. Feita num camião médio, de marca toyota canter. Cuidem-se: o camião ensardinhou, das quatro de madrugada às 12 horas, 45 pessoas – crianças, mulheres, jovens e homens, para além de bagagens rurais.

É desta maneira que se viaja até lá, ida e volta, naquele transporte. E, muito provavelmente, lá se chega e se vive, quando o interesse não tenha sido possível satisfazê-lo em um outro lugar. Assim é Pebane: na falta do melhor, o pior serve... Pebane.

A estrada é, em mais de 200km, de terraplenada; poeirenta e representando a pobreza e ruralidade de seu destino. Pebane é provinciano demais. Verdadeiramente rural. Nada lembra a dinâmica de urbanidade e de desenvolvimento rural, em moldes do Sec. XXI. É um distrito não-infraestruturado, para (re)toques de desenvolvimento. Pobre, do cabelo até às unhas das suas gentes. De um modo geral, as paredes externas dos edifícios (coloniais) da rua principal, quando perguntadas a sua cor inicial, não respondem. Se quiserem responder, dirão que estão pálidos e sujos. Só quem viveu no tempo colonial pode lembrar-lhes a cor. Ou, talvez quem tenha prazer em abstrações e lucubrações, pode referenciar a sua cor. Fora das suas praias, mariscos e fama das “lindas mulheres”, que colocam amuletos em suas lombas, para, segundo crença local, atrairem os homens aos delírios turístico-sexuais, em meio às prováveis depravações morais, o que leva e marca as pessoas em e para Pebane? Pelo menos, as escolas e os centros de saúde mostram que sonhos sociais há em Pebane.

Fala de Helena

Primeiros passos. Ao desembarcar, o ZAMBEZE palmilha o pedaço de terra da rua principal da vila distrital. Doutra faixa, esquerda, passam mais de uma dezena de crianças da escola primária local (24 de Julho). Elas inspiram-no. Galga, ao encontro delas. Ao meio, uma há, sem uniforme. Brota-lhe a curiosidadade de trocar um dedinho de conversa específica, com ela. Aliás, é para isso que escalou aquele micro-terráqueo moçambicano. Ouvir, escutar e falar com as crianças, para saber até que ponto elas gozam do direito à opinião e liberdade de expressão, na família, escola e instituições cívicas, democráticas e políticas.

Num ápice, ignora o cansaço de uma viagem de 350 km. Deixa os traços macambúzios de viagem. Vai fitando os seus olhos à menina, sem uniforme escolar, no meio de crianças uniformizadas. Apressa-se. Embrenha-se. E Saúda-a. Olá! Cumprimenta o repórter.

Com olhar tímido e aparentemente desconfiada, não responde. Insistência: Olá!!! “Ela não gosta de falar, tio”, usa da palavra Flora Jaime, 7 anos. “Ela não gosta de falar, quando é perguntada em língua portuguesa”, conta a menina Flora. Nisso, o ZAMBEZE lembra da lição lapidar do prof. moçambicano Brazão Mazula, segundo a qual “uma língua é expressão de uma cultura”. A frase controla o comportamento seguinte. Pede, imediatamente, que fale em sua própria língua. Para o efeito, Flora traduz, para a língua e cultura (muniga), com que aprende e apreende o mundo e deleita-se perante a sua rica cosmovisão.

Flora vai traduzindo. Mas, não é extrovertida. Apesar disso, cumpriu a missão de arrancar os pensamentos, expressões e sentimentos de Helena, que, em língua portuguesa, não sairiam. Assim, os nervos e o desconforto que uma língua desconhecida traz se tranquilizam: “Meu nome é Helena Manuel”, responde, em expressão titubeante. Curiosamente, desconhece a sua idade. Mas, pelo cálculo aleatório, embora traiçoeiro, porque baseado na conveniência não técnica, tem, mais ou menos, 11 anos. Estava descalça. O estado misantrópico do pé, dos dedos e das unhas denuncia duas hipóteses: ou não gosta do chinelo/calçado ou não o possui. Trazia uma saia preta e blusinha azul. A blusa tinha falta de um dos botões.

Vive empenhada, com afazeres domésticos de sua família. Nada suaves. Helena está a ser preparada para ser mulher, aos moldes de ruralidade pebanensa.

Helena não vai à escola. “Eu vivia com a minha avó e ela nunca me matriculou”. Hoje, vive com os pais em Pebane. “Tenho sonho de estudar, para além de brincar na escola com(o) minhas amigas”.

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