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Freitas do Amaral se demite

02.07.2006
 
Freitas do Amaral se demite

MNE de Portugal sai do Governo por razões de saúde, não políticas

Diogo Freitas do Amaral, Ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, sai do executivo de José Sócrates na segunda feira. Será substituído pelo Ministro da Defesa, Luís Amado, cujas funções serão cumpridas por Severiano Teixeira. Durante a sua estadia nas Necessidades, foi injustamente criticado por aqueles que tentavam criar problemas ao Governo.

Com a proximidade da Presidência portuguesa da União Europeia e a necessidade de Freitas do Amaral ser submetido a ima intervenção cirúrgica na coluna, a demissão foi esperada.

Quem tentou politizar o pedido de demissão é contrariado pelo circular oficial do Palácio das Necessidades, que afirma que a tomada da decisão foi “por motivos imperiosos de saúde que requerem uma intervenção cirúrgica”.

Durante a sua estadia nas Necessidades, Freitas do Amaral sofreu de uma imprensa hostil que tentava criar polémicas onde não existiam, devido ao facto que este Democrata Cristão pertencia a um Governo Socialista.

As gaffes que não eram

O primeiro caso apontado pelos críticos de Freitas do Amaral foi em Junho de 2005, a sua reacção ao Não à Constituição Europeia no referendo na França e nos Países Baixos, quando defendia que a continuação dos referendos iria criar mais situações iguais que não seria nada construtivo para o edifício europeu. E tinha razão. O castelo europeu não se constrói em dez dias nem dez anos. Levou milhares de anos, várias guerras e centenas de milhões de vidas para reconstruir a Europa Romana (em que havia moeda única, lei única, constituição única e até língua oficial única – a Europa Romana foi mais integral que os 25 Estados Membros da U.E.)As palavras de Freitas do Amaral apenas reflectiram a verdade sentida pelos milhões de cidadãos europeus que sentem que os apparatchiks na burocracia europeia estão a ir longe demais, depressa demais.

No mês seguinte, Freitas do Amaral levantou críticas ao Governo, acusando-o de não ter conseguido comunicar o que tentava fazer com as suas reformas. E tinha razão. Iremos mais longe: será que na Europa de hoje alguém pode apontar um único membro de algum Governo que tenha contacto com a realidade dos cidadãos? Será que em Portugal haja um único deputado que sabe como é receber um ordenado de miséria e tentar arranjar comida para a mesa da família? O que os Governos esquecem é que os cidadãos estão cada vez mais distanciados da Governação e isso é antidemocrático. Se o nosso modelo actual democracia é Governação por uma cinzenta massa de invisíveis tecnocratas, deixa muito a desejar.

Em Novembro do mesmo ano, criticou a Presidência britânica da União Europeia por não ter produzido resultados tangíveis em cinco meses. E tinha razão. No entanto, produzir resultados sobre o financiamento da União Europeia por um governo britânico não seria por culpa do mesmo, por causa da natureza política e sensível da questão. A grande maioria dos britânicos tem sérias questões acerca de uma União em que sentem que pagam muito mais do que recebem e colocam em questão a necessidade de bancarem uma instituição que não lhes retorna o investimento desde a adesão em 1973, enquanto países como a França recebem muito mais em termos comparativos.

Em Fevereiro deste ano, veio a crítica de Freitas contra a decisão por alguns jornais dinamarqueses de publicar banda desenhada ofensiva para o Islão e o comentário que o Ocidente tinha sido historicamente “o maior agressor” em conflitos com o mundo islâmico. E tinha razão. Desde as Cruzadas é que hordas de bárbaros invadiam terras alheias e no tempo medieval, foram os muçulmanos que foram esforçados a convertirem-se, enquanto cristãos capturados pelos islâmicos eram livres de praticar sua religião. A decisão de publicar a banda desenhada foi uma pura estupidez, uma provocação desnecessária numa altura em que se travava uma guerra ilegal, nomeadamente o acto de chacina de Bush no Iraque – que Freitas do Amaral também tinha o estofo de criticar em público, ao contrário de outros governantes que preferiram estudar o umbigo.

Finalmente, o comentário que seria preciso reduzir o número de adidos consulares e acabar com a prática de nomeações políticas franziu o sobrolho de alguns. Mas tinha razão. Se Portugal padece de um único mal, é precisamente aí onde Freitas do Amaral colocou o dedo. A invasão da classe política na área administrativa até ao nível médio sufoca o processo de tomada de decisões estratégicas e favorece decisões cosméticas mais orientadas para as próximas eleições do que constituir os alicerces para o progresso. Daí a queda constante de Portugal na tabela europeia de produtividade e quase todos os indicadores sociais e económicos.

E se as Embaixadas fizessem mais trabalho e tivessem menos coquetéis, mais resultados teriam. Quem trabalha com Embaixadas sabe que, regra geral, nada produzem a não ser frases de ocasião.

Resumindo o consulado de Freitas do Amaral como Ministro de Negócios Estrangeiros de Portugal em duas palavras, dir-se-ia simplesmente, Na Mosca!

Timothy BANCROFT-HINCHEY

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