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Segurança Democrática na Macedônia: entre Bruxelas e Moscou

29.05.2015
 
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União Europeia e Rússia começaram as discussões sobre o conceito de segurança democrática, ideia que significa coisas absolutamente diferentes para cada um desses dois lados.

Na mais recente reunião do Conselho da Europa, o ministro de Relações Exteriores da Europa Sergei Lavrov e o secretário-geral Thorbjorn Jagland discutiram a necessidade de segurança democrática, com a Rússia destacando que no momento a segurança democrática é questão dramaticamente importante para a Macedônia. Embora não tenham sido distribuídos outros comentários públicos sobre o assunto, é claro que Bruxelas e Moscou têm em mente conceitos diferentes da coisa. 

Como se pode ver no caso da Macedônia, a União Europeia vê qualquer líder ou governante pragmático e de pensamento independente como 'ameaça' à ordem mundial unipolar (supostamente 'democrática'); mas a Rússia vê as tais "revoluções coloridas" e os golpes planejados do exterior contra governantes nacionais como, esse sim, o verdadeiro perigo que ameaça a democracia.

Mesma palavra, diferentes universos de significação 

Examinemos um pouco as diferenças entre União Europeia  e Rússia, na compreensão implícita que tenha cada lado, do que seja "segurança democrática".

Definição

Para a União Europeia 

A julgar pelo comportamento de Bruxelas para a Macedônia, pode-se pressupor que "segurança democrática" significa manter onde estão e como estão os respectivos peões e os países ocidente-dependentes. No entendimento da União Europeia, a Bulgária governada pelo obediente e servil primeiro-ministro Boyko Borissov seria "democraticamente segura"; mas a Macedônia governada pelo pragmaticamente assertivo primeiro-ministro Nikola Gruevski seria "democraticamente insegura". Tampouco é coincidência que Borissov seja 'adotado' porque bombardeia o [gasoduto] Ramo Sul; mas Gruevski seja 'bombardeado' porque 'adota' o Ramo dos Bálcãs [orig. Balkan Stream].

Para a Rússia

Moscou sente de outro modo, é claro. Mantém a posição de que o ocidente nada ganha com considerar "ameaças à democracia" (no plano doméstico ou no plano internacional) líderes independentes e pró-multipolaridade. Moscou entende também que as urnas são a única opção que há para que um país 'mude o regime'. Assim, do ponto de vista russo, segurança democrática implica salvaguardar governos de governantes eleitos. Por isso mesmo, a Rússia saúda Gruevski por suas credenciais democráticas e democratizantes e por sua posição contra-Revoluções-Coloridas. Mas o líder ucraniano pós-Revolução-Colorida-na-Ucrânia, Aleksander Turchinov foi tratado como governante antidemocrático.

Foco

Para a União Europeia 

Moções democráticas, como eleições regulares e 'imprensa livre' (definidasubjetivamente) são importantes para a Europa, e se algum partido ou candidato enfatiza seu compromisso com valores 'euroatlânticos', nesse caso já andou meio caminho para obter suas 'credenciais democráticas'. Tudo isso muda, é claro, se não aceitarem marchar em passo marcado com a política exterior de Bruxelas (a Macedônia, aspirante 'oficial' a estado euroatlântico, recusou-se a fazê-lo), atitude que, então, invalida qualquer progresso democrático que tenha sido previamente reconhecido.

Para a Rússia

A Europa avalia a democracia a partir da apresentação de superfície; a Rússia examina a substância real da coisa. Fator chave nessa avaliação é se o governante em questão foi eleito e representa o estado de espírito, o sentimento e os interesses do país naquele momento. Gruevski sem dúvida satisfaz esse critério, e reuniu quase 100 mil pessoas nas ruas de Skopje para defenderem-se contra a agressão contra a Macedônia; os revolucionários coloridos mal conseguiram reunir mínima fração disso.

Causa das Preocupações 

Na União Europeia 

Os europeus alarmam-se quando um governante forte, determinado e pragmático (quer dizer: não é um tecnocrata) é eleito e põe-se a pregar políticas multipolares, servindo-se de retórica independente. No pé em que está, Gruevski exibe precisamente essas características, mas que qualquer outro governante em toda a Europa. Daí o golpe, digo, a Revolução Colorida.

Na Rússia

A Rússia preocupa-se gravemente quando alguma minoria política radical (especialmente se recebe apoio e dinheiro do exterior) tenta (sempre violentamente) derrubar governo eleito e legítimo, precisamente como acontecia no começo desse mês na Macedônia.

Solução

Para a União Europeia 

Quando se vê diante do que, para ela, seria "crise na segurança democrática", a União Europeia  (porque assim lhe ordena os chefões norte-americanos) rapidamente oferece uma 'revolução colorida' e/ou os mais vergonhosos esforços para arrastar a laço, de volta para o curral unipolar, os governantes e países que eles representem. É o que explica por que alguns políticos europeus (o que mais chama hoje a atenção é Sergey Stanishev da Bulgária) cuidam de jogar todo o peso que tenham a favor do primeiro ato da tentativa de desestabilização como se viu no domingo, porque se sente claramente induzido a interferir nos assuntos domésticos da Macedônia, para 'corrigir' sua linha geopolítica.

Rússia

A resposta da Rússia a ameaças à segurança democrática que aconteçam contra seus parceiros é engajar-se em campanhas de informação de apoio, que ajudem aqueles parceiros a expor o complô que tenham sofrido, orientado por Inteligência externa, contra o regime democrático. Orientação estratégica, apoio diplomático, são também meios pelos quais a Rússia ajuda a defender democracias que estejam sendo atacadas.

O xis do problema 

O obstáculo insuperável entre essas duas visões do que seja "segurança democrática" é Bruxelas e seus patrões norte-americanos, e a resposta que dão a governantes eleitos, fortes, determinados e pragmáticos. Em vez de esperar que a democracia siga o próprio curso, eles imediatamente se põem a sabotar (tudo: eleições, eleitores, lei, governantes, todo o sistema), com uma encenação de "revolução colorida". 

A maior ironia dessa dicotomia é que o ocidente abraça todas as suas medidas golpistas antidemocráticas ostensivamente para... 'proteger a democracia'. E simultaneamente se pões a acusar a Rússia de 'apoiar déspotas', cada vez que Moscou anuncia apoio a governos legítimos - como o governo da Síria, por exemplo. 

O coração da contradição entre a União Europeia e a Rússia [no fundo, sempre, é a eterna hipocrisia do ocidente (NEs)] pode ser realmente rastreado, em primeiro lugar, até o momento em que surja um governante independente. Isso é sempre o que mais enlouquece o ocidente, a ponto de imediatamente se pôr em campo para encenar uma 'revolução colorida' contra aquele determinado democrata-alvo.

Para começar, são governantes eleitos pelo próprio povo, em eleições livres, justas e internacionalmente reconhecidas, o que significa que quem pôs no poder aqueles governantes foi o povo. Pode ter acontecido de o primeiro-ministro ou presidente-alvo não terem falado muito de política externa durante a campanha, com o resultado de que só depois de instalados democraticamente no poder democrático, aquele presidente-alvo ou primeiro-ministro-alvo deixam ver seus conhecimentos e suas opiniões sobre assuntos internacionais. Nem por isso, evidentemente, o governante perderia o status de legítimo representante no mundo exterior, dos interesses de seu país.

Salvar a alternativa multipolar 

O próprio fato de os governantes em todo o mundo poderem afinal escolher entre políticas unipolares e multipolares é efeito das seguintes características muito importantes da ordem pós-Guerra Fria:


* A paridade nuclear entre Rússia e EUA e o renascimento do país como grande potência, graças a Putin, permitiram que a Rússia preservasse sua posição como sólido contrapeso militar ao mundo unipolar. 

* Os EUA ajudaram a China a crescer, pensando em criar mais um contrapeso a seu favor e contra a URSS. Com o tempo, Pequim tornou-se 'incontrolável' e agora vive a consciência do próprio destino, ao crescer como ator global independente.

* O período de reconhecida popularidade do unipolarismo estendeu-se de 1991 até no máximo 2013 (quando os EUA desistiram de atacar em guerra convencional a Síria, sob contrapressão russa) e trouxe com ele enorme quantidade de erros militares (Iugoslávia, Afeganistão, Iraque, Líbia etc.) que desacreditaram (melhor tarde do que nunca!) o modelo de política exterior ocidental; e tornaram os públicos globais mais receptivos à alternativa multipolar.

* A mudança do centro de gravidade econômica, do Ocidente para a área do Pacífico Asiático, mudou o ponto focal global, de solidamente unipolar, para as fronteiras da multipolaridade.

* Duplos padrões ditos 'democráticos' - com muitos falando muito de 'direitos humanos' e 'democracia', mas amancebados com os reinos do Golfo (alguns dos quais são os estados mais antidemocráticos e anti-humanidade do planeta) -, acabaram por provocar dano irreparável, de 'soft power', à mensagem do ocidente; e plantou sementes de forte desconfiança contra o unipolarismo, na consciência global.


À guisa de conclusão 

Segurança democrática é o mais importante campo estratégico emergente hoje no mundo, por que nesse campo forma-se e trava-se o conflito crucial entre os campos multipolar e unipolar. Estados unipolares e seus aliados e procuradores continuaram a tentar derrubar governos não servis ou independentes; ao mesmo tempo em que o mundo multipolar faz o que razoavelmente consegue fazer, para defender e apoiar os governos que sejam escolhidos pelos respectivos povos. 

Resumo final disso tudo, porém, a segurança democrática reduz-se ao que o povo-alvo das tentativas de golpe faça para resistir contra a 'mudança de regime' que desaba sobre sua cabeça [assumindo-se que compreendam o que esteja acontecendo, nem sempre tarefa fácil, dada a alta habilidade do ocidente para disseminar a falsa consciência (NEs)]. Como diz o jornalista italiano e especialista nos Bálcãs Umberto Pascali, a resistência na Macedônia pode significar uma Stalingrado estratégica, na luta contra 'revoluções coloridas', em todo o mundo. *****

25/5/2015, Andrew Korybko, The Greanville Post 

 


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