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Será Obama um Collor americano?

14.03.2008
 
Será Obama um Collor americano?

Por César Augusto Gomes

O mundo acompanha o surgimento de uma nova liderança política nos Estados Unidos calcado na palavra “mudança”. Estudante brilhante de Harvard, surgiu como destaque das eleições proporcionais de 2004 ao se eleger Senador da república pelo partido democrata, representando o estado de Illinois. Dantes, era um singelo senador regional por aquele estado e no dia 04/01/2005 assumiu seu novo cargo eletivo, já com um discurso contundente contra o governo Bush.

As fracassadas guerras do Afeganistão e do Iraque enterraram, no sentido literal, mais de US$ 700 bilhões numa aventura com resultados duvidosos até hoje.

Temos, naquele país, um “caldo de cultura” para o surgimento de novos líderes com a palavra mágica “mudança”. Os brasileiros já passaram por esta previsível decepção.

Entre 1986 e 1989, nosso presidente era José Sarney que, com seus fracassados pacotes econômicos, levou a administração pública à desmoralização. Foi a oportunidade rara encontrada pela “república das Alagoas” para lançar Collor de Mello rumo a um projeto muito maior do que sua inexperiência administrativa permitia. As conseqüências são conhecidas.

No hemisfério norte, os tempos são outros, com a ameaça de uma forte redução da atividade econômica neste 2008. O dólar perdeu 30% de seu valor frente ao euro. O déficit comercial ultrapassou a US$ 758 bilhões em 2006, com uma projeção de US$ 850 bilhões em 2007, face à elevação nas cotações do petróleo e das comodities. Além disto, o déficit fiscal se aproxima dos US$ 400 bilhões em 2007, superando o fracasso de Bush pai em 1996, com uma defasagem fiscal de US$ 290 bilhões.

Em síntese: o mar está revolto e o “navio” tem muita chance de se transformar num Titanic do século 21. Só que desta vez, não é somente a população americana que vai amargar uma recessão. A piora do quadro americano ainda tem o condão de azedar o mundo todo, em maiores ou menores proporções.

O Banco Mundial já refez os estudos e informa que o PIB global de 2008 vai crescer aproximadamente 4,65% contra 5,2% em 2007. E os números podem ser ainda piores quando forem liberados mais dados sobre os prejuízos dos bancos com o subprime hipotecário. As previsões de prejuízos variam entre US$ 250 a 400 bilhões. Por conseguinte, estamos no “olho do furacão”, onde com sorte e competência é possível contornar as dificuldades e trilhar junto ao saneamento fiscal e econômico dos Estados Unidos, o que interessa a todos nós.

A administração Bush se compara, em termos de fracassos, ao governo Sarney. Analisando os potenciais candidatos à sucessão, é possível antever que o candidato democrata, a ser referendado na assembléia geral dos delegados, deve ser o novo presidente. Por seu lado, o candidato republicano se constitui numa “zebra”, sem qualquer perfil administrativo que o habilite à Casa Branca.

Pela tendência, há uma boa possibilidade de Barack Obama, com seu discurso mudancista, ultrapasse Hillary Clinton e contagie aos eleitores. Pensando nesta hipótese, como um político inexperiente vai enfrentar problemas de tal ordem, que demandam conhecimento e colaboradores preparados para tentar errar o mínimo possível?

Esta é a preocupação do articulista. Fernando Collor, na sua entrada, bloqueou recursos e desfilou suas camisetas no cooper dominical, sem um programa econômico expressivo que induzisse à recuperação da capacidade de investimento das empresas nacionais e multinacionais. Mostrando seu despreparo, mesmo com o apoio da mídia, contribuiu para que a crise dos anos oitenta avançasse pelos anos noventa. A história o julgou com os olhos críticos. O desenlace foi por demais melancólico.

Terá Obama uma equipe capaz de montar estratégias que enfrentem os descompassos da gestão Bush? Pelo conhecido até agora, as principais lideranças econômicas e do setor financeiro ligadas ao partido trabalharam com Bill Clinton e, em tese, estão vinculadas com a candidatura de Hilary.

Será que o timoneiro está preparado para enfrentar os vagalhões em pleno mar? Só tem um detalhe: se este barco afundar, nós também vamos a pique.

Acredite. A crise é séria e estrutural. Torçamos para que os americanos recuperem o juízo e escolham o melhor candidato, aliás, candidata, que recoloque o país nos trilhos, com a geração de superávit primário e redução forte do déficit comercial. O gigante não pode adormecer, pois as seqüelas serão mundialmente desfavoráveis.

Esse papo de “descolamento da economia brasileira”, em plena globalização, só é levado a sério pelos apreciadores de bons drinques ao por do sol. Passado o efeito etílico, a volta à realidade provoca uma bela dor de cabeça.

César Augusto Gomes é mestre em Economia pelo PIMES/UFPE, consultor tributário, ex-delegado da Receita Federal em Caxias do Sul/RS e Diretor de Metha Consultoria e Planejamento Tributário (Vitória/ES).

www.cofecon.org.br


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