Dá-lhes milho...

Dá-lhes milho.... 16270.jpegEra uma vez uma vara de javalis que vivia livre e feliz no bosque. Certo dia porém um porqueiro, que ambicionava domesticá-los, lembrou-se de atirar uma porção de milho para o meio de uma clareira. Ficou à espreita. Passados alguns minutos, surgiu um javali que comeu com sofreguidão tão apetitosa iguaria, sem desconfiar de nada. No dia seguinte, o nosso homem fez o mesmo e logo a seguir vieram dois javalis. Repetindo este acto durante alguns dias, verificou que já não era apenas um, mas a família inteira de javalis que vinham à clareira saborear fartas porções de milho.

O porqueiro passou então à segunda fase da operação: cercar e capturar os javalis. Começou por colocar uma discreta barreira de um dos lados da clareira e os javalis, alheios à presença dele, que até já o consideravam um "benemérito", continuaram a comer o milho. Veio no dia seguinte e montou mais uma barreira. O cercado ganhava forma, mas os javalis continuavam indiferentes ao que se passava ao seu redor. Veio o terceiro dia e nova barreira foi colocada. Os inocentes javalis continuaram a não reparar na cerca que começava a envolvê-los.

Ao quarto dia, o porqueiro finalmente completa o seu plano colocando a quarta barreira. A partir daquele momento, estavam os javalis aprisionados. Contudo, não se deram conta logo do perigo que os cercava. Após o festim da comilança fácil e segura daquele dia, resolveram bater uma boa soneca grunhindo de satisfação inaudita. No dia seguinte, com o estômago a dar horas, reparam que o porqueiro "amigo" não lhes trouxe mais milho. Revoltaram-se e tentam fugir. Porém, gordos e anafados como estavam, não conseguiram saltar a cerca, que parecia agora muito mais alta, e fugirem da armadilha. Tarde demais. Às mãos do porqueiro ambicioso, aguardava-lhes a partir de agora o destino que eles tanto desdenhavam nos seus primos porcos... a pocilga.


Ora, a acção deletéria dos "mercados" e dos seus prepostos é semelhante à estória dos javalis que acabámos de contar. Iludem-se aqueles que ainda acham que existe alguma bondade no sistema e que no fim seremos salvos. Puro engano!


Há dias o Professor de Gestão e Marketing, Dr. Jorge Landeiras de Vaz, comentando num programa de televisão a actualidade Económica e Política, referiu que a Crise Financeira que grassa na União Europeia, deveu-se ao excesso de crédito. Acrescentou que em consequência, os bancos europeus, para evitarem a falência, receberam até agora dos Estados a quantia astronómica de 1,6 triliões de Euros e do BCE, a módica quantia de 500 milhões de Euros (sic). Não referiu porém a parcela que os bancos perderam com a especulação financeira. Mas podemos percepcioná-la a partir de uma informação do jornalista Norte-americano Alex Jones. Segundo ele o valor estimado dos "activos tóxicos", ou seja, "papéis especulativos sem valor comercial", ascendeu à bonita soma de 1,5 triliões de Dólares! Boa malha! Como diria um nosso amigo. Quem paga o pato? Não são os mercados de certeza...


Num documentário que vimos há dias, no canal Odisseia, explicava-se que os investidores reagem emocionalmente às expectativas de ganho na bolsa, enquanto os "mercados" controlam racionalmente tais expectativas... Nada é mais certo. Esclarecia ainda que a parte emocional do nosso cérebro reage instintivamente a qualquer oportunidade de ganho, como um "reflexo condicionado". Literalmente "baba-se", como na experiência de Pavlov com o cão... Concluía, que o jogo financeiro é tendencialmente vicioso. E é. Quem ganha, enquanto ganha, não consegue parar, tal como acontece na roleta de um Casino... Ora os manipuladores financeiros sabem disso e aproveitam-se. Dispõem para tanto de uma panóplia de meios para criar tendências e influenciar o investidor compulsivo, que pressionado pela propaganda insidiosa do enriquecimento fácil e rápido, depressa cai na teia psico-dependente da Bolsa.
Lembramo-nos que quando da reabertura da Bolsa de Lisboa, os bancos até ofereciam crédito a quem quisesse comprar acções. Aconteceu connosco, só que não embarcámos no barco... Houve quem gastasse o que tinha e não tinha... confiando inclusive no optimismo do actual Presidente da República, Dr. Cavaco Silva, então 1º. Ministro, que anunciava aos quatro ventos as virtudes de uma Economia de Mercado. Dizia ele então que havia chegado a hora do "Capitalismo Popular", com oportunidades de negócio para todos e não apenas para os grandes grupos económicos. A breve trecho muita gente ficou a ver navios... com dívidas às costas, enquanto aqueles últimos não só não ficaram no cais, como receberam fluxos de Capital fresco, praticamente a custo zero, drenado da pequena poupança, alcançada em muitos casos com sacrifício.


O banqueiro francês Barão de Rothschild dizia que "...Se você puder criar dinheiro do nada, então empreste-o a juros". Lapidar! Ora é exactamente isso que os Credores Institucionais buscam. São os juros e não a dívida em si, que os preocupa. Parece paradoxal, mas não é, como veremos adiante.
Desde que os Estados Nacionais renunciaram à cunhagem de moeda própria, como foi o caso de Portugal, alavanca fundamental da soberania de um País, os banqueiros passaram a poder criar dinheiro sem representação física e sem qualquer lastro em metal nobre. Como? Através dos empréstimos. Ao contrário do que o vulgo supõe, um Crédito Bancário é uma emissão de moeda, mas uma moeda "aparente", ou seja, que só existe sob forma de escrituração electrónica.


Hoje, graças à tecnologia de computação, o Capital Especulativo circula livremente à velocidade de décimas do segundo, 24 horas sobre 24 horas, entre as principais praças do Mundo (Wall Street, City, Paris, Tóquio, etc) sem qualquer controle político dos Estados Soberanos e em cada passagem pode valorizar-se sem necessitar do concurso do Trabalho para gerar lucro. Daí a indiferença total dos Investidores Financeiros para com a Economia Real.


A este respeito, Michel Chossudovsky, Economista Canadiano, no seu livro "A Globalização da Pobreza e a Nova Ordem Mundial", referindo-se à "Rede Financeira Global", escreve: "...o dinheiro transita a alta velocidade de um banco offshore para outro, sob a forma intangível de transferências electrónicas. As actividades de negócios 'legais' e 'ilegais' estão cada vez mais entrelaçadas, acumularam-se vastas fortunas privadas não declaradas. Beneficiando da desregulação financeira, as máfias criminosas expandiram também a sua intervenção para a esfera da actividade bancária internacional."


Graças ao chamado Sistema de Reserva Fraccionada, os banqueiros podem gerar grande volume de crédito com uma reserva mínima de dinheiro físico. Tal sistema permite à Oligarquia Financeira Internacional, não apenas obter lucros astronómicos, como gerar entropias ao normal funcionamento da Economia dos povos, gerando uma dependência política crescente. Daí que não nos deveríamos surpreender com a influência cada vez maior dos "mercados" sobre os assuntos internos de um país, como é o caso português com a Troika. Embora os governos sejam eleitos, com base num programa de incidência nacional, na verdade seguem depois uma agenda política estranha aos interesses do povo, frustrando todas as expectativas que os eleitores colocaram nos candidatos. E isto não é de agora. Vem acontecendo há muito tempo.


No livro "O Poder SECRETO!", que nestes dias se tornou, para nós, de consulta obrigatória, o autor, Armindo Abreu, Economista brasileiro, transcreve de "The New Worl Order", de Pat Robertson, o seguinte: "...toda a rede mundial bancária opera, hoje em dia, alavancando seus negócios segundo a mesma invenção maquiavélica e altamente rentável de Paterson: a chamada 'reserva fraccionária bancária'. ...significa que se o Capital inicial é de 1 milhão de dólares eles (os banqueiros) devem manter 5% em reservas (ou 50 mil, valor do recolhimento obrigatório), podendo emprestar os 959 mil restantes. Assumindo que os tomadores de empréstimos mantenham por certo tempo, depositado em conta, o dinheiro emprestado, eles (os banqueiros) novamente reservarão 5% desses 950 mil e emprestarão o resto, sucessivamente. ...Dessa forma, usando reservas fraccionárias, um banco poderá criar um 'efeito de pirâmide', transformando uma quantia modesta em enorme soma de dinheiro." Por exemplo: ...um banco com um Capital de 5 milhões e reservas de 45 milhões poderia suportar uma carteira de empréstimos de 1 bilhão que lhe renderia, líquidos, após pagar despesas e dividendos, cerca de 1% ou 90 milhões. Isso significa que o banco ganharia, ao ano, 90 milhões em juros sobre 'dinheiro criado do nada'."


No pico da especulação imobiliária nos USA, os bancos usaram e abusaram da reserva fraccionária bancária, ultrapassando as margens historicamente recomendadas entre 10% a 20%. Bancos como o Citigroup, Goldman Sach, JP Morgan e Bank of América, chegaram a reservas da ordem dos 0,001% (!), o que significa que por cada milhão de dólares em dinheiro físico depositado, os banqueiros criaram mil milhões de moeda aparente, virtual. Enquanto os juros foram baixos, a 1% para empréstimos a curto prazo, os mutuários puderam obter crédito com base na valorização expectável do imóvel, permitindo amortizar prestações vencidas, renovar hipotecas e adquirir bens de natureza vária, embora seus rendimentos pessoais fossem inferiores aos compromissos assumidos. Os investidores viviam o sonho da valorização infinita do imobiliário, baseados numa evolução histórica de preços sempre a crescer... Houve casas que valorizaram em curto espaço de tempo mais de 200%(!). Tal foi possível, graças à oferta de crédito barato e fácil, inclusive sem necessidade de documentação sobre o cadastro do cliente e a origem dos rendimentos. Foi este o regabofe dos Subprime. Não acreditamos pois que isto tenha acontecido "naturalmente", por obra e graça do Espírito Santo... A alguém interessou e este alguém deu uma mãozinha...


A Bolha do Imobiliário (significativa expressão...) entretanto rebentou. E rebentou quando a procura crescente começou a pôr em causa o património mobiliário dos especuladores pela excessiva emissão de moeda fictícia, sem cobertura de moeda fiduciária. Na verdade que adianta ter uma carteira recheada de dinheiro aparente, se tal não tem sustentabilidade? Face á inflação dos preços dos imóveis e à degradação do valor do dólar, o FED, Banco Central Privado dos bancos Norte-americanos, resolveu subir as taxas de referência do mercado imobiliário. De repente os mutuários viram as suas prestações agravadas com juros de 5%, tendo mais tarde atingido os 10%(!). Em consequência, o mercado do imobiliário "quebrou" e ninguém conseguia vender as casas para liquidar as hipotecas. Cerca de 3 milhões famílias foram arrastadas para a insolvência. "Quebraram" também as empresas de financiamento e os bancos aos quais estavam associadas. Triliões de activos tornaram-se "podres" e contaminaram todo o Sistema Bancário Mundial. Quem ainda tenha dúvidas sobre a Globalização, tem neste acontecimento a prova cabal de que os bancos nacionais já não são tão nacionais como se procura fazer crer, a começar pelos Bancos Centrais, que só são nacionais pelo nome... Mais, os banqueiros sabem que na hora do prejuízo podem contar com a "ajuda" dos Estados. Como alguém afirmou: "Os bancos (são) demasiado grandes para falir..." E que, no rescaldo da Crise Financeira, "Estão ainda maiores", segundo Stiglitz, Nobel da Economia...


Os juros são de facto o negócio dos banqueiros e como tal não têm qualquer interesse na liquidação das dívidas, sobretudo quando o mutuário tem algo mais para dar...ou que interessa ao usurário.


Recorrendo novamente ao Economista Armindo Abreu, que foi Director Financeiro da Petrobrás, tendo por inerência do cargo, convivido de perto com o círculo financeiro de Wall Street, na pág. 218 da sua obra "O poder SECRETO!", revela a Regra dos Setenta e dois, uma espécie de regra de ouro do Oligarquia Financeira. Trata-se de um dividendo que permite calcular o número de anos necessário para que um investimento ou uma dívida a juros compostos duplique de valor, tendo em conta determinada taxa de juros. E dá um exemplo: "Um empréstimo de R$ 1 milhão, negociado a uma taxa de juros compostos iguais a apenas 10% ao ano, dobraria para R$ 2 milhões em 7,2 anos (72:10=7,2); novamente dobraria, para R$ 4 milhões, em 14,4 anos; para R$ 8 milhões, em 21,6 anos; para R$ 16 milhões, em 28,8 anos; e, finalmente, para monstruosos R$ 32 milhões, em 36 anos. Isso porque, enquanto os anos se passam de forma linear, ou segundo os termos de uma progressão aritmética, os juros compostos crescem exponencialmente, isto é, segundo uma progressão geométrica. Dessa forma podemos concluir, no exemplo citado, que a riqueza dos banqueiros, justificando a incontida alegria do sapientíssimo barão de Rothschild e dos seus colegas, cresceria 3.200% em 36 anos, se aplicada uma taxa de meros 10% ao ano!"


O negócio dos banqueiros, pelo que atrás expusemos, é obviamente os juros. Através destes podem gerar entropias ao normal e saudável funcionamento da Economia, sendo a escassez de dinheiro em circulação, a mais grave. Esse é aliás o seu desiderato oculto, com o qual obtêm o domínio Económico e Politico dos povos. Ora, ao acordo de Resgate Financeiro da Troika, subjaz tal desígnio. Por onde andou o FMI, as vítimas não somente não se libertaram do subdesenvolvimento, como se endividaram ainda mais. Segundo Michel Chossudovski, "o montante total da dívida a longo prazo dos países em vias de desenvolvimento" aumentou 32 vezes entre 1970 e 1998, ou seja, de 62 mil milhões de dólares, atingiu a soma astronómica de 2 biliões de dólares. Tais países eram pobres e ficaram ainda mais pobres, na dependência política e económica dos Credores Internacionais.  As elites nacionais entretanto enriqueceram, mantendo a salvo no exterior a sua riqueza particular. Boa malha!


Seria menos mau se a Crise da Dívida se confinasse a Portugal, como alguns comentadores da nossa praça parecem fazer crer, quando em manifesta tontice autista, matraqueiam a necessidade imperiosa de sacrifícios. Pior ainda, quando afirmam que a culpa é do povo, que só pensa em direitos, trabalha pouco, etc. etc. Nada é mais falacioso, com laivos contrição saloia... Com essa conversa das duas, uma: ou estão a confundir a árvore com a floresta, e de facto há por aí muita gente com a tendência estúpida de generalizar os pequenos e até mal conhecidos casos individuais, para sustentar as suas opiniões preconceituosas, ou então este discurso auto flagelante tem, em si mesmo, objectivos políticos. E tem. É que com esta conversa tola, que só nos divide, os nossos algozes internacionais, e não só, conseguem que nos conformemos com o roubo que nos estão a fazer, branqueando responsabilidades políticas, que as há, e assim, evitando que os responsáveis internos sejam politicamente julgados.


Artur Rosa Teixeira
([email protected])
Ponta Delgada, 16 de Janeiro de 2012

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