O Menino Jesus dos pobres

O Menino Jesus dos pobres


"Deixar vir a mim os pequeninos, por

que deles é o Reino dos Céus.
 
(Jesus Cristo)
 
Querido Diário:
 
Eu vim para cá hoje. Estamos no mês de dezembro e acho que foi minha mãe lá do céu quem deu um jeito de algum alguém ligar para um número de socorro, e então vieram me buscar. Estou num quarto com um monte de meninos iguais a mim, alguns cometeram faltas, infrações, poucos têm pais ou estudos. Minha mãe saiu de casa pra procurar emprego, eu fiquei três dias sozinho e muito preocupado, e ela não voltou, sinto que me abandonou ou morreu mesmo. Deve ter perdido cabeça. Daí alguém telefonou pra polícia dos menores e foram me buscar. Acho que foi ela, porque já não tem como nos sustentar. Não tenho pai. Minha mãe disse que ele foi morto por engano pela polícia. Afinal, somos da periferia, pretos e pobres, e a policia não gosta de nós. Estou triste mas pelo menos aqui eu como alguma coisa, pelo menos. Tem todo tipo de violência. Alguns funcionários tratam bem, outros tratam mal. Penso muito em minha mãe. Principalmente nesses dias perto do Natal. Vou parar de escrever agora porque daqui a pouco vão apagar a luz.
 
Zezinho.
 
Querido diário:
 
Teve briga feia essa noite. Quase apanhei também. Os funcionários vieram violentos pra cima dos menores, e bateram em todo mundo. Acho que é porque alguns reclamaram deles. Ficamos nus no pátio. Chorei muito. Um rapaz maior do que eu, dentes podres, cheio de berebas mas com pequenas infrações como furtos rápidos para comer, me protege como pode. Estou com medo. Muito medo. Pelo radinho de pilha de um interno vejo falar de Natal, de Jesus, de presentes. Mas aqui eu não tenho nada. Vou sair para ir no médico agora, pois estou com piolhos e com alta febre. Talvez esteja contaminado, alguma intoxicação. Dizem que a minha mãe se atirou de uma ponte para dentro de um rio sujo, e foi fatal.
 
 
Querido diário:
 
Hoje é quarta-feira, estamos a uma semana do Natal. Falam em Jesus. Dizem que alguns moleques vão ser soltos. Dizem que há uma Anistia para os que foram flagrados em primeira infração. Eu não fiz nenhuma, mas, segundo me disse um funcionário aqui da Febem, não tenho ninguém por mim, não tenho casa para voltar, fui achado abandonado e quase morrendo de fome, então não posso sair e cair na rua, na marginalidade, nas drogas. Tenho medo de ficar sozinho. De noite escuto gritos, choros. Confio que Deus me protegerá. Ontem orei e pedi que Deus tomasse conta de mim. Pensei muito em minha mãe também. Não quero ficar muito tempo aqui. Tenho saudades de casa. Depois dormi mas tossi bastante a noite toda. Acho que estou muito doente. Agora vou comer uma sopinha que uma cozinheira esquisita fez pra mim.
 
Querido diário:
 
Veio uma Assistente falar comigo. Disse que não pesa nada contra mim, mas que eu só tenho aqui para ficar. O governo não tem lugar para recuperar pessoas erradas, imagine então uma casa de apoio´para quem nada deve. Mas ela disse que vai tentar que me adotem. Mas eu sei, aprendi coisas ruins aqui dentro, para sobreviver até, uma  delas é não esperar muito, não sonhar tanto. Afinal, sou preto, pobre, estou doente. Tenho cabelo ruim e pé torto até pra jogar bola. Imagine quem vai querer um molambo, um mané assim aleijadinho para criar como filho? Agora vou sair daqui do pátio porque, parece, aprontaram alguma de noite e a policia vai invadir. Há um cheiro de fogo, coisa queimada.
 
Querido diário:
 
Estamos a poucos dias do Natal, as celas estão ficando vazias, além de duas fugas entre ontem e hoje, muitos foram dispensados para passarem o Natal com os pais. Como eu não tenho ninguém por mim, fiquei com mais três em igual situação numa ala enorme e quase vazia. Mataram dois ontem. Um menor marginal e um funcionário corrupto. Estou tomando um remédio ruim, amargo, que me solta o intestino. Quando tenho medo, oro muito. Penso em Deus. Não tenho pai, nem amigos ou irmãos, nem sei se minha mãe ainda está viva, só tenho Deus e agora, pelo que falam tanto, tenho também o Menino Jesus de consolo. Acho, sinto, que posso confiar nele. 
 
Será que ele é também Menino Jesus dos Pobres?
 
Querido diário:
 
Não consigo comer. A comida não desce. Estou doente, a boca amarga, fraco. Com o coração partido. Escuto fogo gemer lá fora, música louca, cheiro de comida queimando. No radinho tocam musicas religiosas falando em amor e boas novas. Parece que estamos perto de meia noite, está chegando o tal Natal e eu estou sozinho, preso no pretume da noite, sem ninguém por mim. Estou triste, com fome. Ninguém veio me ver. Ninguém vai me adotar. É quase meia noite. Quem ficou de castigo, não saiu numa boa, vai comer frio amanhã o que sobrar de hoje. Não terão visitas os internos que ficaram. O que saíram são sangue bom, disseram, têm pra onde ir, pegaram uma anistia de Natal. Eu não tenho ninguém por mim. Escrevo para colocar uma angustia pra fora. Mas me sinto muito fraco. Quando estou assim, então eu oro, rezo bastante, peço a Deus por mim. Quem sabe, é Natal e nessas datas dizem, milagres acontecem.
 
Querido diário.
 
São quase duas da madrugada. Já estamos no Natal, acho.
 
Escuto barulho no pátio. Parece que alguma coisa brilhante desceu do céu. Mas não parece Papai Noel, porque pobre não tem isso. 
 
Escuto sininhos e canções. As estrelas parecem que vieram sorrir pra mim aqui no pátio escuro, vazio, com cheiro de sangue, suor e lágrimas secas. Estou escrevendo porque estou com medo do que vejo. 
 
É Natal, escuto alguns sinos de igrejas, cânticos e louvores. Estranhamente, surgindo do nada, vejo um jovem alto, com roupas brancas, cabelos longos, com barba, meio que iluminado, que parece caminhar em câmera lenta até mim. Passou pela grade de segurança máxima como se fosse geléia de baunilha. Parece transparente, nem sei como, assustado, continuo escrevendo, se é que sou em quem escreve ainda. 
O tipo sorri o mais belo sorriso que já vi no mundo ingrato. 
 
Estende-me a mão lá de longe mesmo como se um homem de borracha, o homem-aranha do gibi, do desenho animado, mas alguma coisa me toca, me energiza. Reparo que está cercado de criancinhas com asas azuis da cor do céu. Alguma coisa dentro de mim, como se uma voz espiritual pede que vá até ele. Então não é uma visita de Natal. Ele veio me buscar. Vou parar de escrever. Deve ser um bom Jesus Noel dos Pobres que veio me dar alguma felicidade de presente, um picolé de limão, uma maria-mole queimada, uma bala Juquinha... 
 
Sinto que meu peito chia uma luz de arrebatamento, meu coração pega fogo, incendeia de amor, minha alma fica leve e então eu, quando vejo, estou voando... VOANDO com esse anjo maior que deve ser Jesus Cristo dos Pobres, aquele a quem comemoram só nas datas, mas esquecem de fazer o que ele ensinou, o essencial, amor, caridade, perdão, paz. 
 
Acho que estou indo para um lugar celeste, muito longe daqui, onde - pelo que me falaram em pensamento que eu leio de alguma maneira - estão  meu pai um inocente morto pela polícia, até a minha mãe que teria morrido de fome, e para onde irei encontrá-los num novo céu e uma nova terra, numa  ceia de natal com uma verdadeira família celeste, num lugar onde não há lágrimas... nem pobres, nem ricos, nem polícia, nem comércio, nem injustiça... nem medo, solidão, prisões...
 
Pela primeira vez ganhei um presente de Natal na minha vida de pobrinho.  Eu acho que deve ser essa felicidade que sinto, é que é realmente o paraíso, o verdadeiro espírito de Natal.
 
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Silas Corrêa Leite - E-mail: poesilas@terra.com.br
Site Pessoal: www.artistasdeitarare.blogspot.com/

 


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Pravda.Ru Jornal