Resistência ambiental: o jogo continua

Resistência ambiental: o jogo continua

Por Vilmar S.D. Berna*

Discordo radicalmente da ideia de que só por que outros países destruíram suas florestas e seu meio ambiente o Brasil também deva fazer o mesmo. 

Somos um país de megabiodiversidade e com bastante natureza preservada, ainda bem. E deve continuar assim. Devemos ver os maus exemplos dos outros para evitar repetir. E devemos ver seus bons exemplos para aprender com eles.

A quantidade de terras já desmatadas no Brasil e mal usadas, ou a abanonadas, não justifica que o agronegócio, por exemplo, queira ampliar suas fronteiras agrícolas a base de mais desmatamento. Devem, sim, investir em mais tecnologia, mais profissionais, para dar uso adequado aos milhões de hectares de terras disponíveis e abandonadas. Cabe aos Governos atuar de maneira firme para tributar de forma crescente quem deixar suas terras sem produzir, pois prejudica o país. 

A luta ambiental não é uma luta contra alguém, contra governos ou empresas ou agronegócio, mas a favor do meio ambiente, compreendendo meio ambiente não apenas como o direito de plantas e bichos, mas também e principalmente como um direito humano, pois não somos  separados da natureza. 

Enquanto humanos, temos direitos a qualidade de vida, ao emprego, ao progresso, entretanto, nosso direito não exclui os direitos das plantas e dos bichos, dos ecossistemas, e é aqui que os profissionais são fundamentais, para compatibilizar interesses, assegurando um desenvolvimento humano que seja ambientalmente equilibrado, socialmente justo e viável economicamente. Então, só achismo e opinião não bastam, é preciso também estudo e cidadania.

Além de uma questão profissional, trata-se também de uma luta da cidadania, amparada na Constituição. Desrespeitar ao meio ambiente é desrespeitar diretamente a Constituição Brasileira.

Importante que se diga que a ciência  e a tecnologia não são, por princípio, nem um bem nem um mal em si, mas são instrumentos que podem ser bem usados ou não, dependendo de quem as use.

A ciência e a tecnologia devem ser empregadas com critérios, e em respeito a cidadania e aos direitos de todos ao meio ambiente preservado.

Por outro lado, também não somos ingênuos em achar que não existem interesses obscuros nos que 'defendem' o meio ambiente. Ambientalistas são humanos e, como tais, portadores de misérias e também de grandezas. 

Ninguém está acima da lei nem livre de suspeitas. O preço da liberdade é a eterna vigilância, temos certeza. E por isso a democracia é tão importante, pois assegura o direito ao contraditório, a transparência, a livre Informação, possibilitando o diálogo, a negociação de conflitos entre os diferentes. Quem deve brigar são as ideias e não as pessoas.

Nas últimas décadas a sociedade conquistou muitos avanços no campo ambiental, mas esta não é uma obra acabada e naturalmente precisa de aperfeiçoamento. Nossos adversários aproveitarão essas fragilidades para desconstruir os avanços. Assim, tempos difíceis nos aguardam, onde o meio ambiente deverá perder muitas das conquistas da cidadania ambiental nas últimas décadas.

Em momentos assim, alguns desistem, fogem, outros resistem, lutam. O meio ambiente precisa dessa resistência. Como num jogo de futebol, as vezes a gente ganha, as vezes a gente perde, mas o jogo continua.

*Vilmar S.D. Berna é escritor e jornalista. Fundou a REBIA - Rede Brasileira de Informação Ambiental. É editor desde janeiro de 1996 da Revista do Meio Ambiente e do Portal do Meio Ambiente. Em 1999, recebeu no Japão o Prêmio global 500 da ONU para o Meio Ambiente e, em 2003, o Prêmio Verde das Américas.

 


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