O petróleo somos nós!

O petróleo somos nós!

O senador zapeava seu telecinevisor de última geração. Na mão direita, o controle remoto; na esquerda, fino scotch em finíssimo copo de cristal; na bunda, o sofá de couro lustrado de bisão abafando os flatos.

A gente vê com os olhos que Deus nos deu e a terra há de comer,

mas enxerga com a alma que o diabo pode prender.

 

O senador zapeava seu telecinevisor de última geração. Na mão direita, o controle remoto; na esquerda, fino scotch em finíssimo copo de cristal; na bunda, o sofá de couro lustrado de bisão abafando os flatos. Cansado de procurar alguma coisa que valesse a pena assistir, o senador parou de clicar o controle e deixou rolar na tela um comercial da Petrobras, no qual um frentista da BR Distribuidora convida um freguês a conferir a tecnologia da empresa espiando através do duto de abastecimento do tanque de combustível de um carro. O cliente se inclina e olha pelo bocal. Surgem imagens de laboratórios, plataformas offshore, plantas petroquímicas, técnicos e trabalhadores em atividade.

 por Fernando Soares Campos

 

Delirando sob o efeito das doses de scotch e de alguns papelotes que cafungara, o senador saltou bruscamente do sofá e se pôs a ziguezaguear pela sala vociferando colérico:

 

- Isso não existe! A Petrobras está sucateada, quebrada! Não existe mais nada aproveitável por lá! Aliás, não existe mais Petrobras! Os petralhas destruíram a empresa. Será que o novo presidente... é... quer dizer... o inventariante do espólio sabe que estão exibindo essa peça publicitária enganosa?!

 

O fleumático mordomo se aproxima e tenta acalmar o patrão:

 

- Tranquilize-se, Sirrr... Lembre-se do seu colesterol, tenha calma, excelência...

- Calma?! Como posso ficar tranquilo diante de tão ardilosa enganação?!

- Do que vossa excelência está falando?

- Não te interessa, seu pachorrento! Avise ao motorista que vou sair.

- Sim, meu amo, já estou indo...

 

Minutos depois o senador entra na limusine blindada.

 

- Pra onde vamos, excelência? - pergunta o segurança pelo interfone.

- Toca para o posto BR mais próximo.

- Mas eu já abasteci o carro hoje, senhor... - informa o motorista.

- Não te perguntei nada, dei apenas uma ordem!

- Perdão, excelência...

 

Chegando a um posto de bandeira BR, o motorista estaciona ao lado de uma das bombas e, atendendo orientação do senador, manda completar o tanque.

 

Durante o trajeto, o senador havia cafungado mais um papelote e bebericado seu scotch preferido. Sua mente atingiu um pico de devaneio somente experimentado no dia em que, depois de discursar na tribuna do Senado, correu para o banheiro, a pretexto de descarregar a bexiga, entrou por engano na toalete feminina e viu uma mulher mijando em pé e cheirando o conteúdo de uma caixinha de porcelana, tipo porta-rouge.

  

Concluído o abastecimento, o frentista se preparava para colocar a tampa no bocal do tanque, quando o senador saiu do carro e ordenou:

 

- Segura aí, ô da bomba, quero dar uma espiadinha nesse fosso...

 

"?!", "?!", "?!"- pensaram o segurança, o motorista e o frentista.

 

Com o olho colado no bocal do tanque, o senador sentiu a limusine trepidando. Alucinante espetáculo projetou-se em sua mente: gigantesco meteoro se choca contra a Terra provocando catastrófico terremoto de amplitude global e abrindo gigantesca cratera, pela qual manadas de dinossauros vão sendo tragadas! Ele vê terópodes, saurópodes, anquilossauros, estegossauros, ceratopsídeos, ornitópodes, paquicefalossauros, enfim, todas as jurássicas famílias que se pode encontrar na Wikipédia, despencando pelo rombo provocado pelo asteroide na crosta terrestre.

 

Sob efeitos especiais e ao som de uma esplendorosa sinfonia, as alucinogênicas cenas passam a se desenrolar em câmera lenta: as monstruosas criaturas vão se contorcendo e derretendo, como numa surrealista pintura de Salvador Dali, até se transformarem em viscosa substância hidrocarbônica...

 

Súbito, o senador se ergue e urra qual feroz animal jurássico:

 

- Yabadabadoo! - fortes bancada ritmadas na caixa torácica. - Incrível! Fantástico! Extraordinário!

 

O frentista fala para o motorista:

 

- É isso aí, companheiro, o petróleo é nosso, meu!

 

Ao que o alucinado senador rebate:

 

- Nosso?! Te enxerga, protegido do apedeuta e da gerentona! Do petróleo tu só tens a cor! - mais uma sequência de batidas no peito e solta um berro: - O petróleo somos nós!

 


Author`s name
Timothy Bancroft-Hinchey