O que se esconde na sombra da campanha do coronavírus

O que se esconde na sombra da campanha do coronavírus

Toda a narrativa ancorada no coronavírus baseia-se em duas taras que se cruzam para controlar a Humanidade - o capitalismo nesta sua fase neoliberal e genocida; e os propósitos de redução do efetivo de seres humanos. A segunda componente não é muito visível em Portugal mas a primeira teve a sua peça principal no layoff simplificado e no desemprego que se lhe seguirá

0 - Prólogo

Como intérprete das normas globais e neoliberais, António Costa aplicou-as a um país pobre, periférico e politicamente estagnado. E disse:

  

"Ninguém tenha ilusão de que a partir de maio vamos viver como vivíamos"... "mas ninguém tenha a ilusão que a partir de maio vamos  viver como vivíamos até ao mês de fevereiro, porque vamos ter de viver com este vírus até termos vacina e isso não vai acontecer nos próximos meses"

  

·     Já sabíamos. Desta vez foi o coronavírus, como poderia ter sido outra coisa qualquer; excesso ou falta de chuva, um incêndio ou, uma evolução nefasta dos ignotos mercados;

  

·    Talvez o dueto Costa-Marcelo precise explicar porque fecharam infantários, escolas e universidades quando se sabe que as crianças não incubam coronavírus e afins e que os mais jovens passam por ela sem problemas de maior; a própria DG de Saúde vem informando que não há vítimas mortais com menos de 40 anos. E devem explicar qual é o modelo mais inteligente de tratar a crise pandémica - o modelo concentracionário e impositivo em curso ou, o modelo sueco baseado no bom senso de cada pessoa, sem a militarização da vida coletiva.

  

·        Porque desconheceram que com esse fecho, pais ou mães teriam de ficar em casa com as crianças e antecipar as férias ou perder salário; e que ficariam na inatividade educadores de infância, professores e auxiliares?

  

·   Porque pouco se importaram em prejudicar o decurso do ano letivo, com o confinamento para alunos do secundário e superior, sabendo que, mesmo com algum acompanhamento online, terão deficiências na recolha de conhecimentos e, os mais novos, no desenvolvimento da sua sociabilidade?

  

·   Porque consideraram ser saudável manter crianças e jovens confinados em casa, isolados, com avós, pais ou mães, muitos destes readaptados a trabalhar online, num ambiente de clausura para toda a família?

  

·     Mais de 86% dos infetados em Portugal (num total de 25000 em 30/4, e correspondentes a 0.2% da população) estão em casa e não a passear, divertidos, na procura de vírus em vizinhos, colegas e amigos. Assim, o total de infetados "à solta" corresponde a 0.03% da população; isto é, 3500 pessoas, uma por cada quadrado de terra com mais de 5 km de lado! E, não é nada garantido que isso conduza a uma contaminação para os próximos... com ou sem máscara.

  

·      No caso do surto detetado em Ovar, com naturalidade foi declarada, a 17 de março, uma cerca sanitária de um mês, para toda a população; e, pouco depois foi todo o país que entrou em quarentena, incluindo os 80 concelhos onde não se registou caso algum até 30/5. E... quem foram os imbecis que fecharam as escolas nas ilhas do Corvo e Sta. Maria, sem que lá houvesse qualquer caso de covid-19, mesmo vindo a nado?

  

·    Todo este espalhafato mediático e assustador não contemplará uma encenação montada para reestruturar alguns setores da economia, mormente na área do comércio e da restauração? E, proceder à concentração de capital, à cartelização desses negócios? E de justificar despedimentos a preço de saldo, através do layoff simplificado (criado à sombra da crise sanitária) tornados assim mais rápidos e baratos dada a prestimosa contribuição da Segurança Social?

  

·    Este candente tema revela, uma vez mais, a putrefação do regime político, protagonizado por oligarcas incompetentes, ignorantes, vaidosos elementos da ordem dos galiformes; neste caso, com gravata em vez de crista... Infelizmente, não são exclusivo das terras lusitanas; imbecis e safardanas apresentam altas densidades entre as classes políticas...

  

·      Que valia tem para o povo toda a turba de deputados e partidos que se renderam, servilmente, ao plano de Costa e de Marcelus Augustulus, traduzido de um email do Neil Ferguson[1], campeão das falsificações estatísticas? Ao que parece, apenas com a tímida abstenção do PCP;

  

·        E, não é lenitivo saber-se de que há verdadeiros trastes e desequilibrados nas lideranças de países de maior gabarito, porque o modelo global de organização económica e política, de facto, é daqueles proveniente. Como será na próxima epidemia/pandemia, certamente dentro de poucos anos?

  

1 - O regime oligárquico e autoritário em seu esplendor

  

Só os ingénuos duvidariam que algo de muito importante não iria acontecer, com a sucessão de estados de emergência articulados entre o governo e o PR, com preocupações nítidas de confinamento legislativo para o mundo do trabalho e da população não ativa; desta vez, completamente alheados da habitual ladainha do crescimento, da redução do deficit... e da competitividade que, transitoriamente, deixou de ser a grande razão para se ser digno de estar no mundo.

  

Mas, pela voz tonitruante de Costa (ver a sua frase no início deste texto) a coisa ficou oficializada. Todos seremos obrigados a ficar mais ou menos confinados, à espera que a vacina para esta gripe - ainda em preparação e que só surgirá (?), lá para outubro, made in Switzerland, se entretanto não aparecer um competidor mais lesto (em Tubingen? Na China?); que seja imposto por Trump um remdesivir ou, que o coronavírus abandone o terreno, para preparar a próxima mutação. Costa aliás, apenas traduziu a opinião do norte-americano Anthony Fauci, chefe do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (NIAID), muito envolvido nos projetos de Bill Gates para o decrescimento populacional.

  

Para um povo de gente modesta, com pendor para a obediência, o elogio perante a crise pandémica cabe, legitimamente, aos profissionais de saúde, por todas as razões inerentes à sua função, pelos particulares riscos que correm; e que, no caso dos enfermeiros, são pagos a uns 6.2 euros por hora... um pouco menos do que receberiam a trabalhar nas limpezas[2]; e ainda, coletivamente, o aplauso para o SNS, tão maltratado pelos corruptos governos, sempre inclinados para o favorecimento dos grupos privados.

  

Estranhamente, as forças policiais - com uma dimensão relativa em Portugal excessiva[3] para os padrões europeus - tiveram oportunidade de passar mais tempo ao ar livre da primavera, fora do confinamento nas esquadras, onde a regra é nada haver para fazer que não esperar o próximo vencimento. É curiosa, a troca de confinamentos; a população é obrigada a estar em casa, em troca com as polícias que saíram para a rua.

  

Outros apoios poderiam surgir da tropa, como por exemplo, aconteceu em Espanha, na desinfeção de lares; e, como desejado por Marcelo, o sumo pontífice dos militares. Porém, há questões que obstam a que isso aconteça.

  

Uma, quiçá a principal, é a rivalidade corporativa entre militares e polícias, com estas a quererem os louros da operação só para si; por outro lado, a dimensão excessiva dos corpos policiais (já atrás referida) ficaria mais a nu se os militares também entrassem em cena. A dimensão da infeção em Portugal é muito menor do que em Espanha - em termos absolutos e relativos - não havendo oportunidade para  atropelos corporativos no combate ao vírus. Neste contexto, as forças militares terão de ficar à espera de algo mais ponderoso do que a crise do covid-19 que, em termos nacionais continua a não ser, nem galopante, nem com um nível de desastre nacional; e, entretanto Marcelo e os seus generais, esperam, perfilados, que o Pentágono ordene o local de destino para mais uns pelotões lusos.

  

Como achamos importante alguma descontração em tempos de quarentena, referimos um caso caricato acontecido durante uma transferência de idosos de um lar de Vila Real para um hospital militar, no Porto. Isso, porque um polícia havia pedido a identificação a um militar que se apresentara armado (não sabemos se esperava... alvejar algum vírus).

  

É estranho que os confinados, com rendimentos comparativamente baixos e agora encolhidos por despedimentos e layoffs aceitem a situação pacificamente enquanto os grandes patrões confinam os seus lucros onde o vírus dos impostos é menos letal - em offshores. É também estranho que os entes viventes em Portugal agradeçam a quantos são mandatados para vigiar a sua própria clausura, por tempo não determinado, com saídas precárias e vigiadas, ameaçados com multas, coimas e processos de desobediência, pouco reconhecíveis por detrás de máscaras, temerosos de se cruzaram com alguém dos 0.2% da população tocados pelo coronavírus (incluindo, portanto os mortos e os recuperados).

  

Em grande parte, os contaminados são oriundos de depósitos de velhos debilitados, doentes e pobres, com os quais o ditoso Estado tem treinado um "distanciamento social", remetendo para Misericórdias e "empresários" a gestão desses depósitos de velhos. E a que ternamente chamam lares, ornados com nomes de santos ou termos ternurentos que ocultam a triste realidade dos internados, muitos deles já com capacidades mentais muito diminuídas, abandonados, doentes, acamados, prostrados, semimortos. Esses, de facto, cumprem... escrupulosamente o confinamento e, não incorrem em multas!

  

De acordo com a OMS, é nos ditos lares de idosos que se regista cerca de metade dos mortos com covid-19! Em Portugal, essa proporção reduz-se para 40.9%, de acordo com afirmação de Graça Freitas no dia 23/4 (327 óbitos nesses locais). Uma sociedade que não trata bem os seus "mais velhos", como se diz em África, aproxima-se de ser um vasto grupo de trogloditas. Esta crise sanitária vem revelar que, no seu afã consumista e produtivista, as sociedades animadas pelo espírito capitalista, na sua pior versão, neoliberal, praticam de modo dulcificado o que os nazis faziam a doentes mentais ou membros de "raças" inferiores - um extermínio planificado.

  

Outro grupo de socialmente diminuídos e até discriminados é o de mais de uma centena de imigrantes contaminados, amontoados em Lisboa num "hostel" (com 4 ou 5 a viver em cada quarto) mesmo que a situação já tivesse sido reportada às "autoridades competentes".  Migrantes, pobres e islâmicos, recordam-nos que o racismo teve o seu despontar na Península Ibérica, no final do século XVI.

  

2 - A vida dos confinados

  

Para os trabalhadores com piores salários houve e há dois destinos - desemprego e layoff (simplificado, em contraste com a típica e pesada burocracia) - sobretudo, se trabalhavam em restaurantes e áreas turísticas, fazendo o desemprego aumentar 40% no Algarve, de acordo com o IEFP (dados de março). E, nos locais onde a necessidade de exercer atividade era essencial para a sobrevivência do negócio e do emprego, lá estava a polícia para aplicar penalizações e encerrar o espaço, cega às consequências económicas... como se houvesse coronavírus em cada esquina. Perante as conhecidas fragilidades financeiras das empresas portuguesas, a situação poderá ir bem além, com desemprego subsequente a encerramentos e falências, numa espiral que não se sabe onde vai parar.  Para o total do país, a variação do desemprego face a março do ano passado foi apenas de 3%; veremos o que acontecerá nos próximos meses...

  

Num inquérito recente da Deco realizado em março e, certamente, com conclusões já alteradas pela rápida evolução das variáveis essenciais, sobressaem estes elementos:

  

·         Trabalhadores temporariamente inativos - 30%

·         Com horário reduzido - 19%

·         Com perda de emprego - 9%

·         Com teletrabalho total (30%) e parcial (19%)

·         Mal-estar psicológico com o confinamento - 60%

·         O desemprego atinge mais as mulheres (13%) do que os homens (4%)

  

Por seu turno, o Banco de Portugal, na semana de 20/24 de abril revelou que 80% das empresas reduziram o volume de negócios e 59% diminuíram o efetivo de pessoal. No capitulo da redução da faturação em mais de 50%, situavam-se 39% das empresas e, 26% destas haviam reduzido em mais de 50% o volume de pessoal. O layoff simplificado terá atingido 54% das empresas. Sabe-se também que até ao início de abril, foram aprovados 62431 processos de layoff, envolvendo 38465 empresas (área do alojamento e restauração, 26% e comércio 22%) e 359000 trabalhadores; daí que perto de metade sejam empresas com 10 trabalhadores, em média. O valor médio de cada compensação paga pela Segurança Social é de... € 421.8! Um pequeno totoloto...

  

Perante esta situação, um minúsculo superavit orçamental - como era norma na contabilidade criativa de Salazar - e com que Centeno pretendeu adornar a sua imagem de mago das finanças, nada significa; Centeno passou de brilhante a baço e foi largamente engolido pela sombra do coronavírus... como também pelo protagonismo do Siza Vieira.

  

A criatividade também não falta nas catedrais da finança - o FMI aponta para uma queda de 8% do PIB em Portugal e a Moody's 4% (o que faz lembrar a quebra verificada em 2012, de 4.4%); e daí ressaltam sinais para os ditos "investidores" que compram dívida pública para, em troca, terem dinheiro fresco do BCE. Tudo indica que o volume da divida pública portuguesa, relativamente constante em termos de percentagem do PIB nos últimos anos[4], vá disparar para valores pouco auspiciosos; que as agências de rating não deixarão de adornar com subidas das taxas de juro. Ficando por se saber se será possível suportar uma dívida maior; mas sabendo-se que camadas sociais serão as sacrificadas.

  

Os bancos, simpaticamente, permitem que as famílias (não sabemos que requisitos estas têm de apresentar) possam adiar as prestações de empréstimos para habitação por seis meses; mostram uma face benévola porque sabem não incorrerem em qualquer risco, uma vez que têm hipoteca sobre a morada dos devedores; e por isso a banca não teve problemas em aceitar 250000 moratórias.

  

Da experiência de variadas proibições, inibições e obrigações, mais ou menos ainda em curso, virão como custos faturados através da carga fiscal, diretamente ou, através do aumento da dívida pública; mesmo que ocorra alguma facilidade proveniente de uma menor desigualdade entre os estados-membros da UE.

  

É evidente a criação duma psicologia de medo, associada ao confinamento. As casas tornaram-se verdadeiras prisões, com os seus moradores incomodados e irritáveis, com as crianças mais pequenas sem contacto com os seus amigos de escola ou de brincadeiras; com o aviso de que lá fora andam polícias à solta a impor o encarceramento (re)definido a toda a hora; com a frenética enxurrada de informações inúteis, repetidas para encher os tempos de emissão. Isso, sem prejuízo do trabalho de informação levado a cabo, particularmente pela Graça Freitas ou na página da DGS; e isso, embora em janeiro ela tivesse dado a cara afirmando que não havia razão para alarme... 

  

Doses adicionais de écran não evitam que os confinados se sintam menos prisioneiros, quando veem as polícias passarem pelas ruas desertas a verificar o cumprimento das ordens governamentais, incomodando, por qualquer motivo - ou mesmo sem motivo - quem ande pela rua... sem passear o cão. Nunca no planeta houve espaços tão alargados como prisões, tal número de prisioneiros ou de carcereiros; é a desumanização neoliberal em todo o seu esplendor.

  

Por outro lado, a frenética necessidade de Marcelo em aparecer - no écran, sobretudo mas, também numa plantação de tomates[5] - adequa-se à postura de Costa como o pivot da pátria, que traz a oposição pela trela e açaimada, sequer capaz de contrariar um estado de emergência, capa para uma reestruturação do tecido económico, para um aumento da "produtividade", com a eliminação do trabalho para perto de um milhão de pessoas, entre os quais, as mulheres serão as mais afetadas; e, reduzindo os sindicatos a simples powerpoints que adornam uma (des)consertação social.

Ler o original e na íntegra

 

 

https://grazia-tanta.blogspot.com/2020/05/o-que-se-esconde-na-sombra-da-campanha.html

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Author`s name
Timothy Bancroft-Hinchey