Crimes supremos

Crimes supremos passados a limpo

 

Adilson Roberto Gonçalves

 

            Em artigo anterior no Jornal Pravda, usei um comentário enviado à revista “piauí” e não publicado lá (“Peixes miúdos e graúdos”, 9/8/2022, https://port.pravda.ru/sociedade/55875-peixes_piaui/). Com a intenção de ocupar todos os espaços que são franqueados, repito essa estratégia, com assunto distinto.

            É revelador que parte do embasamento da ação criminosa proporcionada pelo ex-procurador Deltan Dallagnol tenha origem ou lastro na religião, como bem demonstraram João Batista Jr. e a equipe de jornalistas que se debruçaram sobre quase um milhão de mensagens para compor a matéria “O Messiânico” na revista “piauí”, edição 210, de março/2024. Não por menos, outros usurpadores do poder estão usando o nome de deuses e correlatos com sucesso. O título foi muito feliz, ao contrário das consequências daqueles atos de vaidade à flor da pele de todos os envolvidos em conluio entre si e com o juiz do caso. Um explícito boicote ao próprio sistema Judiciário brasileiro. A completar que a mencionada participação de Deltan Dallagnol no Programa do Jô foi constrangedora. Ele fez questão de perguntar à plateia se a Lava Jato iria mudar o país e a resposta, pelas mãos levantadas, foi de um expressivo e quase unânime não!

            No mesmo diapasão da questão religiosa, Ruy Castro, em sua coluna na Folha de S. Paulo, mais uma vez, foi preciso e necessário em seus achados sobre Nelson Rodrigues (“O maior país ex-católico”, 25/4). Acreditávamos que ser católico era símbolo do atraso. Mal sabíamos o que seria a teologia da prosperidade de um forte grupo evangélico. Prosperidade dos pastores, que fique bem claro!

            Voltando àquela “piauí”, Allan de Abreu, por sua vez, abriu outra caixa preta institucional na matéria “Um poder político extraordinário” ao discorrer sobre as relações de magistrados do STF com fundações e universidades. As supremas relações da Fundação Getúlio Vargas (FGV) também corroem os princípios jurídicos, mas, ao contrário do que aconteceu com a Lava Jato, o silêncio impera. A despeito da seriedade que ainda suponho ser prevalente na instituição, cabe mencionar, da mesma forma que fazem em reportagens que envolvem empresas e entidades ligadas ao fundador da revista e sua família, que um dos membros do Conselho Editorial da “piauí” é também professor da FGV – Thiago Amparo. Talvez por isso não tenham publicado a minha carta, como costumeiramente fazem. Espero que o resultado do concurso que ainda estou prestando, organizado pela FGV, não seja influenciado por este inocente comentário (glup!). Mesmo havendo contestações,  há que se considerar que no concurso para Consultor Legislativo da Câmara Federal, ocorrido simultaneamente ao de Analista, a banca da FGV se recusou a reconhecer erros crassos nas questões objetivas. Um deles é classificar celulose como material amiláceo, o equivalente a chamar a lua de planeta. Mas o recurso é letra morta e a resposta se limita a reproduzir a questão e o erro.

 

 

Adilson Roberto Gonçalves, pesquisador da Unesp, membro da Academia Campineira de Letras e Artes, da Academia de Letras de Lorena, do Instituto de Estudos Valeparaibanos e do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Campinas