"V de Varoufakis" ou: Os destinos da Grécia estão nas mãos de Angela Merkel?

20/2/2015, Shawn Tully, Fortune http://fortune.com/2015/02/20/greece-germany-yanis-varoufakis/ (só para assinantes).www.sinpermiso.info traduziu trechos ao espanhol.

A matéria abaixo é traduzida de http://www.rebelion.org/noticia.php?id=195807 ao português) 

Um dos mais afamados economistas vivos, estreitamente ligado ao ministro grego de finanças Yanis Varoufakis, diz que o obstáculo fundamental que atravessava o caminho do acerto-compromisso foi a incrível divisão registrada dentro do próprio governo alemão, com uma parte a exigir total adesão da Grécia aos compromissos prévios, e outra parte, também muito poderosa, que defendia concessões e acordo.

"Tudo depende de Merkel" - diz-nos James Galbraith,[1] que passou sete dias em meados de fevereiro ao lado de Varoufakis em Bruxelas e em Atenas.

"Ouvimos o ministro de finanças de Merkel, com atitude negativa; e ouvimos o vice-chanceler, que queria o diálogo. Só não ouvimos a própria chanceler Merkel. Sabemos que não quer falar, só se for estritamente imprescindível. São os mais duros que podem ser, depois fazem uma concessão no último minuto, para não ter de fazer duas".

Galbraith resume numa pergunta o dilema de Merkel (e a melhor esperança de que cheguem a um acordo): "Que interesse terá Merkel em converter-se na governante que presidiu a desintegração da eurozona?"

Difícil imaginar dupla mais díspar que essa, Galbraith e Varoufakis. O primeiro é filho - educado em Harvard, Yale e Cambridge - do legendário economista John Kenneth Galbraith. Varoufakis é agitador incendiário, que veste jaquetas de couro e camisetas azul-brilhantes nas reuniões com as engravatadas elites europeias, e para relaxar pilota motocicletas de alta cilindragem. 

Apesar das diferenças, e colegas na Universidad de Texas em Austin, não apenas travaram profunda amizade pessoal, mas, também, tornaram-se almas intelectualmente gêmeas, e produziram juntos , em 2013, em trio com o economista britânico Stuart Holland - um opúsculo sobre a solução da crise na eurozona, no qual advogam a substituição de boa parte da dívida soberana das nações com problemas, por bônus de baixo rendimento supergarantidos pelo Banco Central Europeu. [Há tradução ao espanhol, em SinPermiso: "Modesta Proposición".

É claro que as ideias de Galbraith ajudaram a modelar a controvertida campanha de Varoufakis para "pôr fim" à austeridade [arrocho] na Grécia e proteger os empregos públicos e as pensões dos gregos.

Trabalhando esses dias ombro a ombro com Varoufakis, Galbraith está tendo a chance de ver "por dentro" o manejamento caótico do Eurogrupo, que reuniu os ministros europeus de finanças, dia 16/2/2015, em Bruxelas:


"Estive com as equipes técnicas entre os dias 11 e 17 de fevereiro, incluída a reunião de Bruxelas. Estava na sala das máquinas, acompanhando a equipe de trabalho grega."


Na reunião do Eurogrupo, Pierre Moscovici, comissário da UE para assuntos econômicos e financeiros, apresentou a Varoufakis um rascunho de comunicado que permitia à Grécia solicitar uma extensão de seu acordo de empréstimo, garantindo-lhe tempo para discutir um novo plano de crescimento para a Grécia. Como Varoufakis disse à imprensa logo depois da reunião, estava pronto para assinar o comunicado de Moscovici, que elogiou como "documento esplêndido" e "verdadeiro ponto de abertura".

Mas o diretor do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, estava preparando seu próprio documento:


"Yanis disse: 'Tenho um texto'. 
E Dijesselbloem disse: 'Não. O texto é esse' [outro]."


Galbraith e a equipe grega trataram então de combinar partes dos dois rascunhos, para produzir um documento aceitável para ambas as partes:


"Dediquei-me então, com as outras pessoas, a combinar os dois rascunhos [o de Moscovici e o de Dijeselbloem] tentando chegar a um texto que pudesse ser assinado. Não demoramos nisso mais que meia hora."


Mas então, segundo o testemunho de Galbraith, o ministro alemão de finanças Wolfgang Schäuble, deu a reunião por encerrada. "Disse 'não' à elaboração de uma declaração conjunta como prelúdio de um acordo" - no depoimento de Galbraith.

Para Galbraith, a falta de coordenação entre os europeus parecia absolutamente inacreditável:


"Sou veterano conhecedor dos assessores especialistas que trabalham no Congresso dos EUA. E ver um corpo institucional oficial trabalhando com tamanho descaso, com tamanha incompetência, de forma imediatista, tão ad hoc, assistir ao vivo ao Eurogrupo, ver aquela forma atrabiliária de fazer as coisas, foi para mim uma verdadeira revelação."


Dia 18 de fevereiro, Varoufakis apresentou solicitação formal para que fosse prorrogado o acordo de empréstimo como o Eurogrupo. Mais uma vez, as respostas divergentes deixaram Galbraith assombrado:


"Jean-Claude Juncker [presidente da Comissão Europeia] disse seria um ponto de partida". O vice-chanceler alemão Sigmar Gabriel, também disse que a carta sobre a prorrogação do empréstimo seria um ponto de partida. Mas Schäuble desmentiu o vice-chanceler. Disse que a posição de Gabriel, de defender a prorrogação, seria "posição sem substância".

"Fiquei boquiaberto, de olhos arregalados" - dize Galbraith. - "E o desmando acontecendo ali, à minha frente, dentro do governo alemão, o governo mais poderoso da Europa!"


Para Galbraith, as divisões internas na Alemanha, e entre as próprias nações, deixaram bem evidente que os dirigentes europeus são maus negociadores:


"Cometeram o erro de deixar claro diante de Yanis que eles estavam jogando com extrema violência, mas sem saber jogar, se se considera a coisa do pondo de vista da perícia política mais elementar."


Galbraith rechaça enfaticamente a ideia de que a posição grega fosse confusa:


"Acho que os europeus querem fazer crer que seja confusa, mas a confusão só existe na cabeça deles mesmos, não na posição dos gregos."


Para Varoufakis e Galbraith, a politicagem mesquinha comprometeu até a sensatez econômica:


"Os atores institucionais - o FMI, a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu - foram construtivos. Mas os credores, os jogadores ativos, são os ministros de finanças; e esses estão divididos e são hostis."


No campo dos que se opunham radicalmente incluem-se Espanha, Portugal e Finlândia:


"Os dirigentes políticos nesses países enfrentam processos eleitorais e oposição crescente. Estão apavorados com a possibilidade de que as respectivas oposições políticas tirem vantagem da posição grega."


Para esses, o importante é a sobrevivência política em seus cargos, muito mais que salvarem a Eurozona.

Para romper o impasse será preciso, muito provavelmente, a intervenção de Angela Merkel, único dirigente político suficientemente poderoso para esvaziar essas manobras da política mais rasteira.

Em toda essa terrível confusão, a admiração que Galbraith sente por seu amigo Varoufakis só faz aumentar. Quando muitos dizem que as roupas heterodoxas e declarações provocativas de Varoufakis - quando observou, por exemplo, que o acordo das reformas à moda europeia era semelhante à tortura de simulação de afogamento - atraem cada vez mais a hostilidade do establishment financeiro europeu, Galbraith diz, na direção oposta, que os ministros das finanças europeus deviam dar as boas vindas ao ministro grego, como alguém que diz sempre a verdade, nada além da verdade:


"A honradez intelectual, a clareza de pensamento, sua erudição, são absolutamente raras, nos círculos europeus. Acho que quando aquela gente o vê pela primeira vez, ou o ouve falar, sentem alguma espécie de choque."


Galbraith lembra, como exemplo da honradez intelectual de Varoufakis, uma observação do amigo, segundo a qual dentre todos com quem estava negociando, Schäuble, o seu mais duro antagonista, "é o único que dá sinais de ter alguma substância intelectual".


Muito diferente do que em Bruxelas, Galbraith encontrou em Atenas um ambiente exultante:


"Há de três a seis meses, Atenas era absolutamente deprimente. Agora tudo mudou, o sentimento de orgulho está restaurado e o humor mudou completamente."


Varoufakis parece ser quem melhor simboliza esse novo otimismo:


"Fomos a pé, do Ministério até o Parlamento. Que experiência! Pessoas nos carros abriam o vidro para estender-lhe a mão e cumprimenta-lo, os motoristas de ônibus paravam para saudá-lo. Por onde anda as crianças o cercam."


Varoufakis deteve-se no caminho, para falar atentamente, apoiando-a pelo cotovelo, com uma senhora que procurava emprego como varredora:


"Varoufakis é estrela tão popular quanto o próprio Alexis Tsipras."


Varoufakis conseguirá manter a Grécia no euro, mas ao preço de ceder no programa de crescimento que levou ao poder esse governo de esquerda? Para Galbraith,


"É impossível. Varoufakis está montado em sua super motocicleta e é bom piloto. Aceitou o cargo porque o que mais quer é pôr suas ideias em prática."


Os ministros europeus de finanças nunca conheceram nada igual a Varoufakis. E Merkel terá de decidir se a melhor opção para ela é realmente aceitar compromissos com alguém tão radical e transgressor. Mas em todos os casos, está em jogo o futuro do euro. ******

 


[1] James K. Galbraith é professor da Lyndon B. Johnson School of Public Affairs de la Universidad de Texas (Austin). Dentre seus últimos livros, Inequality and Instability: A Study of the World Economy Just Before the Great Crisis (2012) eThe End of Normal: The Great Crisis and the Future of Growth (2014). É coautor, com Yanis Varoufakis e Stuart Holland, daModesta Proposición para o fim da crise na eurozona (2013).

 


Author`s name
Timothy Bancroft-Hinchey