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Pablo Vierci: 36 anos escrevendo o livro da tragédia dos Andes

14.12.2008
 
Pages: 1234

Na minha opinião, isso aí acaba mostrando o queé a «Sociedad de la nieve»: O convívio da vida e da morte nessa pequena porção da fuselagem, só alguns metros quadrados, que no início compartilham 27 vivos, logo 19 e acabaram 16, se roçam e não existindo confrontos, fazem mudar o sentimento do leitor, acaba dando uma de «dobradiça» aprofundando as perguntas sob o essência de todos nós.

Esta é uma das respostas para este fato, 36 anos depois, que é um grande imã no mundo inteiro, seja qual for o grau cultural, fazendo um corte transversal entre diferentes gerações.

Nesta «parceria com a neve» reflete-se que na hora que o homem fica perdido, isolado, não surge o bafo da besta selvagem senão o oposto, o homem terno e digno.

P: Por quê decidiu escrever o livro agora, sua maturidade na faixa dos vinte foi uma barreira para concretizar essa tarefa naquela época?

V: Eu e inúmeras pessoas da minha faixa de idade, que é a mesma do Nando Parrado, faz muitos anos que tínhamos uma dúvida. Quando todos eles vão falar da história, vestidos de «eu» tendo a perspectiva do tempo passado, querendo saber o que aconteceu fora das anedotas? No meu caso, essa dúvida da hora na qual poderíamos narrar o assunto, o instante preciso, convive comigo faz muitos decênios. Meu sentimento foi sempre que a esse tal instante ainda não tinha chegue pois cada um dos membros dessa turma amiga tinha seu próprio «timing». Este segundo livro no qual fazem parte os dezesseis teriam que participar todos. Tenho certeza que um fato deste tamanho assim não pode ser narrado, nem sequer compreender todas as visões apenas algum tempo depois de ter acontecido. Não tem jeito, é preciso deixar acontecer na cabeça de cada um deles sem fazer esforço. Também sabia que não poderia esperar muito tempo pois eu poderia morrer e até os próprios destaques.

Faz muito tempo que faço essa pergunta. Quando? Faz quatro anos que acho fiquei bem mais perto dessa tal resposta na hora que acabei escrevendo, sob pedido da Diretoria do Stella Maris, o livro do primeiro meio século do Colégio, percebendo que o Capítulo dos Andes e marcante e divide o livro antes e depois desse fato. Participamos do lançamento do livro, a grande maioria dos sobreviventes e eu, tendo sediado o evento, no mesmo ginásio esportivo no qual aconteceu aquele primeiro encontro deles com amigos e parentes depois do acidente, o dia 28 de Dezembro de 1972.

Foi nesse instante que fiquei extremamente perto da dúvida que andou sempre de manos dadas comigo, pois eu posicionado como leitor, tinha a urgência de progredir nesse enigma e também tinha certeza que todos aqueles que tiveram interesse nesta história, seja qual for seu lugar no mundo, também ficavam no aguardo da resposta. E no final, o instante chegou, todos nós combinamos e acabou nascendo a «Parceria com a neve», livro que foi montado no decorrer de 36 anos.

P: O lançamento do livro aconteceu pois os dezesseis confirmaram que todos eles iam participar com comentários próprios daquilo que aconteceu?

V: Foi desse jeito assim. Achei sempre que este segundo livro que ia falar por fora dos fatos, teria que ser narrado pelo próprio punho dos dezesseis. Só dessa forma poderia compreender-se e inserir ao leitor nessa «parceria com a neve».

Um outro item fundamental para mim foi viajar até o lugar do acidente, e ficar aí. Trata-se de um lugar incrível e mesmo que gera terror, a cada instante. Acabei concretizando esse alvo em Março de 2006 junto com mais quatro sobreviventes.

P: Como ocorreu seu dia-a-dia em Montevidéu no decorrer daqueles 72 dias?

V: Fui parte daquele ambiente dos mais próximos dos desaparecidos dos Andes. Acho que vários amigos desse ambiente participamos de inúmeras conversas tendo como alvo o acidente e todos nós concordamos que houve uma fratura á partir desse fato. Eu tinha completado 22 anos e num piscar de olhos soube que aquilo que era verdade e sólido, não era assim nem por acaso. Que aqueles que na juventude achei não iam morrer jamais, infelizmente também tinha como destino o cemitério.

Soube de forma cruel e impossível de imaginar, que as certezas moravam muito longe de nós.

P: O que fica naquele ponto da batida do avião? Hoje é parte de um Roteiro Turístico? Qual foi seu palpite na hora de alcançar o alvo?

V: A grande maioria dos que atingem aquele alvo em busca de uma resposta possível, logo de dois dias escalando a montanha «pilotando» um cavalo, não permanecem á noite lá, aliás, voltam para o ponto conhecido como «El Barroso» descendo mil metros, porque no Vale das Lágrimas, que é o lugar preciso, no epicentro da Cordilheira, no lugar exato no qual o avião acabou caindo, nem sequer os eqüinos conseguem ficar pois ficam congelados. O sentimento que exprime ficar três dias lá nesse lugar é que o impossível e o possível perdem realidade. Aí tudo é impossível, é impossível respirar, caminhar, imaginar como conseguir ultrapassar aquela parede imensa que parece ficar aparafusada e que impede olhar o Oeste. Até que um dia descobre que aí, no Vale das Lágrimas, o possível e o impossível perderam a divisa e só pode falar naquilo que é impossível.

P: Tendo viajando até o lugar do acidente com muitos riscos na percorrida, como avalia essa força do Nando Parrado, Roberto Canessa e no início Antonio Vizintín?

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