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Norte-americanos perdem, duopólio vence

10.11.2020
 
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Norte-americanos perdem, duopólio vence

e o Trumpismo não é culto à personalidade (2/2) 
6/11/2020, Ramin Mazaheri,[1] The Vineyard of the Saker e PressTV, Irã


Ver também

Norte-americanos perdem, duopólio vence e
o Trumpismo não é culto à personalidade (1/2)
6/11/2020, Ramin Mazaheri, The Vineyard of the Saker e PressTV (em tradução)
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"A extrema direita dos Democratas (os Clintonistas) perderam praticamente tudo, mas derrotaram Trump. - Agora podem cacarejar essa vitória até o fim dos tempos, dado que o controle que o duopólio exerce sobre a mídia comercial nos EUA não sofreu qualquer abalo."
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Para norte-americanos que creem que seu sistema seja realmente capaz de se autorreformar, seria ótimo se o Trumpismo fosse mero culto à personalidade. Mas os resultados da eleição não-presidencial provam que há aí muito mais que isso. Acho que não norte-americanos conseguem ver o que realmente se passa, mesmo que os norte-americanos não vejam, efeito de campanha arrasadora e efetiva de propaganda conduzida por uma elite profundamente corrupta em Washington e seus asseclas na elite 'midiática'.

O parágrafo acima dá testemunho de meu esforço para resumir a verdadeira motivação de cerca de 50% da população dos EUA: Trump foi eleito porque falou, não a supremacistas brancos que se sentem perdidos num novo mundo no qual são (depreciativamente implícito) estúpidos demais para competir e vencer.

Trump foi eleito porque falou a todos quantos se sentem descartados por imprestáveis e desatendidos pelas decisões da elite política e cultural ao longo dos últimos 30 anos.

Há enorme, gigantesco problema nacional quando sentimento desse tipo empurra metade da nação para as urnas eleitorais, não?! Pior, se sai derrotada. Pior, se continuar a ser ignorada.

O maior problema é algo de que a PressTV tentou mostrar em nossa cobertura da eleição, desde o início: a resistência, pelo duopólio mais velho e mais forte do mundo, contra qualquer modalidade de terceiro partido; a absoluta proibição contra quaisquer vozes alternativas que tentem fazer-se ouvir; e que, muito menos, conseguem acumular qualquer poder político ou cultural.

O duopólio jamais aceitará a única reforma que conseguiria reformar para melhor a cultura política norte-americana: pôr fim àquele feroz sistema de divisão, em que o vencedor leva tudo. Muito mais que o Colégio Eleitoral, isso explica a divisão e animosidade intensa nos EUA.

A ideia de que o duopólio tipo "só um ou outro" tem (teria) chances reais significa que cerca de 50% dos norte-americanos logo sentirão que o voto deles valeu nada... No que acertarão em cheio. Mas mudar-se para sistema de tipo "coalizão" implicaria redução imediata no poder e nos privilégios do duopólio, motivo pelo qual o duopólio encena tão desavergonhadamente tantos obstáculos para impedir que surjam outros partidos; esses obstáculos criam o sistema eleitoral dos EUA, que não é nem livre nem justo.

A "Democracia com características norte-americanas" no século 21 significa duopólio perpétuo, no qual os cidadãos, para votar, andam por ruas desertas de civis e ocupadas por forças de segurança, como se estivessem indo à guerra, não às cabines eleitorais, para votar como pessoa normal.

Porque fato é que Trump, sim, ameaçou o duopólio. E por isso os dois partidos e seus 1% de aliados absolutamente piraram em 2016 e passaram quatro anos atirando contra Trump tudo que encontrassem à mão, para despachá-lo fosse como fosse. No plano cultural, o custo desse enlouquecimento bipartidário foi descomunal.

Trump uniu-se ao monopólio e usou-o.
O Trumpismo resiste inerentemente


Na primeira parte desse artigo  expus a ideologia básica do Trumpismo. Recapitulemos: não só suprematismo branco, mas também ativo antiglobalismo; pró-soberania nacional, contra qualquer censura e contra guerras no exterior, mas também histericamente contra o Estado e qualquer rede de proteção social para os cidadãos.

Contudo, gastou-se pouco tempo na discussão dessa questão, e muito mais tempo discutindo o 'fato' de que a "Onda Azul", como dizia a mídia comercial, seria total fracasso. "Onda Azul" é como os conservadores norte-americanos desqualificavam a Ofensiva do Tet (1968). Trump, o homem, parecia a caminho da derrota, mas o Trumpismo ajudou os chamados novos "Republicanos Trumpistas" a chegar ao comando.

Podem chamar de "Fenômeno da Lombriga": os Democratas podem até cortar a cabeça, mas o corpo continua vivo, como se vê pelos resultados das urnas.

A mãe natureza é cientista louca, mas percebe que estamos examinando um fenômeno muito real e verificável no mundo do mais efetivo duopólio: o que se viu essa semana é que o Pântano Republicano absorveu tão efetivamente o golpe do Trumpismo, que bem poderia haver ali, agora, matéria suficiente para um novo terceiro partido.

Com esse terceiro partido, a elite e o establishment Republicano poderiam eventualmente diluir e suavizar o "Trumpismo", sem ter de temer os efeitos talvez revolucionários de um real recomeço para os EUA. Eis como o duopólio pode ser extremamente efetivo, quando enfrenta movimento de base. No duopólio que há hoje nos EUA, só o 1% mais rico vence, com zero vitórias para as bases.

O lado Republicano do duopólio já fez isso com o "Tea Party", que floresceu depois da Grande Recessão. Os Republicanos há muito tempo cooptaram as ideias dos libertaristas[2], ao mesmo tempo em que mantêm o partido libertarista perpetuamente abaixo de 5% dos votos. Mas nunca, nem por um segundo, aqueles libertaristas alcançaram o amplo apelo que Donald Trump alcançou.

Por outro lado, aquela absorção permite que o outro lado do duopólio não sofra qualquer abalo, quando o duopólio chegar ao fim.

Derrota de Trump na presidência significará que a facção Clintonista (a extrema direita) do Partido Democrata - no poder desde 1992, fim da União Soviética - encontrou cobertura para prosseguir, sem ter de mudar coisa alguma.

A extrema direita dos Democratas (os Clintonistas) perderam praticamente tudo, mas derrotaram Trump. - Agora podem cacarejar essa vitória até o fim dos tempos, dado que o controle que o duopólio exerce sobre a mídia comercial nos EUA não sofreu qualquer abalo.

Assim sendo, a principal significação da derrota de Trump, o homem, é a vitória do duopólio. Pessoalmente, não vejo coisa alguma que se deva comemorar, em alguma "vitória do duopólio".

Acho que os Trumpistas talvez não exponham essas específicas ideias com muita frequência. Não sei se as aceitarão. Contudo, até as forças pró-Trump são nominalmente forças pró-duopólio, em seu conservadorismo essencial.

O Trumpismo não é revolucionário - nem estou dizendo que seja. Estou dizendo que é fundamentalmente antiduopólio (sem nem saber que é, porque "duopólio" é palavra que só muito raramente se ouve por aí), porque o Trumpismo é aplicadamente contra a corrupção que reina no Pântano de Washington.

Claro que Trump em pessoa não é Lênin: não tem nem a capacidade intelectual nem o rigor ideológico para formar um novo partido. Trump, o homem, só tem uma ideologia: "Sou o melhor". Mas isso não implica que seus seguidores sejam todos perfeitos Narcisos. Essa é outra das razões pelas quais não emergiu um terceiro partido trumpista, para deter a guerra de destruição total que o duopólio moveu contra o líder deles, líder carismático e essencialmente apolítico.

Trump mudou de partido cinco vezes. No mínimo, encaixa-se em outra categoria de eleitores norte-americanos que o duopólio também suprimiu: o eleitor independente.

É preciso lembrar que a metade Republicana do duopólio resistiu contra Trump até o último momento: só em maio de 2016, quando foi votado nas primárias Republicanas de base, o establishment Republicano finalmente o aceitou. Mas só a elite do partido.

As muitas vitórias dos "Republicanos Trumpistas" em todo o país em 2020 provam que o Trumpismo venceu, apesar e contra uma mobilização sem precedentes, quatro anos ininterruptos de ataques massivos pelas forças do 1% e do Partido Democrata.

Trump poderia derrubar o duopólio, mas não em um único mandato

Trump poderia ter derrubado o duopólio em 2016, mas o que mais tenho ouvido de Trumpistas é que "Não o deixaram drenar o pântano". E é bem verdade: do verdadeiro cerco imediato ao Departamento de Justiça (derrubaram todas as denúncias originais), ao primeiro Conselheiro de Segurança Nacional de Trump, Michael Flynn, até um "Relatório Mueller" que sequer denunciou (e de condenar, então, nem se fala) uma única pessoa por crime de conspiração para interferir em eleições ou colusão, a uma campanha russofóbica incansável, durante três anos; e a uma campanha pró-impeachment absolutamente partidarizada. Trump passou quatro anos contido e enredado em nonsense.

Claro que Trump também foi contido e enredado pelo próprio nonsense: o desejo de ser amado por todos, o que incluía querer o amor do duopólio que o odeia. E a falta de qualquer ideologia verdadeiramente política, além do narcisismo. Por isso Trump sempre foi mero testa-de-ferro. Se Trump conseguir um segundo mandato, a esperança que se alastrou pelos EUA e além dos EUA é que finalmente ignore os esforços do duopólio e finalmente faça algo que rompa com 30 anos de corrupção anti-99% em Washington.

Mas em 2016, apesar de seu inegável imenso apelo, o duopólio norte-americano era tão forte que Trump simplesmente não teria conseguido eleger-se sem se unir a um dos lados. E Trump usou o duopólio e, sim, transformou significativamente os dois lados. A elite Republicana o odiou todos os dias, sem parar, depois passou a tolerá-lo, não mais que isso. Mas Trump alcançou surpreendente alto apoio entre a massa dos eleitores Republicanos. Esses, dizem hoje que o Trumpismo mudou as bases populares do Partido Republicano.

A visão de curto prazo dos EUA futuros devem incluir essa nova realidade, sem esquecer de considerar que em 2020 os Democratas só por um triz não fracassaram totalmente - o que os obriga, daqui em diante, a ter de trabalhar a favor das muito necessárias melhorias na rede de seguridade social, atenção à saúde da população, meio ambiente etc. etc. etc. Ou os Democratas darão mais um passo rumo à direita mais trevosa.

Como já escrevi, o anti-Trumpismo doentio do duopólio custou muito caro a 99% desse país, infelizmente.

Não escrevo a favor do Trumpismo, nem condeno os Trumpistas. Tento aqui fazer coisa já bem rara: jornalismo objetivo sobre os EUA em novembro de 2020. O Trumpismo, como os Gillets Jaunes, foi massacrado e distorcido, porque refletiu o pensamento do chamado "Lixo Branco". Mas a análise de classe insiste em que não são lixo. E a boa reportagem dos resultados da eleição prova que análises racistas são horrivelmente inadequadas e não dão conta dos problemas (como sempre).

Desgostem o quanto queiram, mas o Trumpismo é movimento obviamente genuíno, autêntico, e 2020 confirma que foi até muito bem-sucedido.

Mas deve-se constatar que o pântano do duopólio fez o que sempre faz: engoliu, diluiu e escarrou em jatos qualquer ideia que pudesse gerar reformas verdadeiras, nesse antiquado, conservador do século 18, aristocrático, zelador de privilégios, evangélico histérico, capitalista imperialista duopólio.

Dificílimo para mim dizer "Força, Trumpismo!", mas também é dificílimo dizer "Viva! O duopólio sobreviveu a Trump!"

"Viva! O duopólio sobreviveu a Trump!" é o que a mídia comercial global insiste em que todos cantemos, sim. Mas muitos Trumpistas não gostarão de ver que o duopólio somou forças para derrotar o candidato deles, apenas porque aspirava ao poder no mais alto nível executivo.

Esse sentimento só aumentará, se aquela gente continuar arrogantemente a demonizar o Trumpismo e insistir em não analisar o movimento político com lógica, sem paixão e com sentimentos de patriotismo, calor e respeito humano. Única coisa que absolutamente não mudará, posso garantir, é que a divisão cultural insuflada dentro do povo norte-americano para derrotar o Trumpismo ainda continuará a gerar afetos terrivelmente debilitantes e de polarização doméstica até o fim dessa década.

Se Trump for derrotado, o duopólio norte-americano permanece no poder - mais abalado do que nunca, em tempos recentes, sim, mas permanece. Acho que muitos Trumpistas compreendem isso, o que ajuda a explicar que tenham votado em grandes números, mas os anti-Trump doentiamente irados são estimulados com excesso de propaganda, o que dificulta para Trump persistir no questionamento insolente e inerente que iniciou, sobre a integridade do sistema político norte-americano.*******

 


[1] Ramin Mazaheri está cobrindo as eleições nos EUA. É correspondente-chefe em Paris da PressTV e vive na França desde 2009. Foi jornalista de jornal diário nos EUA, e escreveu do Irã, de Cuba, do Egito, da Tunísia, da Coreia do Sul e de vários outros cantos do mundo. É autor de 'Socialism's Ignored Success: Iranian Islamic Socialism' [O ignorado sucesso do socialismo: Socialismo Islâmico Iraniano] e de 'I'll Ruin Everything You Are: Ending Western Propaganda on Red China' [Arruinarei tudo que vocês são: pôr fim à propaganda ocidental contra a China Vermelha]disponível também em mandarin e em chinês simplificado.

[2] Orig. "libertarian". Difícil para nós traduzir esse substantivo/adjetivo por "libertário", porque a 'liberdade' a que aspiram os libertarian é absoluto apagamento do Estado, pleno direito de não pagar impostos, de comprar quantas armas cada um deseje, e de organizar milícias de autodefesa. Por isso optamos já há muito tempo, por traduzir "libertarian" por "libertarista". Valha o que valer, não diremos que um suprematista branco racista e armado até os dentes seria "libertário". NTs.

Foto: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Donald_Trump_official_portrait.jpg

 


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