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Saga Assange: lei dos EUA declara criminoso e louco o jornalismo real

10.01.2021
 
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Saga Assange: lei dos EUA declara criminoso e louco o jornalismo real 
Pepe Escobar, Asia Times (traduzido com autorização do autor)


"E o edifício? Que curiosa construção! Eu o considerava verdadeiro palácio encantado! Era um nunca acabar de desvãos. De divisões incompreensíveis. Dificilmente se poderia dizer quando nos encontrávamos no primeiro ou no segundo andar. De compartimento para compartimento, sempre havia degraus a subir ou a descer. Além disso, as divisões laterais eram inúmeras, sem razão de ser, com tantas reviravoltas que a ideia que fazíamos do conjunto do edifício se aproximava da que fazíamos do infinito. Vivi ali durante cinco anos, nunca consegui determinar com exatidão o pequeno dormitório que ocupava com mais dezoito ou vinte colegas."
Edgar A. Poe, "O poço e o pêndulo", Histórias  extraordináriasTrad. José Paulo Paes.  SPaulo: Companhia das Letras, 2008, p. 237).[1]

 

A sincronicidade definitivamente gosta de espelhos mágicos (orig. wonderwalls).[2] A saga de Julian Assange parecia ter entrado em novo capítulo quando, em tese, estaria próximo da liberdade - condicional -, 2ª-feira passada, só um dia depois do primeiro aniversário do início dos Furiosos Anos Vinte: o assassinato do general-major Qassem Soleimani.

O destino do jornalista que o Império empenha-se em exterminar foi apenas justaposto ao destino do guerreiro/diplomata que o Império já exterminou.

Dois dias adiante, Julian Assange foi de facto reencarcerado, exatamente quando o Império era atacado por uma "insurreição" que, embora frequentemente instigada no remoto "Terceiro Mundo", é celebrada no Excepcionalistão como "poder popular".

Na quarta-feira, o inestimável Craig Murray, de dentro da sala da 1ª Corte de Magistrados de Westminster em Londres, expôs, com detalhes meticulosos, todos os contornos da insanidade.

Leia em conjunção com a sentença positivamente aterradora exarada no caso construído pelo governo dos EUA contra Julian Assange.

A questão definitiva, para todos que praticam jornalismo real em todo o mundo, e que a sentença do tribunal afirma conclusivamente, é que qualquer jornalista pode ser processada nos termos da Lei Antiespionagem (US Espionage Act). Desde 1961, a Lei Antiespionagem tem jurisdição universal.

O grande John Pilger, em expressão memorável, fala da "juíza" Vanessa Baraitser como "aquela mulher gótica". Não passa, de fato, de obscura funcionária pública. Não é jurista. A sentença dela anda e fala como se 'exarada' por qualquer medíocre estrela rookie. Ou, melhor ainda: foi recortada diretamente da denúncia apresentada pelo Departamento de Justiça dos EUA.

A denúncia contra Julian Assange foi descartada - no último momento -, sob argumentos teoricamente humanitários. O caso, assim, foi encerrado. Mas não foi. Dois dias depois, Assange foi mandado de volta para Belmarsh, miserável prisão de segurança máxima, tomada pela Covid-19. Significa que o caso continua.

Kristinn Hrafnsson, editor de WikiLeaks, observou corretamente:


"É indigno e injusto e ilógico, se se considera a sentença dela há dois dias, em que fala de ameaça à saúde de Julian em grande parte porque está na prisão de Belmarsh (...) Mandá-lo de volta para lá não faz qualquer sentido."


Mas, sim, faz sentido, se se considera o real papel de Baraitser - colhida entre os ditames da agenda imperial e a necessidade de salvar a 'reputação' da justiça britânica.

Baraitser não passa de soldado raso, no ring, contra adversário muito mais pesado que ela. O peso realmente pesado no caso Assange é Lady Emma Arbuthnot, forçada a posição de invisibilidade por causa dos laços extremamente comprometedores e diretos que há entre Lord e Lady Arbuthnot, a inteligência e os militares britânicos, revelados ao mundo por - e quem seria?! -WikiLeaks.

Foi Arbuthnot quem selecionou a obscura Baraitser - e ela fez exatamente o que estava previsto para ela, no seu mapa do caminho. Na corte, como Murray detalhou numa série de artigos poderosos, Baraitser recobre com furioso vingancismo, a própria incompetência.

Baraitser rejeitou o pedido de deportação de Julian Assange, segundo o próprio raciocínio dela, porque não estaria convencida de que o horrendo gulag norte-americano conseguiria impedir o suicídio de Assange.

Mas a questão chave é que, antes de chegar à conclusão, Baraitser acatou e virtualmente reforçou todos os pontos da denúncia apresentada pelos EUA.

Assim, nessa altura, na 2ª-feira, a "mulher gótica" contorceu-se para salvar os EUA do profundo embaraço global de processar um jornalista e publisher de facto por ter revelado, não segredos do governo dos EUA, mas os crimes de guerra do Império,.

Dois dias depois, o quadro completo tornou-se perfeitamente claro. Nada houve de "humanitário" naquele tribunal ou naquela sentença. Só luta política combinada a doença mental. Julian Assange foi declarado criminoso e louco. Mais uma vez, a prática do jornalismo foi criminalizada. 

 

Há razões para crer que qualquer apelo do governo dos EUA fracassará. Nenhuma Alta Corte Britânica se atreverá a derrubar sentença na qual Baraitser realmente estabeleceu um fato: uma direta correlação entre a realidade do gulag norte-americano e o risco extremo para a saúde de Assange, se acontecesse de ser posto naquele sistema.

Na situação atual, sequer interessa que a defesa de Assange tenha apresentado todas as provas necessárias para pedir a libertação sob fiança, desde a prisão em casa, até o uso de bracelete. A noção de Baraitser, de que a segurança do estado britânico não conseguiria impedir a "fuga" de Assange com bracelete , em pleno lockdown de tipo estado policial não presta sequer como piada.

Assim, Julian Assange está de volta a uma interminável, perversa reescritura de repetição de "O Poço e o Pêndulo", de Edgar Allan Poe.

A estratégia legal do governo dos EUA antes que a Corte Superior reúna-se em abril é, basicamente, tentar provar que o gulag norte-americano é competente para impedir qualquer suicídio - ainda que o objetivo final dessa Inquisição pós-verdade pareça ser exterminar Julian Assange dentro do sistema penal. Esse objetivo sequer exige prisão de segurança máxima no Colorado. Belmarsh serve.*******

 


[1] Epígrafe acrescentada pelos tradutores.

[2] Valha o que valer, é canção gravada pelo grupo Oasis (1995) [NTs]. 

 


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