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O Mimetismo e suas fronteiras

28.08.2020
 
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O Mimetismo e suas fronteiras

Por Edner Morelli

Quando nos deparamos com Fronteira Eterna e outros contos imaginados de Dantas Guerra, ocorre a certeza de estarmos postos a um universo ficcional peculiar. Curiosamente, desde o prefácio, passando pelas 182 páginas de narrativas curtas, o leitor encontra-se com o universo inventivo-ficcional do contista.

Convém ressaltar, de imediato, que estamos diante do gênero conto, escrita essa que exige alguns parâmetros estéticos que o autor explora com êxito: no geral, todas as narrativas aqui apontam para uma única célula dramática, ou seja, gira em torno de um fato principal. Indo mais adiante, esse fato segue um espectro de suspense, atraindo o leitor para o desfecho singular da narrativa, marca essa que Guerra constrói com grande competência. O tom geral da obra, em termos estéticos, explora a precisão verbal, estrutura que encontramos em descrições e diálogos velozes, adotando-se, assim, a síntese como marca estética reguladora da obra. Os quinze contos desfilam possibilidades ficcionais bem interessantes, a começar com o primeiro conto intitulado Jogatina.

Nele, o que nos salta aos olhos, além de um final inesperado,  é a construção caricatural da personagem Sr. Teixeira, bem aos moldes de um Eça ou Machado. Já no conto Espírito de porco, ironicamente, entramos em contato com a figura perturbada de Innocente, que resolve matar um porco em comemoração do seu próprio aniversário, fato esse que se encaminha para um final revestido de macabro surrealismo. No conto que leva o nome de O Retorno, temos uma inventividade ficcional muito chamativa à medida que a fábula traça paralelos com a figura heroica de Ulisses e seu eterno retorno à Ítaca.

No entanto, no conto, poeticamente, desenha-se um retorno onírico e introspectivo da personagem. Seguindo até o conto Almas Podres temos a problematização moral de uma pequena província imaginada, assim sendo, deparamo-nos então com o lado obscuro dos tipos sociais residentes desta cidade, a saber: (o bêbado, o padre, o coronel, o serviçal, o religioso etc.). Já no conto Transformação, encontramos em clara evidência todos os contornos do gênero em questão.

Bem à luz de um Edgar Allan Poe, a narrativa é revestida de uma atmosfera sombria de suspense, enigma e morbidez, ditando o ritmo para um final que a todo custo deseja chegar. E a última narrativa do livro leva o nome de Fronteira Eterna. Nela encontramos um amplo universo metafórico de destruição ancestral da terra e do próprio ser, conferindo, assim, uma espécie de abertura ficcional que ronda toda a obra, na medida em que espelhamos brevemente aqui um sem número de possibilidades miméticas tão caras ao universo literário. Vamos em busca...

 

RESENHISTA

Edner Morelli é mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP e atua como professor de Teoria da Literatura e Literatura em Língua Portuguesa. Líquido, seu quarto livro de poemas, foi lançado neste ano pela editora Penalux.

 

SERVIÇOS

Fronteira eterna, Dantas Guerras (Guilherme Furlan) - contos (182 p.), R$ 40 (Penalux, 2020).

Link para compra:

https://www.editorapenalux.com.br/loja/fronteira-eterna

 

AUTOR

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Dantas Guerra é Guilherme Furlan - ou seria o contrário? Este nasceu em Bento Gonçalves, Rio Grande do Sul, em 1990, é bancário e bacharel em Comércio Internacional pela Universidade de Caxias do Sul (UCS). Já o outro nasceu da imaginação, é apaixonado por literatura e autor do livro Fronteira eterna e outros contos imaginados.

 


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