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Gripe aviária: Vacina é a melhor arma

26.04.2006
 
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JB – Sim, a vacina será a melhor arma. O problema é que a vacina contra a gripe é específica para cada subtipo do vírus. Assim, só poderá ser iniciada a fabricação quando for conhecido qual o subtipo que está provocando a pandemia. O Brasil tem muita experiência em vacinações de grandes contingentes populacionais, tendo realizado campanhas de vacinação que imunizam milhões de pessoas ao mesmo tempo. Há países desenvolvidos que precisarão fazer simulações para aprender como se vacina milhões de pessoas em curto período de tempo. A Organização Mundial de Saúde recomendou, em novembro de 2005, aos países desenvolvidos que oferecem vacina contra a gripe para os idosos, que procurassem atingir uma cobertura vacinal de 75% até o final de 2005. O Brasil já atingiu, no ano passado, 86% de cobertura vacinal, o que demonstra a vitalidade do Sistema de Saúde brasileiro. Outra vantagem da alta cobertura vacinal contra a gripe sazonal é reduzir as possibilidades do H5N1 aprender a se transmitir entre seres humanos. Um dos caminhos que o H5N1 pode percorrer para realizar esse aprendizado é infectar uma pessoa que esteja também infectada com o vírus de influenza humana. A troca genética entre os dois vírus pode produzir umterceiro que seja capaz de se transmitir entre pessoas. Assim, quanto menos gente estiver infectada com o vírus da influenza humana, diminuem as chances de ocorrer esse fenômeno.

EQ - Existe alguma medida de identificação precoce do vírus H5N1, caso ele chegue ao Brasil?

JB – O caminho mais provável da chegado do vírus H5N1 ao Brasil é por meio de alguma ave silvestre que migre de um local onde haja ocorrência do mesmo. Nesse caso, a medida principal será realizada pelo Ministério da Agricultura e Secretarias Estaduais de Agricultura, que é a rápida contenção, com a eliminação de todas as aves num raio de 3 Km, para impedir que o rebanho avícola brasileiro seja contaminado. Para o monitoramento da influenza humana, o Brasil já tem 46 unidades sentinelas que fazem continuamente a busca de identificação viral, numa amostra das pessoas que procuram essas unidades com sintomas de síndrome gripal. Essas unidades colhem o material, mandam para o laboratório e é feita a identificação do vírus. Essa rede é importante por dois motivos. Primeiro, com essa ação, garantimos que a vacina aplicada todos os anos contra a gripe sazonal tenha os três subtipos que efetivamente correspondam aos que mais circulam no Brasil, aumentando sua eficácia. E, por outro lado, essa rede apóia a identificação de surtos de influenza em ambientes fechados como quartéis, creches, asilos que geralmente tem uma gravidade maior. Se ocorrer algum subtipo inusitado, ele será rapidamente detectado.

EQ - Existe alguma medida adotada pelo governo em portos, aeroportos e fronteiras em relação à doença? Deve-se evitar viajar para países onde foram detectados casos da gripe aviária?

JB - Estamos adotando nesse momento uma comunicação para os viajantes que vão se dirigir aos países onde há casos de gripe aviária para que evitem contato com aves. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), ligada ao Ministério da Saúde, já está realizando essa divulgação nos aeroportos. São panfletos que orientam as pessoas que vão a esses países para não freqüentarem locais como fazendas de aves e mercados onde se faz abates desses animais. Não há nenhum sentido em não realizar viagens para qualquer país do mundo por conta de gripe aviária, nem evitar a alimentação com frango, desde que o mesmo seja devidamente cozido ou assado.

EQ – Em épocas diferentes, o mundo já passou por três pandemias de gripe. É possível se projetar um cenário da gripe aviária a partir da experiência que já tivemos com esses outros tipos de gripe?

JB – Não, porque as doenças ocorreram em contextos muito diversos. A gripe espanhola (1918/1919) foi uma pandemia de alto impacto na morbidade e na mortalidade do mundo naquela época. Era uma época específica, Primeira Guerra Mundial, fome na Europa, populações migrando aos milhões por conta da guerra e tínhamos uma escassez de recursos tecnológicos, por exemplo, não havia antibióticos naquela época. Grande parte das mortes que ocorreram na gripe espanhola foram relacionadas com as pneumonias bacterianas que podem ocorrer posteriormente a uma gripe e para a qual na época não se tinha muito recurso. A gripe asiática e a gripe de Hong Kong ocorridas nos anos 50 e 60, respectivamente, foram incomparavelmente mais benignas do que a gripe espanhola. No Brasil, por exemplo, essas pandemias sequer chegaram ser percebidas como um problema grave de saúde pública. Assim, não é possível prever quando nem com que gravidade ocorrerá a próxima pandemia e, por isso, temos que estar bem preparados.

*doença que ocasionalmente se encontra em uma comunidade animal, mas que se dissemina com grande rapidez e apresenta grande número de casos.

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