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Retrato de Machado de Assis quando jovem

25.08.2009
 
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Massa destaca a importância de Francisco Gonçalves Braga (1836-1860), nascido em Braga, Norte de Portugal, e chegado ao Rio de Janeiro em 1854. Foi quem dirigiu os primeiros passos da carreira literária de Machado de Assis, levando-o a publicar seus poemas na revista Marmota, de Francisco de Paula Brito (1809-1861), igualmente afrodescendente. Segundo Massa, além de Braga, outros poetas influenciaram Machado de Assis – geralmente, poetas medíocres que a história literária pouco preservou cujos textos, hoje, são difíceis de localizar porque certas revistas já não podem ser encontradas, em razão da precariedade dos acervos de nossas principais bibliotecas.

A entrada definitiva de Machado de Assis na literatura brasileira como prosador Massa localiza em 1858, com a publicação de obras que viriam a anunciar o contista, o jornalista e o crítico que ele viria a ser. Aos 18 anos e meio, publicou na Marmota o seu primeiro conto, “Três tesouros perdidos”. Meses depois, participou de uma polêmica literária pela imprensa e, antes de completar 19 anos, sempre na revista de Paula Brito, deu à luz um texto sobre questões essenciais da literatura brasileira.

Por essa época, Massa ressalta a influência que teve sobre Machado de Assis a sua fugaz amizade com Charles Ribeyrolles (1812-1860), jornalista e político francês exilado por Napoleão III, chegado ao Brasil em 1858, que registrou suas impressões do país no livro Brésil pittoresque, publicado à época em fascículos. Sem contar a leitura do publicista francês Eugène Pelletan (1813-1884) e de Victor Hugo (1802-1885).

Como procurou escrever o que definiu como uma “biografia intelectual, espiritual e histórica”, Massa utilizou-se de referências precisas e preciosas que levantou em suas vastas pesquisas, como amizades próximas, a atividade política e os amores do jovem Machado de Assis, como o possível envolvimento ou apenas a admiração por uma atriz de teatro, a italiana Anneta Casaloni e, principalmente, seu casamento com a portuguesa Carolina Augusta Xavier de Novais (1835-1904), irmã de seu amigo e poeta portuense Faustino Xavier de Novais (1820-1869).

De ressaltar é ainda que Massa estabelece com precisão a entrada de Machado de Assis para o Diário do Rio de Janeiro, no início de 1860, que marca o início de sua atuação profissional como jornalista. Até então, sua colaboração nos jornais e revistas fora gratuita. Nesse jornal, a atuação do Machado jornalista seria radical, jacobina, guiado mais pelo idealismo, imagem bem diferente da que ficou do escritor quando maduro.

Até que contrariou os interesses do diretor do jornal, Joaquim Saldanha Marinho (1816-1895), e seu grupo político. Não se sabe exatamente o que se passou, mas a verdade é que, a partir do começo de 1862, o jornalista se mostra decepcionado com a política. E passa a optar por temas mais literários. É verdade que o Brasil pode ter perdido um grande político, mas, com certeza, a literatura brasileira saiu ganhando.

O ano de 1864 marca a estréia formal de Machado de Assis como escritor com a publicação pelo editor B.L.Garnier de Crisálidas, coletânea de poemas, já que suas obras precedentemente impressas por Paula Brito e pelo Diário do Rio de Janeiro devem ter sido editadas graciosamente, sem contrato de direitos autorais. À falta de documentação precisa, Massa procurou estabelecer os passos do escritor por suas crônicas no Diário: no início de 1867, ele prefere desvincular-se do jornal para optar por um cargo de funcionário do Estado, que, por mais modesto que fosse, provavelmente, seria mais seguro do que a de redator de jornal. No funcionalismo, porém, ainda encontraria tempo para continuar a colaborar com seus contos no Jornal das Famílias, o que fazia desde 1863. Nessa publicação, aliás, há ainda nove contos, assinados com pseudônimos diversos, que têm sido atribuídos a Machado de Assis, mas cujo estabelecimento de autoria, segundo o pesquisador, não é pacífico.

O livro de Massa vai até 1870, época em que Machado de Assis já estava casado com Carolina desde 12 de novembro de 1869 e morando na rua dos Andradas, 119, perto do Morro do Livramento. Se tivesse recebido por parte da intelectualidade e das instituições brasileiras – fosse o Brasil um país mais maduro –, com certeza, Massa teria reconstituído a etapa final – e mais importante da atividade literária de Machado de Assis.

Na conclusão, o biógrafo adverte que os brasileiros da segunda metade do século XX deveriam lutar com rapidez contra os cupins, preservando jornais e revistas que ainda restam nos arquivos públicos e privados, embora tenha sido explícito ao garantir que já perdera a esperança de encontrar vários textos de Machado de Assis, notadamente aqueles publicados em revistas de vida efêmera nas quais costuma se exprimir a vida literária. Como já estamos ao final da primeira década do século XXI, há motivos de sobra para se suspeitar de que a advertência do professor não serviu para muita coisa. Infelizmente.

IV

Massa, ao lado de Raymundo de Magalhães Júnior (1907-1981) e José Galante de Sousa (1913-1986), forma a tríade dos principais pesquisadores dos textos de Machado de Assis. Professor emérito de primeira classe de Línguas e Culturas Estrangeiras e Regionais da Universidade Rennes 2, organizou Dispersos de Machado de Assis (1965) e Bibliographie descriptive, analytique et critique de Machado de Assis -- 1957-1958 (1965), além de ter escrito numerosos artigos e ensaios sobre a obra machadiana, com destaque para “La bibliothèque de Machado de Assis” em que identifica 718 dos livros pertencentes à biblioteca do escritor carioca.

É também autor de estudos sobre Manuel Antônio de Almeida (1831-1861), José de Alencar (1829-1877) e outros autores do século XIX brasileiro, além de ter traduzido (edição bilíngüe) A reunião, de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987). Em 1986, recebeu a Medalha Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras.

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