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Para enriquecer os estudos queirozianos

25.05.2009
 
Pages: 123

Diz o pesquisador que, vinte anos mais velho do que Eça, são inúmeras as referências de Camilo ao autor de Os Maias em cartas a amigos, em notas à margem das suas obras. Já Eça ignorou Camilo mais do que devia, ou fingia ignorá-lo, “vendo nele, predominantemente, aspectos negativos, desaprovando radicalmente aquilo que chamou de maneirismo sentimental e o que por ventura via em Camilo de passadista, provinciano e contraditório”. Isso não significa que não o tivesse admirado: leu-o, talvez até pela mão de Ramalho, que o admirava incondicionalmente e com ele se carteava, diz Campos Matos.

O pesquisador lembra ainda a amizade que ligava Camilo ao juiz Teixeira de Queiroz, pai de Eça de Queiroz, a quem conhecera por ocasião de sua prisão na cadeia da Relação do Porto, depois de sua condenação por adultério com Ana Plácido, episódio que duraria de 12/12/1859 a 1/10/1861. Segundo Campos Matos, Camilo sempre guardou pelo juiz Teixeira de Queiroz respeito e gratidão, “razão pela qual, repetimos, iria evitar que Eça fosse vítima da pena do mais violento polemista das nossas letras”.

Isso não significa que os dois autores não tenham trocado algumas farpas, às vezes dissimuladas. Campos Matos reedita, inclusive, uma carta de 1887 que Eça chegou a escrever, mas não a enviar a Camilo em resposta a alguns comentários um tanto ácidos do colega de ofício. Um ano depois, Eça iria escrever a Camilo, convidando-o a colaborar na Revista de Portugal, da qual era diretor.

Parece que Eça e Camilo nunca se encontraram pessoalmente, embora Ramalho Ortigão tenha feito referência, num artigo de 1874 n´As Farpas, a um encontro entre ambos em julho de 1871, ao recordar os tempos do Cenáculo de Lisboa. Mas, diz Campos Matos, Ramalho, mais uma vez, mostrou-se parco em suas memórias do velho amigo, mais preocupado com a imagem que deixaria de si para a posteridade. Para o investigador literário, Ramalho, entre os literatos de seu tempo, era o mais bem informado acerca da vida de Eça. E, no entanto, deixou meia dúzia de linhas de episódios mal contados e algumas alusões, “nem sempre todas verdadeiras”, a respeito do escritor.

III

Publicado em 2004 em Portugal pela Livros Horizonte, Sete biografias de Eça de Queiroz, de A.Campos Matos, ganhou edição brasileira em 2007 pela Editora Movimento, de Porto Alegre, revista e acrescida de novas informações. Como se percebe pelo título, nesta obra o queiroziano faz uma resenha de sete das mais destacadas biografias do escritor, que incluem três autores brasileiros: os gaúchos Miguel Melo (1877-1929) e Vianna Moog (1906-1988), ambos biógrafos pioneiros em língua portuguesa, além do baiano Luís Viana Filho (1908-1990), responsável por uma pesquisa muito bem apurada e de uma objetividade de interpretação que lhe mantém o interesse de leitura até hoje. Entre os biógrafos portugueses contam-se António Cabral (1863-1950), João Gaspar Simões (1903-1987), João Calvet Magalhães (1915-2004) e Maria Filomena Mónica (1943).

A mais extensa das biografias de Eça de Queiroz, com 762 páginas, Vida e Obra de Eça de Queirós, de João Gaspar Simões, é também a que mais espaço obtém neste livro, até porque são muitas as contestações que Campos Matos lhe faz, a partir de uma “incoerência crítica, tantas vezes irrefletida” com que o biógrafo utilizou as idéias freudianas, apelando para a intuição quando necessitava preencher lacunas deixadas pela ausência de documentos. “Pode a documentação ser complementada com a intuição? Pode a psicologia servir à crítica literária? Por certo que sim. O que não se pode é ultrapassar os limites impostos ao rigor e à coerência”, observa Campos Matos, sem, contudo, deixar de reconhecer em Simões “o maior biógrafo português de Eça”.

Da biografia mais recente de Eça de Queiroz, escrita por Maria Filomena Mónica, o autor também não faz boa apreciação, a partir a ausência de uma investigação aprofundada da infância e adolescência do escritor, passando por visões romanceadas sem fundamento, até concluir que a obra nada traz de novo, “exceto uma carta de Ramalho que relata o encontro que teve com Eça em Paris, quando este acompanhava na cidade-luz uma inglesa casada em Londres, rica e bonita”.

De Eça de Queiroz: A Vida Privada, de José Calvet Magalhães, a opinião de Campos Matos também é pouco abonadora, apontando algumas fantasias que perpassam uma narrativa que constitui, no seu dizer, “uma biografia rudimentar”. Da obra pioneira de António Cabral, o autor lembra que o biógrafo estava incluído entre os estudiosos “proscritos de Tormes”, ao lado de João Gaspar Simões e o padre Alyrio de Melo, ou seja, que não agradavam à viúva e aos filhos de Eça. Em seu livro, Cabral inclui um capítulo sobre os “plágios” de Eça, apontados por Camilo, António Enes, Adolfo Coelho, João Meira e Cláudio Basto.

Entre os biógrafos brasileiros de Eça de Queiroz, o mais importante foi, sem dúvida, Luís Viana Filho, autor de A Vida de Eça de Queiroz, publicada pela editora Lello, do Porto, em 1983, e pela Nova Fronteira, do Rio de Janeiro, no ano seguinte. Trata-se de obra rigorosamente documentada, já que Viana Filho teve acesso a duas fontes principais: a correspondência de Eça com sua mulher, Emília, que hoje faz parte do acervo da Biblioteca Nacional deLisboa, e a correspondência de Emília para o marido, que o pesquisador consultou em Tormes.

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