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Uma edição fac-similar de ‘Os Lusíadas’

22.04.2008
 
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Depois de relacionar idéias defendidas por eminentes filólogos como Carolina Michaëlis de Vasconcelos (1851-1925), Wilhelm Storck (1829-1905), Aquilino Ribeiro (1885-1963), Jorge de Sena (1919-1978) e, mais recentemente, pelo professor Kenneth David Jackson, da Universidade de Yale, Leodegário inclina-se para a tese de que houve, sim, uma editio princeps em 1572 e que esta editio princeps é a que apresenta as leituras incontestáveis da Edição Ee, em face das ultracorreções apresentadas, por despreparo ou ignorância do editor, nos exemplares da Edição E.

Quanto às edições mistas, que resultam das contaminações recíprocas entre as edições Ee e E, apontadas por Kenneth David Jackson, também estas, segundo Leodegário, só podem ser fraudulentas e levadas a público por editores inescrupulosos, que teriam aproveitado a fama do poeta para imprimir exemplares contaminados com o propósito de auferir lucros financeiros.

Leodegário diz que essa conclusão só se reforça com a análise do exemplar do IHGB, que, segundo ele, não se apresenta como nenhuma edição mista ou penosamente contaminada, com exceção dos versos da parte manuscrita, que teriam sido copiados de um exemplar da Edição E, o que levou o filólogo a restaurar em apêndice as estrofes da edição Ee, “pois estas é que pertencem ao livro”.

IV

Depois de apontar dezenas de diferenças textuais entre as duas edições de Os Lusíadas, ambas com data de 1572, Leodegário inclina-se pela hipótese segundo a qual a verdadeira editio princeps é aquela que tem, na portada do volume, a cabeça do pelicano virada para a esquerda do leitor, não passando a outra de uma edição fraudulenta, como já defendia Tito de Noronha. Para ele, a teoria da ultracorreção ou hipercorreção só vem reforçar a tese de que a verdadeira editio princeps é a chamada Edição Ee, como o exemplar agora editado em fac-simile.

Para quem não sabe, o professor ressalta que ultracorreção ou hipercorreção significa interpretar como incorreta uma forma rigorosamente correta de linguagem para, em seguida, substituí-la por uma forma errada, mas que se acredita seja a certa. Portanto, a ultracorreção resulta de uma ação ou interferência no sentido de querer corrigir o que está certo, por falta de cultura ou de adequado conhecimento lingüístico-filológico.

Como exemplo, o professor cita o verso “Quando as infidas gentes se chegárão”, da Edição Ee, II, 1, v.7, que na Edição E passa a “Quando as fingidas gentes se chegárão”, lembrando que, facilmente, verifica-se que Camões escreveu infidas e não fingidas, optando pelo latinismo erudito, enquanto fingidas, palavra popular, denotaria a banalização ou trivialização do verso. “(Infidas) é o que melhor se ajusta ao texto”, garante, observando que a palavra entrou na língua no século XVI, época de relatinização do idioma. “E entrou pelas mãos de Camões”.

Portanto, não há dúvida que a publicação desta edição fac-similada de Os Lusíadas, sob os cuidados do professor Leodegário, constitui uma contribuição inestimável para uma futura edição crítica ou uma edição diplomático-interpretativa que, como se sabe, ainda não se fez de modo satisfatório, ainda que já tenham sido publicadas tanto em Portugal como no Brasil edições que foram e continuam sendo muito úteis para o estudo da obra camoniana.

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OS LUSÍADAS, de Luís de Camões, com estudo filológico de Leodegário A. de Azevedo Filho, apresentação de Arno Wehling e prefácio de Nicolás Extremera Tapia. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves Editora/Fundação Brasil-Portugal/Instituto Português do Livro, 2007. E-mail: falveseditora@globo.com

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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br

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