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O Marceneiro, a Última Tentativa de Cristo

16.11.2020
 
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O Marceneiro, a Última Tentativa de Cristo

Um grande "Midrashim" (1) pós-Moderno e a necessidade humana de ouvir um pouco mais sobre o Sagrado

Por Adel Jose Silva

 

"Encontrava-se ali presente o filho de Anás, o escriba, e teve a ideia de fazer ecoar as águas represadas por Jesus usando uma planta de vime. Ante a essa atitude, Jesus disse: "Malvado, ímpio e insensato. Será que as poças e as águas te estorvavam? Ficarás agora seco como uma árvore, sem que possas dar folhas, nem raiz, nem fruto".

(Livro da infância de Jesus.p.509-510, Apócrifos de pseudo-epigrafados a Bíblia)

"O resto dos atos de Abiá, seus feitos e suas gestas, está escrito no comentário (Midrash) do Vidente Idô."

II Crônicas 13:22,

 

Encontrado na escritura sagrada, o termo Midrax, em II Crônicas 13:22, refere-se a uma poderosa ferramenta de intertextualidade da antiguidade, tanto quanto contemporaneidade, ainda que seja na relevância da cultura talmúdica, que este termo Midrax ganha solidez. Para o Talmud, a exposição midráxica é um martelo" que desperta as faíscas adormecidas na rocha".  Dito isso, alardeia-se: há um novo Midrash nas prateleiras das livrarias. Essa é a forte impressão que se tem ao ler a obra O Marceneiro, a Última tentativa de Cristo, de grande provocador Silas Corrêa Leite. Autor de sucesso de notório reconhecimento acadêmico como Porta- Lapsos, Poemas(All-Print 2005)   além de, não menos provocativas e baldados como  O Rinoceronte de Clarice, ( e-book),  "Campos de  Trigo Com Corvos", (2008), obra de contos finalista do Prêmio Telecom/Ficções, Portugal, ou  a que tem sido aclamado como sua obra-prima, Goto, Romance, A lenda do Reino do Barqueiro Noturno do Rio de Itararé, (2014-Clube De Autores), Silas reconfigura-se,  optando por uma demanda, que aparentemente ensaia acesso ao  mercado de obras  de teor místico-religioso-ficcional, sem contudo, estacionar seu disco voador nesse terreno, uma vez que obra, ao aborda o tema, o faz numa busca  que transcende e que  o iguala a romances  filosóficos existencialistas, muito mais afeita às dúvidas que alimentava os escritores rabínicos em seus preciosos Midrashim, que a qualquer obra apologética, preceituaria  da autoajuda,  ou panfletaria em nome de qualquer viés religioso ou político-partidário. A grande hipótese da obra é um... "E se? ". Se o leitor tiver a coragem de militar pela radicalidade do sonho, mas sonho que questiona o ato de dormir, ele compreenderá a que veio O Marceneiro.

Silas, Poeta pós-moderno, de versos elétrico-nervo-radicais-livres em ação dinamite mergulha de cabeça nas provocações que deseja, em sua militância frenético-cibernética, a descontrair e descontruir   dogmas, sem com isso romper o limiar da configuração do sagrado, como compreendido por Eliade[1] ou até mesmo, por que não, Otto[i].

Ao refazer o caminho do Midrash, revisa o tema da Parusia, recolocando no seio do debate pós-moderno, o Sagrado, entretanto, redimensiona O Numinoso aqui, para além de um encontro pessoal, individualista, moda calvinista, para uma outra perspectiva do encontro com o Cristo, beirando o sentido Buberiano[ii], ou, quem sabe, kantiano[iii], em um possível encontro com a ética social do próprio Cristo registrado nos evangelhos. Como podem as religiões, o mundo que torna absolutista a Mercadoria, querer falar em nome de Deus? É aí, que o Marceneiro intervém. Não, ainda no Juízo, mas antes do Fim, das consequências catastróficas, Jesus vem a terra, no caso o Brasil, em meado dos anos noventa governado pelo famigerado sociólogo FHC, para fazer sua última Tentativa, aqui, como se o trocadilho com o filme dirigido por Scorsese evidenciasse, o que se descortina em  uma prosa em primeira pessoa,  que propõe uma dubiedade ao  fato ficcional, uma vez que o romance se vende como semi-biográfico,  semi-relato pessoal, no qual o alter-ego do autor  será  testemunha de uma visita escamoteada do  Papa e tanto outros encontros inusitados, que recheiam de saborosas peripécias para construir seu Midrax pós-moderno. 

Sim, essa é a tese defendida, a obra de Silas merece ser compreendida nessa chave, o leitor não se engane, a questão central do autor é provocar outros olhares sobre um tema, que apesar de longa fortuna crítica, até então, correria o risco de estar esgotado, mas como se vê em o Marceneiro, ainda rende frutos e poderosos Midrash. 

Tecnicamente, Midrash consistem num gênero da literatura rabínica que conta história para explicar outras histórias. "- De onde vieram as mulheres de Caim? "  A partir da pergunta, os rabinos contam uma história que preenche essa lacuna. O Midrax, é, portanto, um conjunto de narrativas que desejam conter  primeiras interpretações e comentários sobre a Torá Escrita e a Torá Oral (lei falada e sermões), bem como a literatura rabínica não-legalística (Ágadá) e ocasionalmente as leis religiosas judaicas (Álacá), que normalmente formam um comentário contínuo sobre passagens específicas da Bíblia Hebraica (Tanac).

Isso, por si, não seria pouco, todavia, pode-se pensar nele como uma ferramenta de interpretação maior, nesse sentido o Novo Testamento, seria um Midrash, e as obras não canônicas, como O Testamento de Simeão, O Evangelho de São Tomé, o Livro da Infância de Jesus e outros, Midrash do Novo Testamento.

É nessa chave, nessa tradição, que aqui denominados de tradição midráxica moderna ou pós-moderna, de autores que ao pôr em relevo o Sagrado num mundo de forte tendência humanística positivista, ousaram  romancear  sobre novas perspectivas a metafisica,  seja para contrapor, reafirmá-la, ou para recolocá-la na ordem do dia,  como fizeram  autores renomados como Khalil Gibran, (O profeta), Saramago-(O Evangelho Segundo Jesus Cristo), que Silas Corrêa Leite, em eu novo romance,   se insere e dialoga.

Esse diálogo ocorre, não pelo pretexto mesquinho da polêmica barateada pela necessidade de certo nicho de marcado, mas pela necessidade, quase de uma nova profilaxia, uma prevenção a grande depressão que nos rodeia.

Em sua desconcertante obra" Vivendo no Fim dos Tempos (2010), Slavoj Zizek, afirma ao comentar um filme de Van Damme: "(...) o oposto e não menos embaraçoso de Cristo trazer a espada e não a paz. Encontra-se na posição daquele que devolve o ato ético "excessivo" de agressão com gentileza e pode ser uma experiência traumática, como Vitor Hugo mostra claramente em Os miseráveis. (....)". É essa desconcertante experiência que Silas, com seu olhar fixo nesse Cristo que busca reentrar sua ética, e por isso e com isso, faz a última tentativa, como relata em O Marceneiro, e entrega.

O romance de Silas vem com um alerta, a humanidade está surda de uma surdez imersa e paradoxal, surda de tanto desejo de querer o ouvir, porém, não a qualquer voz, mas uma que já foi antiga, uma voz que ecoa com o renome do Numis., do antigo Numinoso, recado de uma nova boa nova, que já foi chamada de voz profética, poética e até divina, e agora ganha ares de renovo, na profusa parafernália dos ruídos contemporâneos.

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Adel José Silva

Professor, escritor, ativista lítero-cultural e Mestre em Literatura pela USP-Universidade de São Paulo

 


[1] The Quest: History and Meaning in Religion (English Edition) eBook Kindle

Eliade, Mircea (1959) [1954]. «Introduction (p. 8)» The Sacred and the Profane. The Nature of ReligionBoston

 


[i] OTTO, R. O Sagrado. Petrópolis: Vozes.

[ii] Buber, M. (2001). Eu e tu (8a. ed.). São Paulo: Centauro. (Originalmente publicado em 1923)

[iii] Emmanuel Kant in Werke IV, coordenado por W. Weischedel, 1956, p. 777.

(1)-O termo "Midrashim" é derivado do radical hebraico darash, que significa pesquisar, investigar


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