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Entrevista com Ronaldo Cagiano

13.09.2006
 
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RONALDO CAGIANO - São histórias que trazem um componente ancestral, carregadas de vivências, de autobiografia, de referenciais no passado. Entre a invenção e a memória, vou mapeando nossos fantasmas, nossas obsessões, nossas perturbações e angústias existenciais. Nesses contos, tanto o homem do interior como o da metrópole carrega as dores e delícias de sua relação com o mundo, as pessoas, as instituições, e isso pode ser observado no maior ou menor grau de claustrofobia, ansiedade, asfixia ou desespero, porque a incomunicabilidade, o desassossego, o deslugar no mundo, o exílio dentro de seu próprio ambiente, são um fenômeno da modernidade, do mundo globalizado, fetichista em que vivemos, que oscila entre o ser e o ter e que deflagra no íntimo um embate cruel, colocando o indivíduo em permanente confronto com suas ambigüidades. Então, um homem de Poços de Caldas terá as mesmas dores, delícias, dores, questionamentos e contradições de um cidadão de Praga, de Cataguases, de São Paulo ou Nova Iorque.


CHICO LOPES: Nesse sentido, que significa Brasília em sua vida? Num belo conto de " Dezembro indigesto ", um passageiro de ônibus da capital era, anonimamente, Antonin Artaud. Por que ele? Que o atrairia no criador do Teatro da Crueldade?


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RONALDO CAGIANO - Em alguns contos eu procuro fazer um diálogo com outros autores, outros tempos e lugares. Nesta história, particularmente, reproduzo a atmosfera de individualismo e egoísmo que permeiam a convivência social quotidiana, sobretudo nos grandes centros. Mas, percebe-se que a vida, em qualquer lugar, está premida pelo utilitarismo nas relações hodiernas. O império do interesse (fruto da sociedade da produção, do consumo e da competição) tirou do indivíduo sua percepção da dimensão onírica das coisas, gerou a necessidade de isolamento e autocentrismo, e esse instinto de sobrevivência (social, econômica, cultural e intelectual) faz com que cada pessoa, para mostrar o melhor do seu produto, revele o pior de si. Isso acaba por transformá-la numa incógnita e ela passa a viver a sua insularidade, indiferente ao que passa no seu entorno, principalmente insensível ao clamor do seu próximo. A crueldade da vida moderna é visível nos pequenos gestos ou no silêncio dos que recusam o diálogo. É sobre isso que a maior parte dos meus contos fala.


CHICO LOPES: Quem são os autores - além de Kafka, amplamente homenageado em seus livros - que mais o influenciaram, se é que reconhece influências diretas?


RONALDO CAGIANO - Desde cedo minha relação com a leitura é intensa e sou um acúmulo de influências. Há uma legião de autores que muito me aproximaram de seu mundo, tanto pelo que me trouxeram de lirismo ou de acicate: Kafka, Faulkner, Clarice Lispector, Camus, Dostoievski, Thomas Mann, Machado, Graciliano, Rosa, Fusco, Yourcernar, Pessoa, Bandeira, Drummond etc etc etc). Há também as influências das "leituras" e "olhares" do meio em que vivi, um laboratório inesgotável de tipos, situações, atmosferas, como a barbearia de meu pai ( local que considero meu primeiro e nostálgico livro de histórias, pois ali a ficção e a realidade povoaram meus dias), a política acanalhada de Cataguases (matéria e circunstância para outras histórias crítico-picarescas). Enfim, acho que, mais ou menos como disse Walt Whitman, "eu sou imenso, há multidões dentro de mim", e elas foram me habitando nos mergulhos em livros, cinemas, teatro e convivências ao longo da vida.


CHICO LOPES: No Brasil literário do momento, aponte os prosadores que lhe tocam mais de perto...O país literário não ficou fragmentado e heterogêneo demais? É possível divisar tendências, apontar direções nesse caos todo de "bloggers", livros de pequenas edições, livros pouco lidos e promessas que ficam restritas a grupelhos etc?


RONALDO CAGIANO - Creio que há uma profusão de autores e livros, seja de prosa ou de poesia. Vivemos hoje um "boom" editorial, principalmente em ficção. De um lado, facilitado pela modernidade do processo editorial, pelo fluxo hemorrágico de produções em blogs, internet etc. Claro, há o joio e o trigo e só o tempo dirá o que vai resistir; tanto por conta da crítica conscienciosa, quanto pela triagem dos leitores. O sistema editorial é perverso, com sua lógica calcada no mercantilismo, que muitas vezes bafeja obras de duvidoso mérito estético, em detrimento da verdadeira arte literária, que muitas vezes hiberna nas gavetas ou nos arquivos dos computadores. Mas, apesar da enxurrada de obras que todos os dias chegam às prateleiras, muitas coroadas oportunisticamente pela mídia e homologadas pelo compadrio de resenhistas que não passam de verdadeiros comunicólogos de carteirinha, que não são críticos, é possível garimpar nesse imenso aluvião algo precioso. Há bolsões de resistência e isso já começa a ficar claro. Não se pode dizer que hoje haja um movimento literário orgânico, com tendências e propostas, com manifestos ou estruturação, como fizeram os modernistas, os concretistas etc. Há sinais de agregação muito positivas, como a Geração 90, que revelou alguns bons prosadores, mas também há autores que vêm se despontando, isoladamente, com um trabalho do mais alto nível, na prosa ou na poesia, fora do grande mercado estruturado, como é o caso de Ronaldo Correia de Brito e Micheliny Verunschk, em Recife; Miguel Sanches Neto, em Ponta Grossa; Iacyr Anderson de Freitas, em Juiz de Fora; Salomão Sousa, Rosângela Vieira Rocha, Ana Maria Ramiro e Ronaldo Costa Fernandes, em Brasília; Pedro Salgueiro, Tércia Montenegro e Nilto Maciel, em Fortaleza; Lima Trindade, José Inácio Vieira de Melo e Carlos Barbosa, em Salvador; Astier Basílio e Linaldo Guedes, em João Pessoa; e tantos outros cujo trabalho vem sendo bem recepcionado pela crítica, apesar dos gargalos da distribuição.

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