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Música e sociedade no período joanino

09.03.2009
 
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O curioso é que nenhum desses historiadores consultou nos livros da Intendência Geral de Polícia da Corte, no Arquivo Nacional da Torre Tombo, as páginas referentes ao mês de novembro de 1807. Se o tivessem feito, com certeza, teriam tido suas convicções abaladas, pois lá está claro que as forças de segurança, às vésperas do embarque da família real, preocuparam-se em evitar que a população percebesse os preparativos para a retirada estratégica (ou fuga, se preferirem).

Assim, por determinação da Intendência, casas de pasto e botequins ao redor do Palácio da Ajuda não tiveram permissão para abrir as portas naqueles dias. E no Rossio foi reforçada a vigilância para evitar ajuntamentos e a propagação de boatos. Da leitura dos livros da Intendência, conclui-se, obviamente, que a saída da família real de Lisboa era um segredo de Estado. Portanto, se era segredo de Estado, como imaginar que a informação possa ter sido compartilhada por 10, 15 ou 18 mil pessoas?

Quem ainda assim duvidar deveria ler o texto “A reordenação urbanística da nova sede da Corte”, do mesmo Nireu Cavalcanti, publicado na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, nº 436, jul.-set., 2007, pp.149-199. Ali se pode ler, por exemplo, que toda a operação de embarque da família real se deu em 40 horas. Não se esqueçam que as tropas de Junot estavam em Sacavém, às portas de Lisboa. Em outras palavras: a família real embarcou no dia 29 e, no dia seguinte, o exército invasor entrou na cidade. Colocar 15 mil pessoas nos navios em tão pouco tempo seria tarefa impossível. Até porque as naus ficavam ao largo e os viajantes tinham de ir até lá em escaleres.

Mas, como correções não se coadunam com os egos inflados de acadêmicos, a historiografia continua a consagrar aquele discurso contraditório, levando historiadores menos atentos a repeti-lo como verdade consagrada. É o caso de Monteiro que repete também a historieta de que teriam ocorrido muito problemas para a instalação daqueles que chegavam, dizendo que as iniciais P.R. (Príncipe Regente) assustavam a todos e que seriam traduzidas jocosamente como “ponha-se na rua”. Se isso se deu, é de imaginar que, praticamente, toda a população de proprietários do Rio de Janeiro (lembrem-se que dois terços seriam negros e mestiços, ou seja, não proprietários em sua imensa maioria) teria sido convidada a deixar suas residências para que fossem abrigados os recém-chegados.

E mais: levando em conta que a limpeza do Rio de Janeiro estava toda confiada apenas aos urubus, como observou Oliveira Lima (1867-1928) em D.João VI no Brasil (Rio de Janeiro, Topbooks, 4ª ed,. 2006), é provável que a presença abrupta de mais 15 mil pessoas acabasse por estimular uma epidemia sem precedentes numa cidade sufocante em que eram comuns ataques biliosos, disenterias, bexigas, linfatites, morféia e sífilis. Só que não há também registro conhecido de uma mortandade sem precedentes. Nem tampouco sobre a construção às pressas de casas ou aposentos para os recém-chegados.

É verdade que Luís Gonçalves dos Santos (1767-1844), o padre Perereca, em Memórias para servir à História do Reino do Brasil, diz que o vice-rei mandou que proprietários e inquilinos de um grande número de casas lhe levassem as chaves até que “aparecesse na Barra Real a esquadra”, mas isso poderia valer tanto para abrigar 500 ou 15 mil pessoas.

Portanto, onde teriam ido se alojar os 15 mil desabrigados consagrados pela historiografia oficial? É, no mínimo, estranho que nenhum documento registre esse pandemônio, sendo mais plausível que tenha ocorrido em dimensões bem reduzidas. Cavalcanti, aliás, em seu livro, diz que pesquisas que realizou sobre a questão da aposentadoria e sua aplicação no Brasil, em função da permanência da corte no período de 1808 a 1823, ano de sua extinção pela legislação brasileira, apontam para o diminuto número de cerca de 120 processos. Mais: naquele texto mais recente, publicado na Revista do IHGB, Cavalcanti diz que, segundo suas pesquisas na documentação, apenas 19 pessoas pediram casa para alugar, usando a lei da aposentadoria. Daqui se conclui que, se o episódio do “ponha-se na rua” ocorreu em 1808 ou 1809, envolveu bem poucas famílias.

V

Monteiro também repete o que a historiografia oficial consagrava sobre a presença da missão francesa de 1816 no Rio de Janeiro, com base em estudos de Afonso Taunay (1876-1958) e Donato Melo Júnior, sem levar em conta a importante revisão que Lilia Moritz Schwarcz fez sobre o assunto em O Sol do Brasil: Nicolas-Antoine Taunay e as desventuras dos artistas franceses na corte de d.João (São Paulo, Companhia das Letras, 2008), talvez porque o lançamento dos dois livros praticamente coincidiu. E não tenha havido tempo para correções ou aditamentos.

Monteiro ainda informa à pág.216 que, ao embarcar em Lisboa para o Rio de Janeiro, o príncipe regente trazia consigo alguns dos melhores músicos da corte, mas não relaciona seus nomes nem diz em que nau teriam vindo como tampouco aponta qualquer fonte de arquivo que possa corroborar sua informação. Seria mais um palpite.

Mas, a título de colaboração, pode-se dizer que há passaportes passados em Lisboa, ao final do ano de 1809, para os músicos Antonio Pedro Gonçalves, João Mazzioti, Joaquim Antonio Gomes Calão (padre cantor), José Caparica, José Joaquim Borges (cantor) e Nicolau Heredia. E que, em 1812, chegaram ao Rio de Janeiro Simão Portugal (mestre de música) e os músicos de câmara Eugênio José Farnese, Policarpo José de Faria e Vicente de L. C., cujos passaportes estão no Arquivo Histórico Ultramarino (AHU), de Lisboa.

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