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Música e sociedade no período joanino

09.03.2009
 
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III

O que se lamenta é que o autor repita a informação de que, com a família real, viajaram para o Rio de Janeiro em 1807 entre 10 e 15 mil pessoas, dando-a como líquida e certa, sem apresentar, porém, fontes de arquivo que a comprovem efetivamente. E que também escreva que o Rio de Janeiro contava com cerca de 50 mil habitantes antes da chegada do príncipe regente e que o número triplicou a partir de 1808 e que quase dois terços eram formados por negros e mestiços, igualmente sem apresentar fontes confiáveis.

Se dois terços da população eram de negros e mestiços – ou seja, 30 mil --, a levar-se em conta os dados que apresenta, é de imaginar que, das naus que acompanharam d.João e nas demais que chegaram ao Rio de Janeiro em 1808 e 1809, tenha desembarcado – e permanecido na cidade – quase o equivalente ao que havia de população dita branca (porque se sabe também que muitos dos homens principais, filhos de portugueses chegados havia mais tempo, já não seriam tão brancos assim). Imaginar que isso tenha ocorrido é imaginar também que tenha acontecido um tumulto de grandes proporções na cidade do Rio de Janeiro que a documentação que se conhece não comprova, apesar da insistência com que aqueles que sempre defenderam essa tese procuram fazê-lo.

A professora Lilia Moritz Schwarcz, uma das mais brilhantes historiadoras da última geração, que sempre repetiu em seus livros essa informação pouco confiável, em A longa viagem da biblioteca dos reis (São Paulo, Companhia das Letras, 2002), já não se mostrou tão confortável assim com os números, depois que o arquiteto Nireu Cavalcanti, em sua tese de doutorado de 1997, transformada no livro citado acima, garantiu que, somando as listas de passageiros que constam de arquivo, vieram com o príncipe regente apenas 444 pessoas, entre as quais 60 membros da família real e da alta nobreza portuguesa “que chegaram ao Rio de Janeiro entre 1808 e 1809”.

Apesar de ter citado Cavalcanti, Lilia preferiu relacionar várias fontes em que se lê os mais disparatados números. Escreveu que o secretário do bispo Caleppi, “que a tudo assistiu de perto, avaliou que 10 mil pessoas embarcaram na esquadra real”. Citou também uma minuciosa listagem, que consta do arquivo do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil (lata 490, pasta 19) que relaciona nominalmente 536 passageiros, número que seria maior porque ao lado dos nomes dos passageiros muitas vezes vinham termos imprecisos como “e mais sessenta pessoas” ou “e outros”.

Observou ainda que o historiador J.M.Pereira da Silva (1817-1897), em época posterior, estimou que “cerca de 15 mil pessoas de todos os sexos e idades abandonaram neste dia as terras de Portugal”. E que um documento encontrado nos papéis de d.Rodrigo de Sousa Coutinho (1755-1812), o conde de Linhares, hoje constantes do acervo da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, que pretendia registrar os nomes dos nobres acompanhantes de d.João, apresenta ao final uma informação taxativa: “E mais 5 mil pessoas”. Sem deixar de acrescentar uma nota do tenente irlandês Thomas O´Neill, que acompanhou o embarque em Lisboa e a chegada ao Rio de Janeiro, segundo o qual teriam desembarcado de 16 a 18 mil súditos, incluindo quatro mil soldados da tropa.

Citou também o historiador contemporâneo inglês Kenneth Light que estimou que, naquele 29 de novembro de 1807, em Lisboa, poderiam ter embarcado de 12 a 15 mil pessoas. Mas há mais: o historiador J.Vieira Fazenda avaliou que em três meses a população do Rio de Janeiro aumentou em mais de 20 mil pessoas, enquanto para Rocha Martins (1879-1952) seriam 13.800 os recém-chegados, para A.K.Manchester, 10 mil, e para o sempre pouco confiável Luiz Edmundo (1878-1961), 15 mil. Em conclusão, Lilia preferiu mesmo ficar com a “verdade” consagrada pela historiografia oficial de que os viajantes teriam variado de 10 a 15 mil, embora não haja documento que, peremptoriamente, confirme o dado.

É certo que pelo menos três dos documentos acima citados são coevos do tempo do embarque da família real rumo ao Brasil, mas igualmente podem trazer estimativas exageradas. Não dá para acreditar, por exemplo, que O´Neill, que era oficial da marinha inglesa, embarcado num navio ancorado a quilômetros de distância do porto de Belém, tenha ficado de prancheta em punho a contar o embarque de milhares de viajantes. Esta é mais uma fantasia do tipo daquela segundo a qual d.Maria, que já não andava bem das ideias, teria dito na carruagem, descendo do Palácio da Ajuda para o porto de Belém, para que não corressem a fim de não dar a impressão de que estariam fugindo. Quem estava lá para saber se ela disse isso mesmo?

Já as demais são citações de historiadores que sempre fizeram do palpite o seu instrumento de trabalho, como ainda é muito comum nos dias que correm. Aliás, Luiz Edmundo já deveria ter sido “canonizado” como o santo padroeiro dos historiadores brasileiros por palpites, assim como Teófilo Braga (1843-1924) é dos portugueses.

IV

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