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O melhor livro de todos os tempos

05.08.2020
 
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O melhor livro de todos os tempos     

                            
Meu pai era um homem pobre e de poucas leituras, mas achava que os filhos só teriam uma vida melhor se dedicados aos estudos e o que mais simbolizava estudar para ele era o livro. Aos 14 anos, porém, eu estava muito mais interessado na descoberta do sexo e na possibilidade de praticá-lo numa companhia feminina. Mas, como naqueles idos de 1950, encontrar uma mulher disposta a essa empreitada exigia um investimento financeiro acima de minhas posses, o consolo estava naqueles pequenos e malfeitos" livros de sacanagem", que era preciso folhear escondido da família.


Por alguma razão, acabou caindo em minhas mãos o grosso volume do Il Decameron de Giovanni Boccaccio. Eram mais de 600 páginas, com pequenas histórias de padres e freiras que só pensavam em fornicar, de mulheres fogosas e maridos traídos. Com aquele livro nas mãos, era possível, usando agora uma expressão bem antiga, matar dois coelhos com uma só cajadada: o pai ficava satisfeito vendo o filho ler um livro com tantas páginas e o filho ficava mais ainda com aquelas histórias picantes.


Il Decamaeron, do renascentista Boccaccio poderia ter sido o melhor livro de todos os tempos, mas o seu reinando durou pouco. Depois que você pega a febre da leitura, não pára mais. Durante mais de 50 anos de leituras quase diárias, sobram muitos candidatos ao honroso título. Os americanos Steinbeck, de Vinhas da Ira,; Gore Vidal,do Império,;Norman Mailer, de A Canção do Carrasco e o melhor de todos, Philip Roth; tem os russos, como Tolstoi, de Guerra e Paz; tem os franceses, com os Caminhos da Liberdade, de Jean Paul Sartre e Jean-Christophe, de Romain Rolland, para não falar na maravilhosa biografia de Trotski, escrita por Isaac Deutscher e nunca esquecendo o nosso maravilhoso poeta Carlos Drummond de Andrade, com o Fazendeiro do Ar.


Tem aqueles autores que mostraram os descaminhos da sociedade capitalista, começando com Marx e continuando com Hosbsbawm , Werneck Sodré, Caio Prado Júnior e Jacob Gorender e tem aqueles que fizeram sonhar com suas histórias, como Hemingway, Howard Fast, , Dostoiewski, Ian McEwan, Stendhal e o grande Graciliano Ramos.


Qualquer um deles mereceria ser escolhido como o autor do melhor livro, mas há muito eu já sabia que o melhor livro de todos os tempos era Les Thibault, de Roger Martin Du Gard, da velha Editora Globo, na sua Coleção Nobel, em três volumes, de 1946, mas que só li pela primeira vez em 1956, quando estudava no Julinho.
O livro conta a história de uma família da alta burguesia francesa às vésperas da primeira guerra mundial. Enquanto o irmão mais velho, Antoine Thibault, se torna um médico bem sucedido, Jacques, o irmão mais jovem, se envolve com os movimentos socialistas que lutam para impedir o desencadear da guerra.


A guerra será responsável pela morte dos dois. Antoine, engajado com médico das tropas francesas, sofrerá um ataque com gás mostarda e morrerá pouco depois num sanatório. Jacques, num último ato de desespero contra a guerra que está começando, se dispõe a lançar panfletos sobre a frente de combate entre alemães e franceses, de um pequeno avião, com um apelo para que os soldados dos dois lados deponham suas armas. O avião será abatido, os panfletos queimados e Jacques, depois de uma longa agonia, morrerá como um traidor nas mãos dos soldados franceses.


A sua mensagem não será lida, mas serviria como um alerta para a nova guerra que já se aproximava, quando Roger Martin Du Gard escreveu seu livro, em 1936: "Que fizeram de vossa liberdade? De vossa consciência? De vossa dignidade de homens? Que fizeram de vossos lares? Que fizeram do único tesouro que um homem do povo tem a defender: a sua vida? O Estado Francês, o Estado Alemão, terão acaso direito de vos arrancar à vossa família, ao vosso trabalho, e de dispor do vosso próprio corpo, contra os vossos interesses pessoais mais evidentes, contra a vossa vontade, contra as vossas convicções, contra os mais humanos, os mais puros, os mais legítimos de vossos instintos? Quem foi que lhes deu, então, sobre võs, esse monstruoso poder de vida e de morte? A vossa ignorância. A vossa passividade. Um lampejo de reflexão, um sobressalto de revolta e podereis ainda ficar livres."

Marino Boeira é jornalista, formado em História pela UFRGS

 


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