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Beijar lábios cinzas

02.02.2009
 
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É verdade que são livros em que as opiniões de Borges sobre determinados temas se repetem. No diálogo com Meirelles, Borges diz ter sido autor de um livro único do qual os demais seriam variações ou meras repetições. Por isso, os temas não variam de definições para a alma dos argentinos ou sua identidade, tigres, labirintos, espelhos, armas brancas (facas), milonga, tango, os westerns e a épica do cinema, a mitologia escandinava e a épica anglo-saxã ou incluem referências a nomes que lhe sempre foram gratos, como Macedónio Fernández, Leopoldo Lugones, Adolfo Bioy Casares, Güiraldes, Sarmiento, Pedro Henríquez Ureña ou ainda evocações de Kipling, Evaristo Carriego e outros.

A partir do sobrenome Meirelles tão luso, Borges sempre evocava seus antepassados maternos portugueses, os Acevedos. Era sempre por aí que começava o diálogo entre os dois, recorda Meirelles. E essa era também uma rara vez que ele se referia a seus familiares ou a questões íntimas. De seu matrimônio, dificilmente, lembrava-se: “Quiero olvidarme de mis fracasos domésticos”, desculpava-se, dizendo que preferia falar de livros (daqueles que lera e dos que escrevera). “Éramos dois mundos distintos”.

A Meirelles, certo dia, Borges recordou o que lhe fizeram em 1946, à época do governo Perón, quando, por vingança, afastaram-lhe da direção de uma das bibliotecas municipais de Buenos Aires, nomeando-o inspetor de aves. É que o autor de Ficções nunca escondera o horror que sentia daquela gente peronista e seu populismo, deixando clara sua adesão ao ideário da Unión Democrática, que, afinal, como partido não passava de uma bela fantasia. Ele lembrou que um jornal daquela época questionou o burocrata que lhe fizera tamanha maldade, perguntando-lhe se acreditava que a pátria argentina progrediria muito se os escritores se dedicassem a cuidar de galinhas e os avicultores a escrever novelas.

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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br

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