Adilson Roberto Gonçalves
Inteligência Artificial (IA) parece um bicho estranho, mas é apenas um programa computacional que busca informações já existentes e consegue, por múltiplas interações de alta velocidade, dar respostas aparentemente mais complexas do que uma abordagem direta e simples por outros programas existentes.
Em vez de combatê-la, os cientistas descobrem que é melhor saber usá-la. Discuti isso recentemente em meu Blog dos Três Parágrafos (https://adilson3paragrafos.blogspot.com/2026/06/ponto-no-conto.html). Eu insisto em chamá-la de IDA – inteligência dita artificial – mas ciente de que o protesto não prosperará. Muito menos a sigla.
Em face das múltiplas respostas possíveis, é importante dizer claramente qual foi a pergunta ou a tarefa dada ou feita à IA (o chamado prompt), mencionando a ferramenta com esses condicionantes ao divulgar o resultado. Cada IA é diferente, tal qual as versões da Bíblia. Cada uma vai dar uma resposta diferente, dependente da versão.
A título de exemplo, vi isso acontecer com a questão do aborto na Bíblia – achei uma interpretação em que o aborto é permitido em uma situação específica. O fato faz-me lembrar que o comentarista do podcast Foro de Teresina, Celso Rocha de Barros, afirmou há alguns episódios que a Bíblia não trata do aborto. Na verdade, em Êxodo 21, versículo 22 está a mais controversa das passagens acerca do assunto, pois dá a entender que o aborto é questão menor em face da saúde da mulher. Sei disso porque já mencionei tal controvérsia em um jornal paulista e tomei bordoada cibernética de cristãos fanáticos. Sim, há outras traduções que trocam aborto por nascimento prematuro, mas fica o registro do que está em Êxodo 21:22, cuja fonte foi a ACF Bíblia Online:
“Se alguns homens pelejarem, e um ferir uma mulher grávida, e for causa de que aborte, porém não havendo outro dano, certamente será multado, conforme o que lhe impuser o marido da mulher, e pagará conforme aos juízes.”
De qualquer forma, voltando à IA, o que não se pode fazer é atribuir a IA a uma entidade sobrenatural ou “alguém” com quem se possa dialogar profundamente, discutir metafísica ou resolver problemas pessoais psicológicos. No entanto, os múltiplos relatos de pessoas que se curvam à IA deixam a dúvida se ela não está se transformando em um deus digital. Criação por criação, são todos humanos e cheio de contradições e versões.
Adilson Roberto Gonçalves, pesquisador na Unesp, Rio Claro-SP
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