Author`s name Timothy Bancroft-Hinchey

20 anos sem Tarkovski

Andrei Tarkovski foi, sem dúvida, um dos maiores cineastas de todos os tempos. Filmes como Andrei Rublyov, Solaris, Stalker e O Sacrifício são mundialmente reconhecidos como obras-primas. Tarkovski é o único diretor soviético capaz de rivalizar com o pioneiro Serguei Einsenstein.

Andrei Tarkovski foi, sem dúvida, um dos maiores cineastas de todos os tempos. Filmes como Andrei Rublyov, Solaris, Stalker e O Sacrifício são mundialmente reconhecidos como obras-primas. Tarkovski é o único diretor soviético capaz de rivalizar com o pioneiro Serguei Einsenstein.

No dia 29 de dezembro, farão 20 anos da morte de Tarkovksi, de câncer pulmonar, longe de seu país e de quase todos seus amigos e parentes, com apenas 54 anos de idade.

Embora sem nenhum interesse por temas políticos, Tarkvoski teve problemas com o regime soviético. Algumas vezes, Tarkovski não era proibido de realizar seus filmes, mas sim de exibi-los: foi o que aconteceu com Andrei Rublyov (1966), filme bastante religioso sobre o pintor medieval de ícones, que demorou 5 anos para estrear na URSS.

Mas a causa do conflito talvez fosse exatamente porque ele era tão apolítico: Tarkovski não se importava com temas sociais, mas sim com questões religiosas e espirituais, o que o punha em conflito com um regime oficialmente ateu. Era um russo do século XIX, com as mesmas preocupações morais e místicas de Tolstoi e Dostoievski, perdido na União Soviética: estava conviencido de que nossos problemas não são polìticos ou econômicos, mas devido a nossa falta de valores morais e espirituais.

Algo que atesta a espiritualidade de todos os filmes de Tarkovksi é que nada menos que 5 de seus filmes estão numa lista dos 100 filmes mais espiritualmente relevantes, elaborada por um fórum de discussão sobre arte e religião (http://artsandfaith.com/t100/). Os filmes de Tarkovski presentes são Andrei Rublyov (10ª posição), Stalker (22ª), O Sacrifìcio (35ª), O Espelho (62ª) e Solaris (67ª). De acordo com essa lista, Tarkovski é o diretor mais espiritual de todos os tempos, pois nenhum outro tem tantos filmes presentes.

Seus filmes requerem muita paciência dos espectadores: são longos e lentos. Quem está acostumado com o ritmo alucinante dos filmes de ação atuais vai ter muita dificuldade com Tarkovski. Mas quando nos acostumamos ao seu ritmo, e imergimos na contemplação à qual nos convida, o resultado é muito compensador: pouquíssimos cineastas conseguem transmitir uma experiência espiritual tão intensa. O genial Ingmar Bergman afirmou que viu nos filmes de Tarkovski o que ele mesmo tentou em vão expressar. Exagero: Bergman foi outro grande cineasta espiritual, e conseguiu expressá-lo muito bem; mas sua admiração por Tarkovski atesta a grandeza do diretor russo.

Apesar dos problemas com as autoridades soviéticas, Tarkovski conseguia fazer seus filmes, embora bastante menos do que gostaria, e até mesmo teve a possibilidade de realizar o mais caro filme russo, Solaris (1972). Esta ficção-científica é erroneamente considerada “a resposta soviética ao 2001- Uma Odisséia no Espaço”. Tarkovski assistiu ao filme de Kubrick, e não gostou: afirmou que é um filme “estéril e frio”. E realmente, enquanto o 2001 lida com temas metafísicos (basicamente buscando responder às antigas perguntas “Quem somos?”, “De onde viemos?” e “Para onde vamos?”), Solaris é um filme sobre sentimentos, e repleto deles: saudade, medo ao desconhecido, culpa e anelo de redenção.

Tarkovski reclamava que tinha poucas oportunidades de fazer filmes, e que tinha muitas idéias que não lhe permitiam concretizar. Ele realizou apenas 7 filmes, além de alguns curtas e médias metragens que fez quando era estudante de cinema. A censura soviética, a partir de Khrushchov, já não era mais como na época de Stalin: não se perseguia, prendia ou matava dissidentes, mas dava pouca possibilidade de expressão àqueles que não assumiam a ideologia oficial. Tarkovski, diferentemente de outros grandes artistas soviéticos da geração anterior, como Shostakovitch, Mayakovski e Eisenstein, nunca esteve sob o perigo de ser preso ou perder a vida. Mas sofria constantemente limitações a suas obras, principalmente quanto a verbas para produção e exibição.

Stalker (1979), o último filme que ele fez na União Soviética, é ainda mais supreendente: Tarkovski conseguiu realizar e lançar um filme que tem uma visão pessimista do futuro, contrário à ideologia oficial soviética, que acreditava no triunfo do socialismo e na constituição de uma sociedade perfeita; que mostra a poluição, o lixo e a feiúra causados pela sociedade industrial, quando a URSS perseguia a industrialização a qualquer custo, sem considerações ambientais; e que, apesar de estar disfarçado de ficção científica, é na verdade um filme sobre a iniciação mística, profundamente religioso. Tudo isso prova que, apesar de tudo, havia uma certa tolerância a opiniões diferentes da oficial, na URSS antes de Gorbatchov, embora sem dúvida fossem desencorajadas.

Em 1983, Tarkvoski fez um filme na Itália, Nostalgia. Há muitos anos ele pensava na possibilidade de exilar-se na Europa ocidental, e depois de terminado o filme decidiu não retornar à URSS. Sua esposa estava com ele, mas seu filho ficou na União Soviética, e Tarkovksi nunca mais o encontrou: seus pedidos para que lhe autorizassem ir visitar seu filho, ou para que este pudesse emigrar, foram todos negados.

Na Europa, porém, Tarkvovski deparou-se com o mesmo problema: também ali os estúdios não queriam produzir e lançar seus filmes. Ele realizou apenas mais uma obra na Europa, concluída poucos meses antes de sua morte, O Sacrifício (1986), filmado e produzido na Suécia, graças ao apoio de Ingmar Bergman. Também no chamado “mundo livre”, Tarkvovski não encontrou a liberdade de criação que buscava: os estúdios consideravam seus filmes pouco atraentes ao grande público, e com poucas possibilidades de lucro.

Tarkovski morreu em dezembro de 1986, de câncer, sozinho em Paris. O Sacrifício termina com uma nota pessoal comovedora: uma dedicatória a seu filho, “com fé e esperança”. Infelizmente, a esperança nunca se concretizou, e Tarkovski morreu sem voltar a ver seu filho. Foi realmente uma tragédia, tanto artística quanto pessoal: teve poucas oportunidades de realizar filmes, e poderia ter legado muitas outras obras geniais. Se tivesse vivido mais, poderia ter se beneficiado da abertura promovida por Gorbatchov (que havia assumido há 1 ano, e estava apenas começando a implementar suas reformas): poderia ter voltado à URSS, reunido-se com seu filho e demais parentes, e talvez tivesse maior apoio oficial para realizar seus filmes.

Por outro lado, o diretor estadunidense Stanley Kubrick era criativo, personalista, e muitas vezes ousado e polêmico. Que cineasta hoje conseguiria produzir um filme em que um oficial norte-americano inicia a Terceira Guerra Mundial, como o Doutor Fantástico? Ou então um filme caríssimo, obscuro, longo e quase sem diálogos como o 2001?

Kubrick tinha poder absoluto sobre suas obras: o 2001 foi o filme mais caro já feito até então, mas a MGM (estúdio que o produziu) nem sequer pôde ler um roteiro completo, e seus executivos não tinham acesso às filmagens. Quando da première, Kubrick disse que 207 pessoas saíram da sala, entre elas os altos executivos da MGM, quando viram que haviam “desperdiçado” seu dinheiro num filme que eles consideravam condenado ao fracasso comercial. Contrariando a previsão desses executivos (e também como uma evidência esperançosa de que nem sempre o grande público tem mau gosto) o filme teve um imenso sucesso.

Sem dúvida, era isso o que Tarkovski almejava, e foi a oportunidade que ele nunca teve: que lhe dessem dinheiro e recursos para fazer seus filmes, e não interferissem na criação; porém, o caso de Kubrick, um diretor brilhante a quem os estúdios davam liberdade irrestrita, é único. Embora disfrutasse de maior liberdade na Europa ocidental, nem por isso Tarkovski teve melhores condições de trabalho. A liberdade de expressão e a ausência de uma ideologia oficial que limite a arte são instituições fundamentais, que infelizmente nunca foram colocadas em prática na URSS antes de Gorbatchov. Mas a vida e carreira de Tarkovksi mostram que apenas isso não garante que um artista poderá desenvolver plenamente sua arte: a exigência de lucro, por parte da indústria cultural nos países liberais, pode ser tão sufocante e destruidora quanto a censura.

Nota: para os que querem conhecer Tarkovski, há alguns anos foram lançados no Brasil todos seus filmes em DVD (os 7 longas mais o último de seus filmes como estudante, O Rolo Compressor e o Violino), com muitos extras, há alguns anos, pela Continental. Já estão esgotados, mas causalmente é possível encontram alguns dos filmes à venda.

Uma excelente fonte de informação sobre Tarkvoski é a página de internet Nostalghia (http://www.ucalgary.ca/~tstronds/nostalghia.com/index.html). Há fotos, entrevistas, trechos dos seus diários, comentários sobre seus filmes, artigos escritos pelo próprio cineasta, e alguns ovos de páscoa (materiais ocultos). Falta apenas uma biografia de Tarkovski, para estar realmente completa.

Carlo MOIANA

Pravda.ru

Buenos Aires

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