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Federação Russa

Oito anos de Putin na Presidência Russa: Um balanço

27.02.2008
 
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Mas o desacordo surgiu quando, no final de 2002, os EUA decidiram invadir o Iraque, e a Rússia foi um dos mais fortes opositores, junto com a Alemanha e a França.

Outra fonte de conflitos foi a campanha iniciada por Washington para atrair os países da CEI, até então sob influência econômica e política russa. Tudo indica que os EUA querem que estes países também ingressem na OTAN, cuja expansão rumo aos antigos membros do Pacto de Varsóvia (iniciada no fim do governo de Bill Clinton) já chegou aos países da ex-URSS (Lituânia, Estônia e Letônia já são membros). Seguindo esta mesma política, no ano passado os EUA anunciaram sua intenção de construir um sistema de defesa anti-mísseis na Europa, mais especificamente na Polônia e República Tcheca, e embora as autoridades norte-americanas tentem persuadir Moscou de que este sistema não busca alterar o equilíbrio estratégico na Europa, os russos não se convencem (algumas declarações dos antigos primeiros ministros tcheco e polaco só confirmam as suspeitas de Moscou, ao afirmarem abertamente que este sistema na verdade serve para protegê-los contra uma suposta ameaça russa - 31).

Diante desta ofensiva norte-americana, algumas das reações da Rússia terminam sendo contraproducentes e refletem ainda uma mentalidade típica da guerra fria. Por exemplo, a Rússia colocou em moratória o tratado de forças convencionais na Europa, que limita a quantidade de armamentos neste continente. Por um lado, esta ação não tem nenhuma conseqüência prática, pois nenhum dos países da OTAN ratificou este tratado e não o seguem – Rússia, Ucrânia, Bielorrússia e Cazaquistão foram os únicos a fazê-lo. Também, é uma moratória e não um cancelamento do tratado, pois Moscou ainda tem esperanças que a OTAN faça-o valer. Mas por outro lado, este tipo de ação dá argumento àqueles que buscam mostrar a Rússia como um país belicoso.

Mais inteligente foi a reação do governo russo à decisão dos EUA de construir o sistema anti-míssil na Europa: propôs o uso conjunto de um radar de monitoração de mísseis que a Rússia opera no Azerbaijão, uma alternativa construtiva e mutuamente vantajosa, melhor que basear-se na antiga lógica da guerra fria de ameaças e escalada militar. Seja como for, os EUA praticamente rejeitaram esta proposta, pois preferem ter um sistema anti-mísseis exclusivamente seu.

Rússia e EUA também estão em desacordos sobre o programa nuclear iraniano. Embora a Rússia também se preocupe com a possibilidade de que este país desenvolva armas atômicas, é menos alarmista que os norte-americanos e não vê problemas em que o Irã tenha usinas nucleares para geração de energia. Porém, na questão mais importante, ambos estão de acordo e se opõem ao programa iraniano de enriquecimento de urânio, que pode ser usado para produzir armas nucleares.

Há desacordos importantes entre a Rússia e os EUA, mas não são insuperáveis. Não há uma nova guerra fria, como muitos crêem, porque a Rússia não tem condições de competir econômica e militarmente com os EUA como potência global, e nem pretende fazê-lo. A estratégia russa é o multilateralismo: fortalecer suas alianças com outros países importantes, e assim diminuir o poder de decisão unilateral dos EUA sem confrontá-los diretamente. Putin explicou abertamente isso numa entrevista franca à revista Time em dezembro último (disponível na página da presidência russa, 32).

Por fim, no ano passado Putin deu grande publicidade à antiga reivindicação russa de uma parte importante do mar Ártico como zona econômica exclusiva. A Rússia não é o único país que reivindica parte dessa região (os outros são os EUA, Canadá, Dinamarca e Noruega), mas o envio de uma missão científica ao fundo do Ártico (colocando também uma bandeira russa de titânio) atraiu a atenção da opinião pública mundial e mostrou a capacidade técnica da Rússia de explorar e controlar essa inóspita região.

Problemas por resolver

O próximo presidente russo governará um país incomparavelmente mais estável e fortalecido que o que Putin recebeu há apenas 8 anos. Porém, ainda há problemas graves por resolver. Segundo a organização Transparência Internacional, a Rússia é o 143º país menos corrupto, numa lista de 179 (33). É preciso tomar com cautela este dado: sendo impossível medir objetivamente a corrupção, este relatório é baseado na percepção que 10 organizações internacionais têm da transparência e honestidade do governo e das instituições estatais de cada país, não levando sequer em conta a opinião de pessoas que vivem nos países pesquisados. Seja como for, há muita corrupção na Rússia, e o próprio presidente Putin admitiu isto (32).

Também existem imensas desigualdades econômicas e sociais entre Moscou e o resto do país: a zona urbana da capital russa contribui com um terço de todo o PIB nacional, tendo apenas 10% da população. Embora a situação em muitas regiões tenha melhorado nos últimos anos, estão longe de apresentar o mesmo dinamismo que Moscou. Isto se deve a um sistema administrativo que, embora seja uma federação segundo a constituição, na prática é demasiado centralizado. Também está crescendo o número de crimes étnicos contra pessoas consideradas “não eslavas”, principalmente em Moscou. Para um país enorme, estendendo-se do Báltico ao Pacífico e com mais de cem povos distintos, o centralismo e a intolerância são graves ameaças.

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