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Federação Russa

Oito anos de Putin na Presidência Russa: Um balanço

27.02.2008
 
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Temas polêmicos

Aparte dos sucessos, nenhum balanço da administração Putin poderia deixar de analisar os temas que causam críticas a seu governo, principalmente no exterior. Algumas destas críticas têm fundamento, outras são exageradas, e outras por fim são simplesmente infundadas.

Um dos temas mais fortes é o da concentração de poder e enfraquecimento da oposição. Não há dúvida que a oposição é muito frágil, e que algumas ações do governo contribuem a isto, mas a causa principal é a ausência de propostas que atraiam a população. Há basicamente dois grupos de oposição a Putin: a esquerda (representada principalmente pelo Partido Comunista, até muito recentemente o mais forte da Rússia) e a direita (Yabloko e União das Forças de Direita, dentre outros partidos menores), cujas propostas trazem à lembrança dos russos a estagnação e a repressão do período soviético, ou o caos e decadência das reformas liberais. Putin conseguiu renovar o ambiente político russo, superando estas duas propostas, e criou um novo modelo – que nunca foi bem teorizado ou explicado (“democracia soberana” é o termo mais usado), mas o que importa para a grande maioria da população é que está funcionando. A oposição continuará debilitando-se, independente de qualquer ação do governo, enquanto não crie uma alternativa que atraia os russos.

Isto ficou demonstrado nas eleições legislativas do ano passado: o governo foi criticado por dificultar o acesso de partidos opositores, subir o número mínimo de votos para conseguir cadeiras no parlamento (de 5% a 7%), diminuir a quantidade mínima de eleitores para considerar o pleito válido, e pelo apoio do estado ao partido Rússia Unida, que obteve mais de 60% dos votos. Mas apenas a última crítica é realmente válida, já que nenhum partido (além dos quatro que conseguiram cadeiras no parlamento) sequer chegou a 3% dos votos (19), e isto embora o número de eleitores que participaram do último pleito tenha sido maior do que no anterior (20). Há fortes indícios de irregularidades nestas eleições (como, por exemplo, que Rússia Unida tenha recebido 99% dos votos na Tchetchênia), mas não de que os resultados sejam universalmente inválidos. As últimas eleições confirmaram que a oposição na Rússia é frágil não tanto por obstáculos antepostos pelo governo (existem mas não são insuperáveis), mas porque não tem apelo entre a grande maioria da população.

O movimento “Outra Rússia” é o grupo opositor que mais seduz o ocidente e atrai a atenção dos meios de comunicação, que o mostram como uma agrupação de forças liberais contra o regime Putin. Não é totalmente verdade. É um grupo amorfo, onde existem partidos e organizações que defendem a democracia e os direitos humanos, mas também as extremas direita e esquerda, inclusive o polêmico (e proibido) Partido Nacional-Bolchevique (um Frankenstein formado de restos marxistas e nazistas). Eles não compartem nenhuma ideologia, valores ou propostas comuns, e a única coisa que os une é a oposição ao governo atual. Partidos de oposição mais coerentes, como Yabloko e o Comunista, se recusaram a unir-se a esta coalizão.

Seja como for, “Outra Rússia” ganha bastante espaço nos meios ocidentais, graças a suas marchas de protesto e a ação policial que quase sempre se segue. Nada justifica a repressão contra manifestantes desarmados, mas também é preciso dizer que os membros de Outra Rússia propositadamente realizam marchas onde não receberam autorização e cortam o trânsito em Moscou ou São Petersburgo, buscando provocar a ação policial. Considerando que quase não tem apelo entre a população, esta parece ser sua principal tática para chamar a atenção (21). Além disso, as autoridades não reprimem só as marchas não autorizadas de movimentos da oposição: em janeiro alguns membros do grupo Nashi (Nossos, em russo), pró-Kremlin, foram detidos e sua organização recebeu uma multa por protestar em frente de uma representação da União Européia sem autorização (22).

Um discurso do presidente pouco antes das eleições parlamentares também revelou um desprezo pela oposição, ou pelo menos parte dela, ao afirmar que os opositores querem regressar aos tempos da URSS ou ao caos da década de 90, e que estão ao serviço de potências estrangeiras (23). Embora provavelmente exista ingerência ocidental na política interna russa (disfarçada de “ajuda para fortalecer a democracia”, assim como houve na Geórgia e na Ucrânia recentemente), acusar a oposição de trair seu país e afirmar que apenas seu partido pode criar uma Rússia forte é uma atitude pouco democrática, que utiliza o medo da população de retornar aos graves problemas enfrentados há tão pouco tempo.

Mas é preciso acrescentar que tal manipulação emocional não é incomum também em países tidos como plenamente democráticos.

Um tema que nem deveria ser tratado neste texto, pois pertence aos anais criminais e não políticos, é o dos assassinatos do ex-agente do FSB (o serviço de segurança estatal, uma das agências que substituíram a extinta KGB) Aleksandr Litvinenko e da jornalista Anna Politkovskaya. Ambos eram muito críticos do atual governo, e esta circunstância basta para muitos considerarem Putin (ou algum alto membro do governo) culpado da suas mortes. O caso Litvinenko (morto em novembro de 2006 em Londres, onde estava exilado desde 2000, envenenado com uma substância altamente radioativa,

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