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Onde está a verdade na história?

01.07.2020
 
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ONDE ESTÁ A VERDADE NA HISTÓRIA?


Como a História é sempre escrita pelos homens, é normal que ela sempre tenha mais de uma versão. Como saber qual a verdadeira?
Alguém já disse que a História é sempre escrita pelos vencedores, mas isso não impede que ela seja mudada.


Solano Lopes era um ditador sanguinário que não respeitava os direitos dos seus vizinhos e por isso foi preciso que Brasil, Argentina e Uruguai, financiados pela Inglaterra, o derrubasse do poder no Paraguai numa guerra de uma selvageria incrível.


Quando Júlio José Chiavenato publicou em 1988, seu livro Genocídio Americano – a Guerra do Paraguai, o que já era uma possibilidade para alguns autores argentinos e paraguaios, de que Lopes foi acima de tudo um nacionalista que contrariou os interesses ingleses, passou a ser, no mínimo, discutida também no Brasil.


Bento Gonçalves sempre foi cultuado como o grande herói da Revolução Farroupilha, até que o historiador Tau Golin o classificou de o Herói Ladrão. O grande chefe revolucionário, além de escravista, era também ladrão de cavalos.


Aliás, apesar de “cantarmos sempre nossas façanhas”, como diz o Hino Rio Grandense, paira também sobre os farrapos outra nódoa que a História oficial não gosta de lembrar. É o famoso episódio do Cerro dos Porongos, quando David Canabarro, teria desarmado os Lanceiros Negros, permitindo que fossem dizimados pelas tropas do Duque de Caxias, evitando com isso que precisasse cumprir a promessa de libertar da escravidão os soldados negros.


Nenhum personagem, porém, desceu tanto do Panteão dos Heróis para o lixo da História como Stalin.


Quando morreu em 1953, aos 75 anos, Iossif Vissarionovitch Djugashuil, ou simplesmente Stalin, era o grande herói da União Soviética, o vencedor inconteste da Segunda Guerra Mundial e pela sua morte choraram milhões de pessoas no mundo inteiro.


Políticos, como Churchill, Harold Laski e De Gasperi e escritores como Isaac Deutscher, Norberto Bobbio e Thomas Mann, ressaltaram seu papel fundamental na luta contra o nazismo e na modernização da União Soviética.


De repente, tudo mudou. A partir do relato feito por Nikita Kruchiov, durante o XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética, em 1956, Stalin passou a ser o oportunista, que traiu o legado de Lênin, perseguiu seus camaradas, armou complôs para destruir toda a oposição, acabou com a democracia interna no Partido Comunista, se transformou num ditador e quase provocou a derrota na guerra contra a Alemanha pela sua falta de conhecimento sobre estratégias militares.


Para conhecer essas versões, dois livros são fundamentais.


Primeiro, “Stalin e a Corte do Tzar Vermelho”, do jornalista e historiador inglês, Simon Sebag Montefiore, um livro que se alia à corrente de denúncias contra Stalin. Aproveitando, não apenas as revelações de Kruchiov, mas a abertura de arquivos russos com o fim da União Soviética, Montefiore mostra os bastidores do Kremlin, com todas as intrigas, perseguições e uso da força para calar os inimigos, processos patrocinados por um ditador, que gostava de livros, de música, de cinema, mas que era também um burocrata, paranoico e implacável com seus inimigos, verdadeiros ou criados pela sua imaginação.
Nas páginas do livro de Montefiore, desfilam personagens que a história registra como figuras importantes na vida soviética, como Molotov, Malenkov, Vorochilov, Kamenev, Zinoviev, Kirov, Yagoda, Béria e Kruchiov, mas, a acreditar no autor, não passavam de marionetes manobrados por Stalin.


Um livro muito interessante, mas que as vezes parece mais uma obra de ficção do que de um documento histórico.


O segundo livro recomendado parase tentar encontrar a verdade sobre o líder soviético é “Stalin – História Crítica de uma Lenda Negra”, de Domenico Losurdo, professor de história e filosofia na Universidade de Urbino, na Itália. O livro, extremamente documentado, vai numa linha totalmente oposta do que afirma Montefiore, fazendo um grande esforço para recuperar a imagem de Stalin como o vencedor da segunda guerra mundial e o líder da transformação da União Soviética na grande potência mundial, que foi durante alguns anos.
A partir de uma análise do famoso relatório de Kruchiov, apontado pelo autor como um grande oportunista que conseguiu sobreviver a todos os expurgos promovidos por Stalin, Losurdo busca relativizar as diversas versões sobre Stalin.


Diz ele: “O contraste radical entre as diversas imagens de Stalin deveria levar o historiador não mais a absolutizar uma, mas a problematizar todas elas.


Para quem gosta de cobrar dos historiadores uma posição mais próxima das ciências exatas, fica a lição de que, além dos documentos nos quais ela deve se basear, resta um terreno pantanoso onde se movem as convicções ideológicas dos autores, que acabam sempre interferindo no resultado final de qualquer trabalho histórico


Marino Boeira é jornalista, formado em História pela UFRGS


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