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A felicidade e o homem-máquina

26.05.2008 | Fonte de informações:

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Programa da TV Globo incorpora a idéia do "homem-máquina" e torna evidente o processo de degradação de valores como 'felicidade' e 'simplicidade'. No filme "Muito Além do Jardim", temos uma pista sobre como nos perdemos, viramos uma farsa e a tornamos coletiva - inviabilizando para grande parte das pessoas uma reação eficaz. Por Gustavo Barreto (*).

O apresentador Luciano Huck teve recentemente uma experiência-limite, muito triste e desgastante para qualquer brasileiro. Um assalto à mão armada. Prontamente foi publicado em um grande jornal de São Paulo seu artigo-desabafo: "Pensamentos quase póstumos" (Folha de S. Paulo, 01/10/2007).


Huck alerta aos leitores que foi assaltado e poderia, naquele momento, estar morto – o que causaria uma série de conseqüências importantes, entre as quais não ver nunca mais seu segundo filho, deixar "uma multidão bastante triste", "um governador envergonhado" e "um presidente em silêncio". Foi uma tentativa de roubar o seu Rolex – grife de relógios que custam pelo menos 5 mil reais e até 50 mil reais.
Ele argumenta: "Provavelmente não tiveram [os assaltantes] infância e educação, muito menos oportunidades. O que não justifica ficar tentando matar as pessoas em plena luz do dia (sic). O lugar deles é na cadeia."


Neste artigo, Luciano aponta porque considera importante o "desabafo" – como classifica seu texto – e porque estava "envergonhado" e "revoltado". São basicamente cinco pontos: (1) Ele paga impostos: "(...) como cidadão paulistano, fico revoltado. Juro que pago todos os meus impostos, uma fortuna. E, como resultado, depois do cafezinho, em vez de balas de caramelo, quase recebo balas de chumbo na testa"; (2) Ele passa o "dia pensando em como deixar as pessoas mais felizes", no que argumenta: "TV diverte (...)"; (3) Ele passa "o dia pensando em como tentar fazer este país mais bacana": "(...) a ONG que presido tem um trabalho sério e eficiente em sua missão"; (4) O prazer dele "passa pelo bem-estar coletivo": "(...) não tenho dúvidas disso"; (5) Ele é "alguém que de alguma forma dirigiu sua vida e sua energia para ajudar a construir um cenário mais maduro, mais profissional, mais equilibrado e justo (...)". (original aqui)


Homem-lata


Este mesmo apresentador Luciano tem um quadro desta safra que "diverte", fruto do dia que ele passa "pensando em como deixar as pessoas mais felizes". O quadro "Lata Velha" é, na prática, uma troca: a equipe de Huck reforma (e melhora substancialmente) o carro de alguma pessoa transformada em personagem pela produção e, do outro lado, esta personagem tem que dançar, cantar ou fazer qualquer coisa na TV.


No último, em 24 de maio, um cidadão de João Pessoa teria que dançar Michael Jackson e, efetivamente, "rebolar". A proposta foi prontamente aceita não só pelo participante, como também por sua namorada e toda a população em volta, durante a gravação na capital da Paraíba. O carro, afinal, precisava de reformas. Quem tem o dinheiro para fazê-lo dá as ordens, expressas pelo apresentador, aquele que "pensa nas pessoas mais felizes" e que "de alguma forma dirigiu sua vida e sua energia para ajudar a construir um cenário mais maduro, mais profissional, mais equilibrado e justo (...)". Ordena ele: "Você vai ter que rebolar" (Luciano Huck, TV Globo, 24/05/2008, por volta de 15h45, e repetidamente até 16h15).


Não é um tema para poucas linhas, mas é notável a matriz religiosa de seu discurso após o roubo: durante quase todo o artigo, Luciano busca deixar claro que tem crédito pelo que se proclama como benfeitor e, de forma alguma, uma dívida. Ele tem um "crédito" conquistado e, portanto, não mereceria "um 38 na testa".


Cadeia nacional


"Uma multidão bastante triste", adiciono, é a multidão de pessoas que, como eu, ficam deprimidas com o fato de que o trabalho de milhões de pessoas sérias, milhões de brasileiros comprometidos com a educação e a saúde das pessoas, passem a vida toda no mais completo anonimato, sem qualquer espécie de reconhecimento "em cadeia nacional". Alguns têm, efetivamente, destino diverso: a cadeia Stricto sensu, a prisão. Outros estão metaforicamente presos dentro de uma lógica que sufoca milhares de grupos organizados sem acesso à opinião pública – os sem-mídia.


Foi Luciano Huck que, hoje, pensando no mesmo conceito – felicidade – levou um cidadão paraibano (que aceitou de bom grado, por sua vez) para a televisão de modo a – citando – "rebolar em cadeia nacional e, depois, ter de voltar para a Paraíba, terra de cabra machos" (...) "esse paraibano macho, de batom (...) aqui do meu lado, com a mãe e com a irmã" (Luciano Huck, idem). É o mesmo apresentador que "de alguma forma dirigiu sua vida e sua energia para ajudar a construir um cenário mais maduro, mais profissional, mais equilibrado e justo (...)".

 
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