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Bem-vindo à casa de Cascudo

11.01.2010 | Fonte de informações:

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Quase dava para sentir o cheiro de café vindo de dentro da casa. Mas era imaginação. Subir as escadas amarelas com faixas vermelhas contornando os nossos passos é como chegar num outro mundo, imenso. Entrar na casa que pertenceu a Câmara Cascudo por mais de 40 anos é reviver um pouco de seus hábitos e de sua história, além de ter a oportunidade de ver de perto objetos raros seus como a máquina Remington – a que ele escreveu maior parte de seus livros - e também ler todas as assinaturas nas paredes azuis registrando que passou por ali Heitor Villa-Lobos, Gilberto Freyre e uma infinidade de letras igualmente raras.


Para entrar, o visitante paga apenas R$ 2 reais (sendo R$ 1 real para estudante) e tem acesso a este universo. Na varanda, instruções importantes sobre a visita como a autorização para fotografar (sem flash) e filmar e os horários de visitação, constando na plaquinha de terça a sábado, das 9h até as 17h, inclusive feriados, como aconteceu ontem durante a visita

A sala dos amigos
A sala de entrada ou sala de piano é o primeiro cômodo de acesso ao resto da casa. Fotografias de seus amigos ilustres como Monteiro Lobato, Henrique Castriciano e Jorge Amado fazem parte da coleção de imagens. Lá, podemos ler a dedicatória de Monteiro Lobato para Cascudo escrita em letra cursiva em cima da imagem de sua própria testa, “uma boa testa para levar um cascudo amigo”. Logo abaixo das fotos (que ocupam toda a parede frontal), um conjunto mobiliário de jacarandá entalhado que pertenceu a Pedro Velho de Albuquerque Maranhão, fundador da República no RN é de encher os olhos. “Foi um presente ao pai de vovô e ele herdou. O móvel estava em tão bom estado que fizemos a reforma somente na parte acolchoada de veludo”, contou Daliana. Foi ela, a neta do folclorista e administradora do espaço, quem guiou a equipe do VIVER por toda a visitação.


Sempre mantendo a originalidade de tudo o que habita a casa como janelas, móveis e quadros – por isso a demora de quatro anos para ser restaurada – o passeio por dentro da história é agradável e parece nos transportar no tempo. A sala de entrada dá acesso a um dos espaços mais desejados pelos leitores de Cascudo — o lugar que foi sua biblioteca, sendo que hoje os livros foram transportados para outro espaço da casa, para manter a visualização das assinaturas de todas as personalidades que chegavam por lá. “A gente optou por colocar toda a biblioteca em outro lugar para que os visitantes pudessem observar melhor as assinaturas”. Essa era uma marca de Cascudo. Cada pessoa que chegava em sua biblioteca assinava com grafite nas paredes e colocava ao lado a data em que esteve. Para entrar neste lugar “sagrado”, Dorian Gray pintou ao lado da porta, em 1955, um cangaceiro colorido, recentemente restaurado pelo próprio artista. Somos acompanhados neste cômodo por três imagens de santos, São Sebastião, São Francisco de Pádua e São José de Bota. São eles três, em tamanho grande, que protegem a máquina remington posicionada na mesa em que Cascudo escrevia seus livros e pensamentos. Junto às letras de homens e mulheres raras como Juscelino Kubitschek, Gilberto Freyre, Malba Yahan, Dorival Caymmi, Luiz Gonzaga, Mário de Andrade, Djalma Maranhão, entre tantos outros, também nos deparamos com acordes de Aquarela do Brasil desenhados por Ary Barroso em 1954.


O ambiente abrigou a biblioteca particular de Cascudo, composta por 10 mil volumes, além de 15 mil correspondências, 2 mil periódicos, 1.700 separatas, 1.200 plaquetes, 2 mil fotografias e 1 mil artigos de jornais e diversos documentos que agora estão no andar construído fora da casa com o nome da esposa de Cascudo, dona Dáhlia Freire. (para lá iremos depois...)


A biblioteca: Coleções de várias partes do mundo
Saindo da biblioteca, entramos no Espaço das Coleções de Cascudo. Ao todo são 766 peças adquiridas em viagens para construção de seus livros e peças que seus amigos lhe presenteavam. Para manter um dinamismo na casa, Daliana explica que a cada dois meses serão expostas duas coleções, nas duas estantes de vidro colocadas no cômodo. As deste mês são “Etnografia Indígena” e “Peças da África”, estas foram recolhidas por Cascudo em 1963 em sua viagem pela África enquanto escrevia o livro “História da Alimentação no Brasil”. A Etnografia indígena reúne cerâmicas, cestarias, artefatos, adornos e cerâmicas utilitárias trazidas de aldeias. Junto às peças, podemos ver obras importantes de sua pinacoteca como as de Moura Rabelo.

A sala de visitas: mesa posta
Na sala de visitas da casa uma mesa enorme de jantar parece estar à espera de Cascudo para quando a noite chegar. É impressionante como a Casa guarda a atmosfera de vida pura, as lembranças. Próximo à mesa, cadeiras de balanço e uma cristaleira com alfaias de porcelana fazem um passeio com os olhos. Dá vontade de tocá-las, mas não pode, claro. Com as mãos controladas, guiamos o olhar para a outra cristaleira. Lá a reserva das mais de 100 comentas que Cascudo recebeu na vida, inclusive a do Vaticano. E é só subir os olhos para encontrarmos mais obras de arte posicionadas próximas ao teto. Um olhar mais atento para baixo e nos deparamos com ladrilhos hidráulicos formando figuras geométricas que parecem saltar os olhos. 


Em cada canto uma história


O quarto ao lado é o que a própria Daliana e sua irmã Camila dormiam. “É muito forte estar aqui neste cômodo. Aqui eu sonhei muito”, contou emocionada Daliana apontando para um quadro pintado pelo artista Jomar Jackson que retratou as irmãs enquanto crianças.

 
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