A Amazônia não era uma floresta intocada antes da chegada dos europeus. Um estudo publicado na revista Frontiers of Biogeography indica que a região sofreu forte interferência humana nos últimos 10 mil anos, tendo o fogo como a principal ferramenta de manejo da paisagem.
Para reconstruir esse histórico, pesquisadores analisaram 1.361 datações por radiocarbono obtidas em 303 pontos diferentes, examinando vestígios de carvão no solo e achados arqueológicos. Os dados revelam que, antes da presença humana, incêndios em florestas úmidas eram raros. Em Campo Livre, nos Andes, por exemplo, não houve registro de fogo nos 30 mil anos que antecederam a atividade humana.
A evolução do uso do fogo na região ocorreu em três etapas principais:
O uso do fogo era estratégico: servia para limpar terrenos, criar campos elevados e armadilhas de pesca. Além disso, as populações antigas desenvolveram a terra preta, solos artificiais altamente férteis. Essa prática alterou a ecologia local, pois plantas sensíveis ao calor foram substituídas por espécies resistentes, como certas variedades de palmeiras. A vegetação atual da Amazônia é, portanto, reflexo dessa pressão "pirogeográfica" milenar.
Esse ciclo de manejo foi interrompido há cerca de 600 ou 700 anos, quando populações nativas começaram a abandonar as terras. Após 1541, guerras e epidemias causaram a morte de até 95% dos habitantes locais. Com a ausência do controle humano sobre as queimadas, ocorreu um processo massivo de reflorestamento que, segundo modelos científicos, pode ter influenciado o clima global.
Os pesquisadores diferenciam essas práticas ancestrais dos incêndios atuais. Enquanto os povos antigos utilizavam o fogo para gestão pontual e sustentável do território, as queimadas contemporâneas para a criação de pastos e lavouras possuem caráter destrutivo e não seguem a lógica de manejo das tradições antigas.
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