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Dani Rodrik propõe um "novo Estado de bem-estar"

27.08.2020 | Fonte de informações:

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Dani Rodrik propõe um

Dani Rodrik propõe um "novo Estado de bem-estar"

Apesar de criticar o que chama de "hiperglobalização", ele alerta que a solução não é reaplicar as políticas clássicas do Estado de bem-estar

Por Javier Lewkowicz

"Restabelecer as estratégias de desenvolvimento através de maior permissão para introduzir proteção quando necessário, tanto para a regulação do investimento estrangeiro como para o câmbio comercial", é o caminho que deve ser adotado globalmente para evitar o rompimento do contrato social, disse o renomado economista Dani Rodrik.

Rodrik é um dos economistas mais influentes do mundo. De origem turca, ele é professor de Política Econômica Internacional na Escola John F. Kennedy da Universidade de Harvard e tem uma posição muito crítica sobre a direção que o capitalismo tem tomado desde o início dos Anos 90. "Não gerou mais consumo ou diversificação, mas crises mais frequentes e dolorosas. A globalização das finanças não implica nada de bom nas coisas que mais importam", disse ele em palestra organizada pela Universidade Torcuato Di Tella, que foi moderada Eduardo Levy-Yeyati, reitor da Escola de Governo daquele centro de estudos.

Embora Rodrik seja muito crítico em relação ao que chama de "hiperglobalização", ele também alerta que a solução não é reaplicar as políticas clássicas do Estado do bem-estar. Em vez disso, afirma que o desafio é mais complexo, uma vez que o futuro do emprego não residiria na indústria mas nos serviços e considera que o Estado deve não só garantir educação, saúde e rendimento mínimo, mas também envolver-se com o setor privado na geração de conhecimento e empregos para evitar o "dualismo produtivo", um dos grandes problemas de economias como a da Argentina.

O dualismo é dado por um nicho muito produtivo que gera poucos empregos e um grande número de setores pouco produtivos que empregam muitas pessoas.

A pandemia acelerou os problemas

Para Rodrik, a crise da pandemia do coronavírus aprofundou tendências pré-existentes que vinham prejudicando a sustentabilidade da atual organização da economia mundial.

Em primeiro lugar, está a queda do comércio mundial, que não começou com o coronavírus, e sim há mais de dez anos, após a eclosão da crise financeira de 2008. "Isso rompe com a tendência iniciada no início dos anos 1990, de aumento integração comercial. A retração é explicada em primeiro lugar pela queda dramática nas exportações chinesas em relação ao seu produto interno bruto, de 35% em 2007 para 20% hoje. Algo parecido com o que acontece na Índia", explicou Rodrik.

O economista destacou ainda a "crescente tensão entre os supostos benefícios da hiperespecialização e diversificação produtiva". A especialização reside no fato de que cada país no mundo ocupa um papel na cadeia de valor de acordo com sua maior vantagem comparativa (baixos salários, tecnologia ou recursos naturais, por exemplo) enquanto a diversificação implica proteção comercial para que o aparato produtivo nacional amplie o alcance das atividades abrangidas.

Acontece que o neoliberalismo extremo e suas instituições globais como a OMC (Organização Mundial do Comércio) e o FMI (Fundo Monetário Internacional) enfatizam o suposto benefício da especialização e o detrimento da política de proteção comercial e demais medidas regulatórias. "Mas é claro que o capitalismo globalizado em sua organização atual gera crescentes desigualdades e exclusão social", considera Rodrik.

Ligado ao acima está a tendência de deterioração na distribuição de renda, que também é anterior à pandemia. "Está ficando cada vez mais claro que é impossível compensar os 'perdedores' com os 'benefícios' da hiperglobalização", diz Rodrik.

O grande problema: a falta de autonomia

"O maior problema é a falta de autonomia que os países têm para poder aplicar políticas voltadas para a manutenção do contrato social e para o crescimento", explica o economista, e alerta que essa falta de graus de liberdade para as políticas públicas é uma das grandes diferenças em relação ao período de Bretton Woods, que prevaleceu entre o fim da Segunda Guerra Mundial e a dissolução da União Soviéticas.

Para Rodrik, há um "bom cenário" possível na pós-pandemia que consiste no seguinte: "maior permissão para introduzir proteção quando necessário, tanto para a regulação do investimento estrangeiro quanto para o intercâmbio comercial, com o fim de restaurar as estratégias de desenvolvimento".

Já o "cenário ruim" seria um endurecimento do conflito comercial, semelhante à fase que se seguiu à crise dos Anos 30.

Um novo Estado de bem-estar

"A América Latina sofre de um dualismo produtivo, com setores que têm alta produtividade, mas não geram empregos, e setores muito atrasados %u20B%u20Bque geram muito emprego. Isso reduz as oportunidades para a faixa de renda média. O Estado de bem-estar tradicional afirma que, com mais educação e saúde pública, os trabalhadores podem ter acesso a melhores empregos e, assim, melhorar suas condições de vida. Mas isso não funciona mais, porque a oferta de empregos de bons empregos não está disponível. Você tem que mudar sua perspectiva", explica Rodrik.

Para o economista, o "novo Estado-Providência" deve envolver mais políticas produtivas, com forte integração do setor privado. Isso indica que é uma prioridade melhorar as habilidades dos trabalhadores para que eles possam manobrar a tecnologia, mas também acomodar a tecnologia às habilidades dos trabalhadores. Nesse sentido, ele elogiou o caminho institucional percorrido pelo INTA (Instituto Nacional de Tecnologia Agropecuária da Argentina).

"A melhoria da produtividade não precisa vir apenas do crescimento dos setores líderes. Levando em consideração o atraso de grande parte da sociedade, simplesmente retirar as pessoas do setor informal em favor de empregos de média produtividade já melhoraria muito a situação", afirma Rodrik.

O futuro do emprego

"Pode haver proteção para certas indústrias se modernizarem. Mas não acho que os empregos na indústria vão voltar, não acho que esse seja o futuro da economia. Os grandes geradores de empregos serão os setores de serviços, saúde, educação e varejo", analisa o economista.

*Publicado originalmente em 'Página/12' | Tradução de Victor Farinelli

https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/Dani-Rodrik-propoe-um-novo-Estado-de-bem-estar-/4/48539

Foto: By Ed Schipul from Houston, TX, US - running with the seagulls, CC BY-SA 2.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=2578923

 

 

 

 

 
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