Pravda.ru

Notícias » Mundo


Barack Hussein Obama

07.10.2009 | Fonte de informações:

Pravda.ru

 
Pages: 12345

Muniz Ferreira*

A eleição do novo presidente dos Estados Unidos Barack Hussein Obama foi um acontecimento original e alvissareiro, tanto no cenário político estadunidense quanto no âmbito internacional. Conceituada por setores do campo progressista da grande nação setentrional como uma “Primavera de Possibilidades” [i] , a ascensão do primeiro afro-americano ao cargo um dia ocupado por Abraham Lincoln infundiu esperanças e expectativas favoráveis em amplas parcelas da opinião pública democrática e avançada ao redor do mundo. Passados nove meses desde a sua posse, incumbe-nos apresentar aqui alguns elementos pontuais de avaliação da trajetória até aqui trilhada por esta nova administração democrata, bem como de alguns dos desafios e possibilidades colocados a frente à sua nos meses que virão.

I – Contexto Histórico da Eleição de Obama

O triunfo do Partido Democrata nas eleições presidenciais de novembro de 2008 aparece associado àquele que é possivelmente o mais importante acontecimento da vida internacional nestes primeiros anos do século XXI: o fracasso do projeto de reordenamento unipolar do sistema internacional pelos círculos dirigentes do estado norte-americano e seu complexo militar-industrial. Tal projeto, cujos rudimentos começaram a ser esboçados nas idealizações acerca de um “novo século americano” por estrategistas de extração neoconservadora ainda no final dos anos 1990, atingiu seu ponto máximo de implementação por ocasião da formulação da Doutrina Bush, de guerra contra o terror, anunciada após os atentados do dia 11 de setembro de 2001 e a subseqüente invasão do Iraque e do Afeganistão [ii] . Seu conteúdo hegemonista, unilateral e belicista desafiava as tradições de gestão pactuada da vida internacional pelas principais potências do sistema, ameaçava todos os arranjos de administração coletiva da segurança internacional, corroia as bases dos frágeis consensos internacionais sobre a validade dos acordos, convenções e normas reguladoras das relações entre os estados e desestabilizava violentamente os esforços em prol da coexistência pacífica. Este programa de impactante essência etnocêntrica, xenófoba e imperialista foi colocado em prática através de uma curiosa e excêntrica aliança entre ideólogos neoconservadores de extrema-direita, círculos expansionistas do complexo militar-industrial e setores corruptos e cleptocráticos do mundo corporativo-empresarial, tendo como principal base social supremacistas brancos e setores de massa sob influência dos grupos religiosos fundamentalistas.

Tal política aventureira e isolacionista posta em prática, sobretudo nos sete últimos do governo de George W. Bush fez dos EUA o principal fator de desestabilização e desorganização das relações internacionais em seus mais variados aspectos, com reflexos inclusive no movimento internacional de circulação de capitais. Ademais, desequilibrou as finanças daquele estado, aprofundou a instabilidade social e encurtou a disponibilidade de recursos orçamentários à disposição do governo no momento em que se delineou a mais recente crise econômica estadunidense. Tais resultados geraram, em amplos setores da sociedade daquele país, a percepção do segundo governo G. W. Bush como sendo um enorme fracasso. Tal sentimento inspirou tanto aqueles que haviam votado anteriormente nos republicanos e reverteram seus votos em favor dos democratas, quanto a homens e mulheres, antes desestimulados com a política, que viram na candidatura de Obama uma possibilidade de mudança de rumos para a maior potência do planeta.

Como dito anteriormente, as ações desagregadoras e desestabilizadoras da administração Bush representaram na prática a negação da utopia globalista do “mundo único” (one world) regulado, fundamentalmente, pelas regras da economia de mercado. A imagem de um mundo abalado por uma guerra indefinida e ilimitada entre a maior estrutura bélica existente e grupos terroristas voláteis, dissimulados e transnacionais pouco tem a ver com a fantasia neoliberal de um orbe unificada pelo mercado global, onde ideologias igualitárias ou estatistas supostamente arcaicas cederiam lugar ao desfrute generalizado de mercadorias baratas e à fascinação com as inesgotáveis novidades da indústria high tech. No mundo do segundo presidente Bush, os acordes futuristas da cidade pós-moderna foram substituídos pelo toque de reunir da infantaria, e as fabulações sobre o declínio dos estados e a emersão da Cosmópolis pós-industrial perderam lugar para as emissões via satélite dos informes militares. O próprio conceito de globalização, palavra de poder capaz de redefinir e re-significar as discussões sobre assuntos tão variados como a preservação do meio-ambiente e a reforma trabalhista, mergulhou em um surpreendente e desconcertante ostracismo, substituído em quase todos os debates internacionais relevantes por uma expressão tonitruante: “Guerra Contra o Terror”.

Neste ponto, convém ressaltar um aspecto interessante sobre as correlações entre a guerra e a economia. Uma campanha militar pode ser um empreendimento efetivamente lucrativo para o conjunto dos atores econômicos de um país apenas se, após o seu desfecho, um amplo segmento do mundo empresarial auferir os dividendos da conquista militar, seja partilhando o botim amealhado, seja ampliando e intensificando favoravelmente as interações econômicas com o país ou região conquistado/a. Porém, durante o

 
Pages: 12345
23246