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Os dois subtextos da geopolítica

21.10.2020 | Fonte de informações:

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Os dois subtextos da geopolítica
19/10/2020, Alistair Crooke, Strategic Culture Foundation (tradução automática, revista)

Ver também
- Duplo desacoplamento, 10/10/2020, Alistair Crooke, Strategic Culture Foundation,
trad. em Blog Bacurau Homenagem ao Filme
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No nível explícito, a luta geopolítica trava-se hoje porque os EUA precisam manter a primazia do poder -, sendo o poder financeiro um subconjunto desse poder político. Carl Schmitt, cujo pensamento teve tanta influência sobre Leo Strauss e o pensamento americano em geral, defendia que os que têm poder são obrigados a 'usá-lo, ou perdem o poder'. O objetivo primordial da política, portanto, seria preservar a 'existência social' de um dos lados.

Mas, no subtexto, o desacoplamento tecnológico, com EUA desacoplando-se da China, é aspecto implícito dessa estratégia (camuflado sob a conversa de recuperar empregos norte-americanos e propriedade intelectual norte-americana 'roubados'): O prêmio que os EUA realmente buscam é tomar para si mesmos nas próximas décadas, todos os padrões globais na tecnologia de ponta, e negá-los à China.

Tais padrões podem parecer obscuros, mas são elemento crucial da tecnologia moderna. Se a guerra fria foi dominada pela corrida para construir armas sempre 'mais nucleares', a disputa de hoje entre EUA e China - assim como em relação à UE - será travada, pelo menos em parte, como luta na qual se disputa o poder para fixar as regras burocráticas que estão por trás das indústrias mais importantes de nosso tempo. E essas normas estão aí, à mão, para serem colhidas.

Há muito tempo a China vem-se posicionando estrategicamente para combater nessa 'guerra' por padrões tecnológicos (vide China Standards 2035, projeto para cibergovernança e data-governança).

O mesmo argumento é válido para as cadeias de suprimento que estão agora no centro de um cabo de guerra que tem relevantes implicações para a geopolítica. Desemaranhar o rizoma das cadeias de suprimento construídas ao longo de décadas de globalismo é difícil e oneroso: as empresas multinacionais que vendem para o mercado chinês quase nem tem escolha, além de tentar permanecer no mercado.

Entretanto, se persistir o desacoplamento como política externa chave dos EUA, nesse caso os mais variados produtos, de servidores de computador, até iPhones Apple, podem acabar por ter duas cadeias separadas de suprimento - uma para o mercado chinês, outra para grande parte do resto do mundo. Será mais caro e menos eficiente, mas a política está pressionando (pelo menos por enquanto), na direção desse formato.

Então, onde estamos nessa luta de desacoplamento? Até agora, é um saco sortido. EUA têm-se concentrado em desacoplar certas tecnologias de ponta (que também têm duplo potencial, civil e de defesa). Mas Washington e Pequim têm-se mantido longe do desacoplamento financeiro (até agora) - já que Wall Street não quer perder um comércio financeiro bidirecional de US$ 5 trilhões.

Há alguns anos, quando viajavam pela Europa, os passageiros em vários casos tinham de trocar de trem ao chegar à fronteira, deixando um de um lado da fronteira, para tomar outro, do outro lado, vagões e locomotivas. Ainda é assim. As ferrovias operavam em trilhos de bitola totalmente diferente. Ainda não chegamos a esse ponto na Tech. Mas é provável que o futuro se torne mais complexo - e mais caro - caso Europa, EUA e China adotem protocolos diferentes para 5G. Esse processo, com sua baixa latência, permite que diversas faixas de dados sejam mineradas, e modeladas [ing. diverse strands or data to be mined and modelled], quase em tempo real (fator que muda o jogo para os sistemas de alvo e de defesa aérea de mísseis, onde cada milissegundo faz diferença).

Será possível, então, que a tecnologia 5G venha a ser dividida em duas porções concorrentes para refletir diferentes padrões, norte-americanos e chineses? Outsiders que queiram competir, talvez descubram que será indispensável fabricar equipamentos separados, para diferentes protocolos. Também é possível algum tipo ou 'dose' de divisão em semicondutores, inteligência artificial e outras áreas, nas quais é intensa a rivalidade entre EUA e China é intensa. Por enquanto, a infraestrutura da Rússia e do Irã é totalmente compatível com a chinesa. O Ocidente ainda não é "calibre separado"; ainda pode trabalhar com Irã e Rússia, mas a dupla funcionalidade na esfera tecnológica custará - e provavelmente exigirá - cuidadoso trabalho jurídico, para que se evitem sanções legais ou regulatórias.

E, só para que não restem dúvidas: a batalha por influência sobre as normas técnicas é separada da 'Guerra Regulatória' na qual as ecoesferas de dados, de IA e regulatórias estão sendo 'balcanizadas'. A Europa é quase inexistente na esfera de análise de nuvem, mas tenta recuperar-se rapidamente. Tem de se recuperar. A China está tão à frente, que à Europa só resta invadir à força esse espaço, ou seja, 'regulando' os negócios da nuvem americana (já sob a ameaça antitruste dos EUA), para a Europa.

As empresas de nuvem fornecem a seus clientes armazenamento de dados, mas também ferramentas sofisticadas para analisar, modelar e compreender os vastos conjuntos de dados encontrados na nuvem.

O enorme tamanho dos modernos conjuntos de dados provocou uma explosão de novas técnicas de extração de informações. Essas novas técnicas são possíveis graças aos avanços contínuos no poder e velocidade de processamento de computadores, bem como mediante agregação de capacidade computacional para melhorar o desempenho (processo conhecido como Computação de Alto Desempenho, ing. High-Performance Computing, ou HPC).

Muitas destas técnicas (mineração de dados, ing. 'data mining'; aprendizagem maquínica, ing. 'machine learning'; ou IA) referem-se ao processo de extração de informações a partir de dados brutos. Aprendizagem maquínica (ou 'de máquina') refere-se ao uso de algoritmos específicos para identificar padrões em dados brutos e representar os dados como um modelo. Esses modelos podem então ser usados para fazer inferências sobre novos conjuntos de dados ou orientar a tomada de decisões.

O termo "Internet das Coisas" (ing. Internet of Things, IoT) geralmente se refere a uma rede de computação conectada e dispositivos físicos que podem gerar e transmitir automaticamente dados sobre sistemas físicos. O 'sistema nervoso' que serve tais 'mensagens corporais' será 5G.

A UE já está regulando os Grandes Dados; pretende regular as plataformas de Nuvem dos EUA; e está procurando estabelecer protocolos da UE para algoritmos (para refletir os objetivos sociais da UE e os 'valores liberais').

Todas aquelas empresas que dependem da análise da Nuvem e do treinamento de máquinas, portanto, serão afetadas por essa fragmentação regulatória em esferas distintas. As empresas, naturalmente, precisam dessas capacidades para rodar com efetividade robôs e sistemas mecânicos complexos - e para reduzir custos. Recursos de analítica têm sido responsável por enormes ganhos de produtividade.

A empresa Accenture estima que só o setor de analítica poderia agregar até US$ 425 bilhões em valor, até 2025, na indústria de petróleo e gás.

Foram os EUA que desencadearam o round atual de desacoplamento, mas a consequência dessa decisão inicial é que empurrou a China a responder com movimento próprio, para se desacoplar dos EUA, na vanguarda da tecnologia.

Agora, a intenção da China não é simplesmente refinar e melhorar a tecnologia conhecida, mas saltar por cima do conhecimento existente, para um novo domínio tecnológico (por exemplo, descobrindo e usando novos materiais que superem os limites atuais da evolução do microprocessador).

Os chineses podem, sim, ser bem-sucedidos - nos próximos três anos mais ou menos - dados os enormes recursos que a China está destinando a essa tarefa (isto é, com microprocessadores). Isto pode alterar todo o cálculo tecnológico - concedendo à China a primazia sobre a maioria das áreas-chave da tecnologia de ponta. Estado algum poderá ignorar facilmente esse fato - quer 'gostem' quer 'não gostem' da China.

O segundo 'subtexto' dessa luta geopolítica

Assim chegamos ao segundo 'subtexto' dessa luta geopolítica. Até agora, tanto EUA como China mantiveram a finança amplamente separada do principal desacoplamento. Mas pode estar em andamento uma mudança substancial.

EUA e vários outros estados estão brincando com as moedas digitais do Banco Central, e as plataformas de internet da FinTech começam a deslocar as instituições bancárias tradicionais. Pepe Escobar observa:
Donald Trump está ruminando restrições a serem impostas à [plataforma] Alipay da Ant e outras plataformas chinesas de pagamento digital, como Tencent Holdings (...) e, como com Huawei, a equipe de Trump alega que as plataformas de pagamento digital da Ant ameaçam a segurança nacional dos EUA. O mais provável é que Trump esteja preocupado com o fato de a Ant ameaçar a vantagem no banking global que os Estados Unidos há muito tempo consideram assegurada.

A equipe Trump não está sozinha. O gerente de fundos de hedge dos EUA Kyle Bass da Hayman Capital argumenta que Ant e Tencent são "claros e apresentam perigos para a segurança nacional dos EUA, que agora nos ameaçam mais do que qualquer outra questão".

A Bass estima que o Partido Comunista Chinês esteja empurrando seu sistema de pagamento digital em yuan para estimados 62% da população mundial, por vias que ameaçam a influência de Washington. O que começou como mero serviço de pagamento on-line transformou-se num gigante de serviços financeiros. Está-se tornando uma potência em empréstimos, apólices de seguro, fundos mútuos, reservas de viagens e todas as sinergias entre plataformas para vendas e economias de escala.

No momento, bem mais de 90% dos usuários da Alipay usam o aplicativo para muitos outros serviços além de pagamentos. Está-se "criando efetivamente um ecossistema de circuito fechado, no qual não se precisa de dinheiro para deixar o ecossistema da carteira" -, diz a analista Harshita Rawat da Bernstein Research.

Rawat observa que Ant tem "usado seu serviço de pagamento como mecanismo de aquisição de usuários para construir características mais amplas de serviços financeiros". Isso inclui encontrar maneiras de cruzar as ambições da Ant, que quer ser o shopping de serviços financeiros da China, com o bazar online de Alibaba hoje dominante (...).
Considerando que muitos chineses já baixaram o aplicativo Alipay, o CEO Eric Jing procura exportar seu modelo para o exterior. Está colaborando com nove empresas start-ups da região, incluindo a GCash nas Filipinas e a Paytm na Índia. A Ant planeja usar os lucros de sua lista de ações para acelerar o movimento de pivô para o exterior.
O ponto aqui é duplo: A China está preparando o cenário para desafiar um "dólar fiat", em um momento sensível de fraqueza do dólar. E, em segundo lugar, a China está colocando "fatos em solo" - moldando padrões de baixo para cima, mediante a adoção generalizada de sua tecnologia no exterior.

Assim como Alipay fez enormes incursões pela Ásia, o projeto "Cidades Inteligentes" da China difunde os padrões chineses, precisamente porque incorporam tantas tecnologias: sistemas de reconhecimento facial, grandes análises de dados, telecomunicações 5G e câmeras AI. Todas representam tecnologias para as quais os padrões permanecem em disputa, ainda não resolvidos. Assim, as 'cidades inteligentes', que automatizam múltiplas funções municipais, ajudam adicionalmente a impulsionar os padrões chineses.

De acordo com pesquisa da RWR Advisory, empresa de consultoria sediada em Washington, desde 2013 as empresas chinesas firmaram 116 contratos  para instalar pacotes de 'cidades inteligentes' e 'cidades seguras'  em todo o mundo, sendo que 70 deles aconteceram em países que também participam da Iniciativa Cinturão e Estrada. A principal diferença entre os equipamentos 'inteligentes' e 'seguros' da cidade é que o segundo destina-se principalmente a pesquisar e monitorar a população; e o primeiro visa principalmente a automatizar as funções municipais, incorporando também funções de vigilância.

Cidades da Europa Ocidental e do Sul assinaram um total de 25 contratos para projetos 'inteligentes' e 'seguros'.

Mark Warner, vice-presidente Democrata da Comissão de Inteligência do Senado dos EUA, vê a ameaça da China em termos severos: Pequim pretende controlar a próxima geração de infraestrutura digital, diz ele, e, ao fazê-lo, impor princípios "que são antitéticos aos valores dos EUA".

"Nos últimos 10 a 15 anos, o papel de liderança [dos EUA] tem sofrido erosão e nossa influência para estabelecer padrões e protocolos que reflitam nossos valores tem diminuído" - Warner lamenta. - "Como resultado, outros, mas principalmente a China, entraram no vazio para avançar padrões e valores que beneficiam o partido comunista chinês".

Todos os sinais apontam para a China exercendo mais influência sobre os padrões tecnológicos globais. No entanto, é igualmente certo que o revide de Washington está aumentando.

Caso os EUA tornem-se mais confrontacionais, pode acontecer de a China a acelerar um movimento em direção a alternativas paralelas. Assim se poderia chegar, em última instância, a uma arena bifurcada de padrões industriais.*******


Foto: By Nicolas Spykman - Macedonian Academy of Sciences and Arts, CC BY-SA 4.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=45333175

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