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El Quixote de la Paulista

29.12.2008 | Fonte de informações:

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Raul Longo

Me desculpem. Não quero lhes estragar a festa de hoje, mas preciso contar. Contar daquela noite do ano de 1966 quando Carlos Rimonato, colega secundarista, me leva ao Bar Sem Nome na Rua Dr. Vila Nova (São Paulo - Vila Buarque) para conhecer seu primo artista plástico, de quem contara o que imaginei serem fantasias.

Carlinhos pergunta a um e outro, à proprietária do bar, que só era bar à noite, pois durante o dia prestava serviços de quitanda: - Sabe do Joel? Informaram que não aparecia há algum tempo.

De fato, naquela noite não conheci o primo do Carlinhos, mas como os sumiços do Joel se tornaram costumeiros ao longo das décadas, quando nos anos 80 encontrou minha casa em Ubatuba, me preocupei. Algumas noites depois dele dormindo na minha canoa, que elegera como berço dispensando a cama de um quarto de hóspedes, e acordando a mim e minha atônita companheira com o barulho da embarcação oscilando à deriva no piso cerâmico da sala que a abrigava e à qual decorava, por ter sonhado com um naufrágio; perguntei: - Joel, Neide sabe que você está aqui?

Contou que dissera à Neide, sua última companheira, e à filha Patrícia, sua intenção de passar uns dias na praia. Daí só visitara um amigo em Bertioga, outro na praia da Maçaranduba, de onde saíra a minha procura pelos 100 kms litorâneos de Ubatuba. Em se tratando de Joel, isso era coisa pouca. Sosseguei e Joel se estabeleceu por mais de mês. Voltei a preocupar, pois sabia dos sustos de Neide com as intemperanças do amigo. Moravam então num sítio afastado, às margens da bonita represa de Guararema.

Aproveitando que teria de ir pra São Paulo, insisti que viesse comigo. Queria seguir para Parati e que eu o acompanhasse. Dinheiro não tinha, porque nunca manteve dinheiro no bolso por mais do que poucas horas. Conhecendo-o bem, fui irredutível: só lhe pagaria a passagem se embarcasse comigo, pois o mesmo ônibus de 4 horas de viagem até São Paulo obrigatoriamente teria de passar às margens de Guararema, pela Via Dutra. Pouco antes da entrada de sua cidade, Joel lembra-se de um certo comprador em São Paulo que lhe devia parte do valor de uma obra. Rosnei os palavrões que poderiam ser rosnados dentro do ônibus lotado e Joel jurou que na tarde daquele mesmo dia voltaria para sua casa. Não acreditei, mas o que poderia fazer? Em São Paulo ninguém segurava Joel e só ficou a promessa do retorno.

Quase 2 meses depois me liga um nosso amigo comum, para saber se tinha alguma informação sobre o Joel. Conforme Neide lamentara, estava sumido há mais de meio ano.

Joel sumia e aparecia como qualquer personagem de fábulas. Era comum um amigo estranhar como uma peça desaparecida de seu vestuário, surgia na casa de outro, para depois lembrar que emprestara aquela camisa, calça ou sapatos ao Joel. Já sabíamos o que responder: - Espera que o Joel vai deixar na sua casa a roupa que emprestei pra ele trocar essa sua. Não apenas socialista, Joel era socializante.

Anos 80. Os amigos prepararam uma reconciliação de Joel Câmara com a sociedade paulista e carioca. Uma merecida e justificável reentrada no cenário artístico e intelectual que ele tanto desprezou a ponto de cair no ostracismo, depois de anos de reconhecimento internacional pela excepcionalidade de seus desenhos.

Incumbiram Neide, sua última e mais paciente companheira, de administrar o Joel. Ela fez tudo certinho, estabeleceu todos os contatos, seguiu todas as orientações dos marchands e experts. Mas cometeu um erro cabal e fulminante: no dia da vernissage repassou ao Joel o dinheiro, patrocinado por importantes instituições e consulados, para recolher as obras entregues aos serviços de finas molduras implantadas por um certo especialista da Rua Frei Caneca.

Joel foi, acatando placidamente as recomendações e pleno de promessas sóbrias. Estava integralmente cônscio de que o moldureiro o esperava. A transportadora também o esperava, na porta do moldureiro. Era só entregar o dinheiro do custo dos serviços e retornar com as obras para a montagem da exposição que se abriria às 20 horas em uma das mais badaladas lojas de arte da tradicional Praça Dom José Gaspar, ao lado da Biblioteca Mário de Andrade, reduto da fina intelectualidade paulistana de então.

No acaso desses nossos caminhos, sempre aparece um irmão necessitado a pedir uma pratinha para um alívio líquido à dureza do viver. Talvez até em nome de Deus, mas como não estava junto, não posso assegurar. Bem conhecendo o Joel, posso, sim, ouvir sua resposta: - Em Deus não confio, mas Jesus Cristo me ensinou que se deve dar de beber a quem tem sede. E meu compadre Karl Marx complementou que melhor do que dar é repartir. Então comparto com você o que mais conservo em meu sangue: à cachacinha.

Apesar dessa indisposição do Joel com o ser Supremo das igrejas que ele abjurava, não posso omitir aqui que quando o apresentei a um pedreiro meu amigo, declinando o nome do profissional: Jeová, o profético Joel, com deferência, reconheceu de imediato apertando a mão calosa: "- Opá! Meu superior hierárquico!

 
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