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A resposta

04.10.2009 | Fonte de informações:

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Raul Longo

Crianças que usufruem oportunidades de instrução estariam, aparentemente, mais bem preparadas para enfrentar os desafios que se apresentam como problemas a serem respondidos no decorrer da vida. No entanto, a vida não é exatamente uma tarefa escolar que se resolve aplicando as regras ensinadas pelos professores. Aliás, como afirmava o poeta português, a navegação é uma atividade precisa, exata. Viver, não.


Viver é impreciso para todos. E isso se comprova nos resultados de desconcertantes pesquisas que apontam maior número de tentativas e óbitos por suicídio entre classes sociais mais afortunadas do que entre as mais pobres. Em todas as nacionalidades. Entre a infância e juventude do Japão se apresentam um dos mais altos níveis de escolaridade do mundo, no entanto, tragicamente o país também detém o maior índice de suicidas nesta faixa etária.


Na imponderabilidade humana, há casos de suicídios até por motivos de afirmação e não de negação às próprias insuficiências de respostas aos desafios existenciais. Mas no geral, na grande maioria dos casos, o suicídio é um sintoma da impossibilidade de apresentar respostas. E o mais trágico é não ser o único nem o mais prejudicial.


Ainda mais prejudicial é aquele que, por não ter respostas, prejudica a outros. Quantos não são os esquartejadores, estupradores, pedófilos e portadores de outras taras e desvios provocados por questionamentos para os quais não lograram encontrar resposta?


Segregamos estas pessoas do meio social, evitando que produzam novas vítimas, mas há muitos bem mais prejudiciais a que distinguimos. Quando pensamos nesses casos, sempre recordamos de Hitler, mas se prestássemos atenção conferiríamos na história de todos os países muitos líderes que prometeram respostas e somente apresentaram maiores problemas.


Aqui no Brasil, podemos nos lembrar vários deles. Desde os que prometiam respostas comparadas a golpes de karatê, até os que menosprezavam a falácia de suas respostas com a justificativa de que "assim não dá, assim não pode".


Uma falácia recorrente é a mítica da crença nas receitas acadêmicas para a formulação de respostas efetivas. Nem mesmo as mais exatas ciências deram conta das inúmeras imponderabilidades da realidade, o que se comprova no desenvolvimento da física e química quântica.
Infelizmente o ser humano é refratário à mudança de rotina, à criatividade. Teme o novo, mesmo quando o novo repetitivamente comprova-se melhor e superior ao tradicional. E por mais que o tradicional tenha sido nefasto através dos anos ou dos séculos.


A história comprova diversas demonstrações desse nosso medo, como quando tivemos medo de aceitar a forma esférica do planeta. Resistimos à conclusão de que a Terra se move em torno do Sol, condenando Galileu. Imaginávamos que o filho de um mero fabricante de alaúdes jamais poderia apresentar respostas mais corretas e precisas do que a erudição do Papa?


Na falta de respostas, nossa insegurança e medo sempre nos fazem preconceituosos demais para aceitar o novo. Preferimos a falsa sensação de segurança das velhas mentiras à evidência da realidade de novas respostas, até mesmo quando usufruímos os benefícios dessas respostas ao que antes nos vitimava.


E assim têm sido o ser humano em todas as partes do mundo. Na cidade do Rio de Janeiro, por exemplo, já se viveu diversos momentos semelhantes àqueles sofridos por Galileu Galilei. Isso ocorreu quando da resposta de Oswaldo Cruz ao desafio da varíola através de uma vacina. Políticos e a imprensa da época fomentaram a Revolta da Vacina, que, durante o mês de novembro de 1904, promoveu depredações, barricadas, queima de veículos coletivos, depredação de patrimônio público e levante militar; culminando com decretação de estado de sítio e resultando em 50 mortes, 110 feridos, centenas de encarcerados e muitos deportados.


Um século depois, em julho de 2007, na abertura dos Jogos Pan-Americanos, o estádio do Maracanã vaiou o Presidente Lula. Perante todas as delegações do continente, o presidente foi impedido de pronunciar o discurso de abertura daquele evento, apesar de ter sido o principal responsável por sua realização naquela cidade.


Mais uma manifestação da imponderabilidade humana? Nem tanto, pois logo se comprovou que a vaia fora montada e ensaiada pelo então prefeito César Maia que a partir de então passa a ser parodiado pela própria população carioca como César Vaia.


Na ocasião, César Maia declarou-se satisfeito consigo próprio: “Sou um profissional de vaia. Já fui vaiado na minha vida muitas vezes. Isso sempre gera para a gente desconforto, uma sensação de mal-estar. Nosso presidente não se sentiu bem. Senti que ele estava em uma situação difícil...” Comportamento padrão do sem-resposta, esse declarado esforço pelo constrangimento daquele que tenha apresentado alguma resposta plausível, também se baseia na mítica do academicismo. Impossível a este crente aceitar que outro de menor instrução escolar apresente respostas efetivas a problemas como dívida e descrédito internacional, miséria e violência social, atraso, exclusão, ausência de infra-estrutura e tantos outros.


Navegar é preciso, exato. Viver, não.


Astrolábios, conhecimentos astronômicos, bússolas e outros recursos náuticos, garantem a precisão dos caminhos do mar. Já na vida os desafios exigem respostas que por vezes sequer a biologia responde.

 
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