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Que fizeste quando vieram atrás do dissidente?

04.01.2010 | Fonte de informações:

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No Brasil, tudo é festa nesse final de 2009, e a míope imprensa estrangeira, com exceção de The Economist, enxerga o presidente Lula como um estadista, o grande homem que levou o Brasil a assumir a posição de “protagonista internacional”.

O Jornal francês Le Monde elegeu Lula "O homem do ano", numa reportagem escrita por um correspondente que parecia observar o País a partir de Marte. Talvez o objetivo por trás dessa rasgação de seda toda seja o desencalhe dos aviões de caça Rafale.

Se a economia vai bem, isso não significa que a gastança atual não irá comprometer o futuro, muito pelo contrário. Nossa infraestrutura continua um lixo, nenhuma reforma foi feita, política, tributária, previdenciária, nada. Ah, perdão, fizemos a reforma ortográfica, com a economia de alguns acentos e uma confusão danada nos hífens.

Terminar 2009 com um jornal sob censura há cinco meses é vergonhoso, uma vergonha potencializada pelo patrocínio do Judiciário em sua mais alta instância. O Brasil se contradiz a cada instante.O Supremo revoga a Lei de Imprensa da ditadura, e referenda a censura do poder de cautela, na brilhante definição de seu decano, discordante da temerária decisão, ministro Celso de Mello.

Em 1964, havia uma música satírica, O Samba do Crioulo Doido, que pode e deve voltar à moda, porque aqui as questões nunca são definitivas. Nem a palavra do Supremo é final, nem as suas decisões mais lúcidas deixam de ser sabotadas, através de tentativas de emendas constitucionais, como a PEC que quer porque quer reinstituir a obrigatoriedade do diploma de jornalista, recém-abolida pelo STF.

O secretário de Direitos Humanos, Paulo Vanucchi, contrata uma crise com os militares, insistindo na revogação da Lei de Anistia, que beneficiou a ambos os lados. Trinta anos depois, querem mudar a Lei, que, sabem os juristas, nunca retroage para prejudicar uma das partes.

Em vez de ficar procurando ossadas e desenterrando esqueletos, Vanucchi melhor faria se lutasse, com gana, pelos direitos humanos dos vivos, violados nas prisões abarrotadas e imundas, no trabalho infantil e no adulto, escravo; pela saúde, direito humano mais básico depois da liberdade.

Vanucchi deveria insuflar os pulmões e gritar bem alto contra a censura que se instala gradativamente, lutar para acelerar a implantação, urgentíssima, de defensorias públicas em todos os cantos do Brasil. Deveria xingar, alto e bom som, os autores e defensores da PEC dos Precatórios, o mais vergonhoso dos calotes, aquele praticado pelo Estado.

Nesse fim de ano institucionalmente tenebroso, com toda a sujeira do Senado e da Câmara referendada por quase tantos quantos deveriam lutar para que seja exposta e combatida, nós, cidadãos, ganhamos de presente a manutenção do veto ao jornal que denunciou toda a imundície dos atos secretos.

O fim desse ano que Arnaldo Jabor, com sua mais que autorizada licença crítico-poética classificaria, talvez, como "escroto", tem as digitais de Lula, de quem não se ouviu um pio a respeito da abominável decisão judicial em favor de um familiar de seu grande protegido, cidadão incomum.

O Anno Domini de 2009 encerra-se com a ditadura iraniana endossada por Lula da Silva, uma das 50 "personalidades" mais influentes da década (que ainda não terminou, como observou o comentarista Celso Ming), segundo o jornal britânico Financial Times, de uma nem tão honrosa lista que inclui Osama Bin Laden.

E aplaude a tragicomédia de nossa embaixada em Tegucigalpa, vergonhosamente transformada em pensão de um político legalmente deposto por ter afrontado a Constituição de seu país.

Como dito em recente artigo, hoje, a blogueira cubana Yoaní Sanchez tem mais liberdade para se fazer ouvir que nós, brasileiros de opinião e voz sub judice.

Aqui vão as palavras de Yoaní, no post que recebi dela ontem. Não poderiam ser mais oportunas as palavras por ela lembradas, sob o título: ¿Qué hiciste cuándo vinieron buscando al inconforme? (Que fizeste quando vieram prender o dissidente?)

O título da postagem é uma referência à frase de Niemöller, citada na Carta: "Quando vieram atrás dos judeus, calei-me, pois não era um deles; quando vieram prender os comunistas, silenciei, eis que não era comunista; quando vieram em busca dos sindicalistas, calei-me, pois eu não era sindicalista; depois, vieram me prender, e ninguém disse nada".

“Para contextualizar esta ideia,” diz Yoaní, “eu gostaria de perguntar aos signatários do documento se irão calar-se quando vierem atrás de um ‘contrarrevolucionário’, de um ‘verme’, de um ‘opositor’; se estarão eles entre os que batem nos participantes de comícios de repúdio ou entre os que defendem a vítima.”

É isso aí, a liberdade de expressão é para todos, e se calam os jornais, blogs, escritores, chegará o dia em que submeterão os demais, qualquer um que discorde dos que estão no comando, até o dia em que uma revolução sangrenta irrompa, como ocorre hoje no Irã. Revolução, que exagero, dirão alguns. São tão poucos os mortos, meras centenas os presos políticos...

Mas, se Lula é o grande artífice do desmanche institucional do País, figuras como José Serra, Aécio Neves, Cristovão Buarque, Marina Silva (sim, ela mesma), Ciro Gomes, e mais um balde de nomes ilustres, são coniventes porque se calaram, ou fizeram constrangidoscomentários, quando muito, em oportunista reverência à popularidade de "O Cara".

 
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