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O imperialismo da virtude

10.01.2021 | Fonte de informações:

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O IMPERIALISMO DA VIRTUDE


Uma das características, hoje, do capitalismo é a apropriação que seus agentes fazem dos movimentos que, teoricamente, se destinariam a contestar sua permanência como modelo econômico e social.


Há muito, chama a atenção que pautas identitárias, como o feminismo e a luta contra o racismo e o machismo, recebam sempre uma acolhida favorável na mídia tradicional.
Isso acontece porque elas não afetam a estrutura do sistema e ajudam a que ele possa se apresentar com uma cara mais moderna e civilizada.


O ponto de partida para essa nova moldura para o velho capitalismo vem, como não poderia deixar de ser, dos Estados Unidos. Em seu livro O Imperialismo da Virtude, Yves Dezalay e Bryant Garth, traçam um painel  histórico da mudança de características do imperialismo nas suas relações com a sociedade.


Dizem eles que a estratégia de dominação econômica dos Estados Unidos é revestida de uma aparência virtuosa sustentada por instituições filantrópicas. A hegemonia imperialista inclui a formação de elites intelectuais do mundo subdesenvolvido em universidades norte-americanas.


Segundo eles, o imperialismo simbólico americano deve uma parte de seu sucesso ao fato de se construir de maneira oposta ao modelo colonial europeu. Em razão de sua própria história, ele é um modelo político ambíguo no qual a competição não existe apenas no terreno do mercado e do lucro, mas também no da moral cívica. Uma filantropia de vocação hegemônica completa e reforça a dominação de Wall Street.


Para Dezalay e Garth "essa conversão para a virtude cívica servia a um duplo interesse. A faxina simbólica de fortunas tão espetaculares quanto duvidosas contribuía para consolidar o sucesso de especuladores que não se importavam com a legalidade. Ao mesmo tempo, esse investimento moral permitia aos mercenários do Direito restabelecer uma legitimidade profissional bastante mal-tratada por seus clientes inescrupulosos".


Num primeiro momento, em função da Guerra Fria, a opção dominante do imperialismo nasceu dos economistas da Escola de Chicago. Por não serem reconhecidos pelas instituições de elite da costa Leste, dominadas por democratas, os pioneiros - muitas vezes republicanos - da Escola de Chicago, migraram para Santiago do Chile, onde seus discípulos se colocaram a serviço de Pinochet.


Todo um marketing de mídia abriu as portas para Ronald Reagan apresentando os primeiros sucessos econômicos dos "Pinochet boys" como prova da pertinência das teorias de Chicago.


Para os dois, "foi devido à ação de ONGs e da imprensa norte-americana que ocorreu a transição da violência política para a linguagem do legalismo e do universalismo. A imposição de uma orientação de leitura anglo-saxônica teve que pagar o preço da despolitização. A mobilização internacional pelos direitos humanos acabou beneficiando principalmente uma pequena minoria de intelectuais da política"


Mais adiante, continuam Dezalay e Garth:
"Hoje esse imperialismo da virtude repousa essencialmente sobre a ação de um tipo de instituição particularmente norte-americana que são as grandes fundações filantrópicas, criadas pela primeira geração de desbravadores capitalistas: Rockefeller, Carnegie, Ford, hoje copiadas por seus sucessores Milken, Soros ou Gates. Após servir de capangas aos "barões ladrões" (robber barons), os lawyersde Wall Street os ajudaram a reinvestir uma parte de sua fortuna em fundações que se tornaram os pilares da estratégia reformista de um capitalismo esclarecido"


Esse tipo de atuação das lideranças capitalistas, nascido nos Estados Unidos, está sendo copiado no mundo inteiro, inclusive no Brasil. Um exemplo disso é o Instituto Millenium, criado em 2005  pela economista Patrícia Carlos de Andrade e pelo professor de filosofia Denis Rosenfield, que visa difundir uma visão liberal do mundo, mas que acabou adotando posições de direita no espectro político brasileiro. Millenium conta com o apoio de importantes grupos empresariais e dos  meios de comunicação de massa, buscando influenciar a sociedade brasileira através da divulgação das idéias de seus representantes, especialistas e colunistas; Entre seus associados, estão figuras conhecidas como os economistas Armínio Fraga, Alexandre Schwartsman,  Gustavo Franco; empresários  como Jorge Gerdau, Nelson Sirosty, Willian Ling, João Roberto Marinho e jornalistas como Pedro Bial e Rodrigo Constantino.


Marino Boeira é jornalista, formado em História pela UFRGS

 

 
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