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O grande negócio do futebol

08.07.2010 | Fonte de informações:

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por Marcos Coimbra

Na sua edição de junho do corrente ano, o Jornal dos Economistas, órgão oficial do CORECON-RJ e do SINDECON-RJ publica três excelentes trabalhos sobre Economia e Futebol. Um artigo escrito pelo Engenheiro Júlio Bueno, candidato a presidente do Fluminense e duas excepcionais entrevistas, uma concedida pelo editor da revista Quel Sport, Sr. Fabien Ollier e outra pelo Economista Luiz Gonzaga Belluzzo, presidente do Palmeiras.

Belluzzo afirma: “Não há chances da situação dos clubes melhorar sem que se faça uma reestruturação das dívidas”. Ainda: “Uma das transformações ocorridas do mercado é que o poder ficou na mão dos empresários. Mais recentemente, houve a formação de empresas que são verdadeiras atacadistas do mercado do futebol, que detém direitos de centenas de jogadores”. Bueno assevera que: “O futebol brasileiro é penta campeão mundial, mas os clubes estão à míngua”. E mais: “Recente estudo da Crowe Howarth RCS estima que, a partir de 2010, o futebol brasileiro será um negócio anual em torno de 2,1 bilhões de reais ou cerca de 940 milhões de euros (um euro= R$ 2,2275). O trabalho apontou ainda que a dívida dos 20 maiores clubes brasileiros alcança hoje R$ 2,7 bilhões. São compromissos basicamente com governos, trabalhistas e cíveis”.

Já o editor Ollier enfatiza: “Basta mergulhar na história das Copas do Mundo para que se perceba a longa infâmia política e a estratégia de alienação planetária”. Acrescenta: “A expressão do capital mais predador está em ação: as multinacionais parceiras da FIFA e várias organizações mafiosas já chegaram à África do Sul para tirar os maiores benefícios possíveis. Um bom número de jornalistas que investigaram em profundidade o sistema FIFA destacou o modus operandi bastante sórdido da organização. Há uma boa base de indecência em fazer acreditar que a população se beneficiará com tudo isso: a limpeza das favelas, a expulsão de moradores, a renovação luxuosa de algumas áreas... Com a maioria da população vivendo com menos de 2 euros por dia, esta exibição de riqueza é, no mínimo, questionável”.

Sempre evitamos escrever sobre uma de nossas maiores paixões, justamente o futebol, para evitar possíveis excessos, mas após ler os trabalhos citados e considerando a oportunidade da realização da atual Copa do Mundo, com a eliminação da seleção brasileira, foi impossível resistir.

Para quem participou como espectador e admirador do futebol brasileiro antes de 1974, como nós, fica difícil aceitar o que ocorre atualmente não apenas no Brasil, como no mundo, no relativo ao esporte bretão. Naquela época, os atletas vestiam a camisa e a honravam, qualquer que fosse o clube que defendiam. Os torcedores conheciam de cor a escalação de sua equipe, durante anos. No Rio de Janeiro, o Fluminense, nosso clube de coração, tinha Castilho, Telê, Valdo, Didi e tantos outros. O Vasco, Barbosa, Danilo, Belini, Ademir. O Botafogo, Garrincha, Nilton Santos, Amarildo, Manga. O Flamengo, Garcia, Rubens, Dequinha, Dida. Eram bons tempos! Sabíamos que os dirigentes chegavam a colocar recursos dos seus respectivos bolsos para enfrentar as despesas necessárias. Tinham recursos e sua recompensa maior era a vitoria do seu clube.

Agora, a dura realidade é outra. Dirigentes usam o esporte, principalmente o futebol para enriquecerem, fazer carreira política e usufruírem as benesses do prestígio obtido pelos jogadores. Estes, em sua grande maioria, são mercenários sem coração, com as exceções que confirmam a regra, ganhando milhões de dólares por ano e trocando de clube como quem troca de camisa diariamente. Fica praticamente impossível a um torcedor comum saber a escalação do time de seu clube de coração. Às vezes, até ele se confunde ao assistir uma peleja ao ouvir os nomes dos atletas que a disputam.

A introdução de loterias esportivas no mundo inteiro começou a conspurcar a pureza do esporte, devido ao incremento das apostas, motivadoras de pressões de toda ordem sobre dirigentes, árbitros e jogadores. Resultados fabricados, juízes corruptos, atletas vendidos, dirigentes venais e interesses políticos de baixo nível passaram a ser rotina. Como explicar de outra maneira as vitórias em Copa do Mundo da Argentina (1978) e da França (1998)? A goleada vergonhosa dos “hermanos” sobre o Peru entrou nos anais sórdidos da história do futebol mundial.

Como entender o problema de Ronaldo fenômeno e da apatia da nossa seleção na humilhante derrota na França? Não há mais espaço para os idealistas e apaixonados ingênuos do esporte das multidões. Não restou pedra sobre pedra, principalmente após a entrada das grandes empresas multinacionais, anunciantes, fabricantes de material esportivo e outras no cenário. Com seu incomensurável poder econômico fazem o que querem, agindo de forma a que os resultados das partidas e as vitórias nos grandes campeonatos sejam adequados aos seus objetivos econômicos e estratégicos. E agora, interferem em políticas públicas dos países com a desculpa de determinadas obras, verdadeiros “elefantes brancos” serem indispensáveis para a realização das competições.

 
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